While I
Die é o álbum de apresentação dos portugueses Stone Of Patience, mas revela
desde logo a ambição de construir um universo próprio. Formada em 2024, a banda
nasceu da vontade de músicos experientes criarem um projeto assente na
honestidade artística e na liberdade criativa. O resultado é um disco que
privilegia a emoção, a narrativa e a coerência conceptual, assumindo-se como o
primeiro capítulo de uma história que promete ir muito além desta estreia.
Nesta conversa com Nuno Romero, falámos sobre a génese dos Stone Of Patience,
uma banda que dá agora os primeiros passos, mas que revela desde já uma visão
artística bem definida.
Olá, Nuno, como estás? Para
começar, obrigado pelo teu tempo. Para quem ainda não conhece os Stone Of
Patience, como apresentarias a banda e este primeiro capítulo intitulado While I Die?
Stone Of Patience é um projeto que nasceu com a vontade de fazer algo
diferente, de contar histórias, de incluir vários instrumentos, múltiplas vozes
e de transformar emoção em som. É uma banda que se move entre várias
atmosferas, melodias carregadas e uma identidade muito própria, onde o peso e a
sensibilidade coexistem. A nossa música procura criar um espaço quase íntimo,
onde cada tema funciona como um desabafo e, ao mesmo tempo, como um convite à
reflexão. While I Die
é o primeiro capítulo dessa jornada. Mais do que um conjunto de músicas, é uma
narrativa. Um retrato cru de estados emocionais, conflitos internos e momentos
de rutura. Este trabalho marca o início da nossa história e define o tom
daquilo que queremos explorar: vulnerabilidade, intensidade e verdade, sem
filtros.
Sendo uma banda
relativamente recente, formada em 2024, como surgiu o projeto e que motivações
estiveram na sua génese?
O projeto surgiu de forma bastante orgânica. O disco
já estava quase completo e a partir de encontros entre amigos com referências
comuns e com a vontade de explorar algo mais pessoal e autêntico do que aquilo
que tínhamos feito até então, começámos a ensaiar. Houve uma ligação imediata,
não só musical, mas também emocional, o que acabou por definir a identidade da
banda desde o início. A génese de Stone Of Patience está muito ligada à
necessidade de expressão. Mais do que criar música apenas pela estética ou pelo
género, houve uma intenção clara de dar voz a sentimentos muitas vezes difíceis
de traduzir. Depressão, arrependimento, frustração, introspeção, perda, mas
também superação. Cada elemento trouxe as suas influências e vivências, e isso
acabou por moldar este álbum que é simultaneamente coeso e multifacetado. No
fundo, a motivação principal foi criar algo honesto. Um espaço seguro onde
fosse possível transformar experiências pessoais em música com significado,
tanto para nós como para quem nos ouve.
Que objetivos tinham em
mente quando começaram e de que forma esse propósito se reflete neste álbum de
estreia?
Quando começámos, havia sobretudo um objetivo muito
claro: criar algo genuíno. Não queríamos simplesmente seguir tendências ou
encaixar numa fórmula. A ideia era construir uma identidade própria, assente na
honestidade emocional e numa sonoridade que refletisse o que realmente
sentimos. Outro objetivo importante era que a música tivesse impacto, não só a
nível sonoro, mas também a nível emocional. Queríamos que cada tema dissesse
algo, que tivesse peso e intenção, e que pudesse criar ligação com quem ouve,
seja através da intensidade, da melodia ou da mensagem. Esse propósito está
muito presente no nosso álbum. O álbum funciona quase como um manifesto
inicial. Cada faixa explora diferentes estados emocionais, sem medo de expor
fragilidade ou conflito. Há uma preocupação em manter tudo coeso, mas ao mesmo
tempo dinâmico, mostrando várias facetas da banda. No fundo, é um reflexo direto
daquilo que nos levou a começar, a vontade de criar música com significado,
identidade e verdade.
Os vários membros da
banda trazem experiências de outros projetos. De que forma esses backgrounds
distintos influenciaram a identidade sonora de Stone Of Patience?
As experiências anteriores de cada elemento foram
fundamentais para moldar aquilo que hoje são os Stone Of Patience. Cada
um traz consigo referências, hábitos de composição e formas diferentes de
encarar a música. Em vez de uniformizarmos isso, optámos por dar espaço a cada
um para se exprimir de forma livre. Essa liberdade acabou por enriquecer
bastante a nossa identidade. Há influências que vão desde abordagens mais
pesadas e diretas até outras mais atmosféricas e melódicas, e isso reflete-se
nas dinâmicas das músicas. Podemos ter momentos mais intensos e crus, como
passagens mais contidas e emotivas. Ao mesmo tempo, houve um esforço consciente
para garantir que tudo soasse coeso. Não queríamos parecer uma soma de partes
desconectadas, mas sim um todo com uma direção só. O resultado é um álbum que
mantém uma identidade própria construída precisamente a partir dessas
diferenças.
While I Die apresenta uma estrutura
muito marcada por ambientes emotivos e narrativos. Houve um conceito ou fio
condutor pensado desde o início?
Sim, desde muito cedo sentimos que fazia sentido que While
I Die tivesse um fio condutor claro. A intenção foi sempre construir algo
mais coeso, quase como um percurso emocional. O conceito do álbum gira em torno
de sentimentos e de conflitos internos do ser humano. Há uma espécie de
narrativa implícita que atravessa as músicas, em que se exploram momentos de
queda, confronto e, de certa forma, reconstrução. Todos os temas do álbum fazem
parte de um mesmo universo, tanto a nível lírico como sonoro. Os ambientes mais
emotivos e as dinâmicas que vão alternando entre intensidade e contenção foram
pensados precisamente para reforçar essa ideia de viagem. Queríamos que quem
ouvisse conseguisse entrar nesse espaço, quase como se estivesse a acompanhar
uma história, não necessariamente linear, mas emocionalmente conectada do
início ao fim. No fundo, While I Die acaba por ser esse primeiro
capítulo. Um retrato de transição, onde diferentes sentimentos coexistem e
ajudam a definir o caminho que a banda quis seguir neste primeiro álbum.
Um dos aspetos mais
evidentes do disco é o destaque dado aos solos e às texturas de piano. Foi uma
decisão consciente colocá-los como elemento central da linguagem musical da
banda?
Sim, foi uma decisão bastante consciente. Desde o
início sentimos que tanto os solos como as texturas de piano podiam ter um
papel mais do que decorativo. Queríamos que fossem elementos narrativos, quase
como “vozes” adicionais dentro das músicas. Os solos divididos entre guitarra e
teclas acabam por funcionar como momentos de libertação, onde a emoção atinge
outro nível sem necessidade de palavras. Já o piano surge muitas vezes como um
contraponto. Mais íntimo, mais delicado, criando espaço e profundidade dentro
dos temas. Essa dualidade entre intensidade e fragilidade é algo que procurámos
explorar ao longo de todo o disco. Mais do que destacar instrumentos por si só,
a ideia foi usá-los para reforçar a identidade e o lado emocional do álbum.
Acabaram por se tornar centrais porque ajudam a contar a história, não apenas a
nível sonoro, mas também na forma como guiam quem ouve ao longo das diferentes
atmosferas do álbum.
Como trabalham
internamente essa componente mais técnica e melódica? Há espaço para
improvisação ou tudo é meticulosamente estruturado?
É um equilíbrio constante entre estrutura e liberdade.
Normalmente, as músicas começam com uma base mais definida que serve como ponto
de partida. A partir daí, há um trabalho coletivo de construção, onde cada
elemento vai acrescentando a sua perspetiva, tanto a nível técnico como
melódico. Apesar de haver uma preocupação em estruturar bem os temas, nunca
fechamos completamente o processo. Existe sempre espaço para experimentar,
improvisar e deixar que certas ideias surjam de forma mais espontânea. Muitas
vezes, alguns dos momentos mais interessantes nascem precisamente dessas fases
menos controladas. Depois, entramos numa fase mais crítica, onde organizamos
tudo e damos coerência às músicas. Ou seja, a improvisação tem um papel
importante na criação, mas o resultado final passa sempre por um filtro mais
consciente, para garantir que cada detalhe serve a música e a narrativa que
queremos transmitir. Ao vivo poderá sim haver improviso... os músicos da banda
também gostam de se divertir e isso faz parte (risos).
São frequentemente
apresentados como uma banda de symphonic metal, mas o vosso som é muito
mais pesado e compassado. Sentem que essa etiqueta vos define corretamente ou é
redutora?
É uma etiqueta que percebemos. Sobretudo pela presença
das teclas, pelas vozes femininas e masculinas e por algumas ambiências. Mas
sentimos que acaba por ser algo redutor para aquilo que fazemos. O symphonic
metal dá uma referência inicial a quem ainda não nos ouviu, mas não abrange
totalmente o peso, a cadência mais arrastada e até a abordagem mais
introspetiva que está muito presente na nossa música. Há ali outras influências
e intenções que fogem um pouco a essa classificação mais tradicional do género.
No fundo, não rejeitamos a etiqueta, mas também não nos prendemos a ela.
Preferimos que o som fale por si e que cada pessoa o interprete à sua maneira.
Se tiver que haver uma definição, diríamos que é algo que passa pelo doom,
pelo death e por algum elemento de symphonic metal.
A presença de vozes
masculinas e femininas traz uma dinâmica interessante. Como abordaram essa
dualidade vocal neste primeiro trabalho?
Foi algo pensado desde cedo. Queríamos mais vozes no
álbum; chegámos a experimentar várias formas de as ter, inclusive acrescentando
vários vocalistas. Mas o que acabou por resultar, e de forma natural chegámos a
essa conclusão, foi a atual dupla de vocalistas. No processo de composição foi
só planear as partes de cada um e seguir pacificamente com a coisa para a
frente. Também não quisemos que a dualidade vocal fosse apenas um contraste
estético. A nossa intenção foi usá-la como uma ferramenta narrativa. As vozes
masculinas e femininas funcionam muitas vezes como perspetivas diferentes
dentro do mesmo tema. Quase como um diálogo interno, ou até como forças opostas
que coexistem. Em alguns momentos, há confronto, noutros há complementaridade.
Essa alternância ajuda a reforçar a carga emocional das músicas e a dar-lhes
mais profundidade. Também houve um cuidado grande em não tornar essa dinâmica
previsível. Nem sempre seguimos a lógica mais comum de “voz suave vs. voz
agressiva”. Tentámos explorar nuances, sobreposições e até momentos em que
ambas se fundem, criando algo mais coeso do que dividido. No fundo, essa
dualidade acabou por se tornar uma extensão da identidade do álbum. Múltiplas
camadas emocionais, diferentes perspetivas e uma narrativa que não é linear,
mas sim construída a partir dessas interações.
Sendo um lançamento
independente, quais foram os maiores desafios na produção e edição de While I Die?
Os desafios começaram logo pela gestão de recursos. Se
por um lado tínhamos total liberdade para gravar sem pressão, por outro, o
tempo e a disponibilidade de cada um para gravar foram difíceis de manejar. A
nível de produção, um dos maiores desafios foi conseguir traduzir exatamente o
som que tínhamos em mente. O álbum tem muitas camadas, entre guitarras, vozes,
piano e elementos mais atmosféricos, e conseguir encontrar o equilíbrio certo
na mistura não foi imediato. Houve bastante trabalho de experimentação até
chegarmos a um resultado que soasse coeso, sem perder a intensidade nem os
detalhes. Outro ponto importante foi a parte da edição e do polimento final. Quando
se trabalha de forma independente, há sempre a tentação de prolongar
indefinidamente o processo à procura da “versão perfeita”. Tivemos de aprender
a definir limites e a perceber quando o álbum já representava aquilo que
queríamos transmitir. Também tivemos de assumir praticamente todos os
papéis, produção, decisões criativas, logística e até parte da promoção. Isso
exige não só organização, mas também uma grande capacidade de adaptação. No
fundo, foram desafios exigentes, mas também muito formativos. Deram-nos um
controlo total sobre o resultado final e ajudaram a consolidar a identidade da
banda desde este primeiro lançamento.
Consideras que este
disco representa fielmente aquilo que a banda é neste momento ou ainda é apenas
uma primeira aproximação ao vosso potencial?
Diríamos que While I Die representa fielmente
quem somos neste momento, mas, ao mesmo tempo, já olhamos para um futuro com
outras coisas que queremos explorar. O álbum mostra de forma honesta a nossa
identidade atual, as influências, a forma como escrevemos, a dinâmica entre nós
e a direção emocional que nos interessa seguir. Nesse sentido, não é um ponto
de partida “incompleto” ou experimental no mau sentido; é uma fotografia real
do que a banda era e o que sentia naquela fase. Ao mesmo tempo, também temos
consciência de que ainda há muito espaço para evolução. Há ideias que ficaram
por explorar, abordagens que queremos aprofundar e até zonas sonoras que ainda
não tocámos com a profundidade que ambicionamos. E isso é algo natural num
primeiro trabalho. Portanto, mais do que um ponto final ou uma apresentação
definitiva, vemos este álbum como o primeiro capítulo de algo maior. Uma base
sólida sobre a qual queremos continuar a crescer e a desafiar aquilo que somos
hoje.
Existem já planos para
concertos, digressões ou participação em festivais num futuro próximo?
Sim, existem planos nesse sentido e essa é uma das
próximas etapas naturais para a banda. Depois do lançamento de While I Die,
o foco passa também por levar este material para palco e traduzi-lo numa
experiência ao vivo. Estamos a trabalhar na preparação de concertos, com o
objetivo de começar a apresentar o álbum ao vivo, ajustando tudo para que a
intensidade e a componente emocional do disco funcionem também em contexto de
espetáculo. Mais do que simplesmente tocar as músicas, queremos que o ambiente
e a narrativa do álbum se sintam no palco. Entretanto, apresentámos o álbum no
dia 16 de maio no Hollywood Spot e depois é começar a levar o While I Die
para a estrada.
Para terminar, Nuno, obrigado
mais uma vez pela disponibilidade. Queres deixar uma mensagem final para quem
vos está a descobrir através de While I Die?
Obrigado nós, pelo interesse e pelo apoio. Para quem
nos está a descobrir através de While I Die, a mensagem é simples. Este
álbum foi feito com verdade. Não tenta ser perfeito, nem encaixar em fórmulas,
tenta apenas transmitir emoções de forma direta e honesta. Se em algum momento
estas músicas criarem ligação, desconforto, reflexão ou identificação, então já
cumpriram o seu propósito. While I Die é o início da nossa história, mas
também é um espaço aberto para quem o quiser fazer seu de alguma forma. Esperamos
que quem nos ouve consiga sentir isso e que, acima de tudo, isto seja apenas o
primeiro passo de um caminho que queremos continuar a partilhar. Divirtam-se!

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