Reviews VN2000; JORGE RIVOTTI; OS VULTOS; DICK VAN DER HEIJDE; AGUSA

 


… As Tias No Seu Melhor… O Bestofe em Longue Plei (JORGE RIVOTTI)

(2026, AVM)

…As Tias no seu Melhor… O Bestofe em Longue Plei recupera dez canções dispersas pelos dois mais recentes capítulos da discografia de Jorge Rivotti, reunindo-as numa edição exclusiva em vinil. Não se trata necessariamente de uma compilação incontornável nem de um exercício de revisão capaz de alterar a perceção sobre a sua obra, mas antes de um objeto de celebração pessoal, construído a partir de temas que o próprio autor entendeu preservar e destacar. Quem acompanhou …e outras canções que não quiseram ficar para Tias e a sua sequela encontrará aqui a mesma combinação de humor enviesado, observações do quotidiano e gosto pela caricatura de personagens e situações, por vezes mais eficaz na intenção do que na concretização. Entre duetos com nomes como Samuel Úria, Zeca Medeiros, Manuel João Vieira, Donatello Brida e António Rivotti, entre outros músicos instrumentistas, destaca-se ainda a recuperação de Fado do Bebedor, originalmente editado em 2001 no álbum Dias da Publicidade e agora revisitado com um novo arranjo. Esta coleção não pode ser vista como uma porta de entrada definitiva para o universo de Rivotti, assumindo-se antes como um gesto afetuoso de revisitação e de resistência física num tempo cada vez menos dado aos objetos e aos rituais da escuta. [73%]


Umas Cruzes Pesam Mais Que Outras (OS VULTOS)

(2026, Spectral Works)

Umas Cruzes Pesam Mais Que Outras joga com uma ideia fulcral: todos carregamos cruzes, mas nem todas deixam a mesma marca. No caso de Os Vultos, este álbum de estreia transforma esse peso em matéria artística através de apenas três temas, dois deles a rondar o quarto de hora de duração, sendo apenas um cantado. É um formato que denuncia, desde logo, a ambição e a recusa de compromissos. Entre longas construções instrumentais, uma atmosfera simultaneamente contemplativa e inquietante e uma escrita que foge às convenções, o disco revela uma identidade muito própria, apontando um caminho que a banda continuaria a desenvolver nos trabalhos seguintes. A gravação original remonta a 2007 e foi inicialmente disponibilizada de forma muito limitada. Por isso, acabou por permanecer praticamente desconhecido fora do círculo mais próximo da banda. A atual edição integra o trabalho de recuperação do fundo de catálogo de Os Vultos, levado a cabo pela Spectral Works, permitindo que este primeiro registo passe a estar disponível de forma mais ampla e a ser reavaliado à luz da evolução posterior do projeto. [71%]




IV - Nunca é Muito Tempo, Sempre é Pouco Tempo (OS VULTOS)

(2026, Spectral Works)

Desde o início do milénio, os Os Vultos construíram um percurso singular, alheio a tendências e indiferente à necessidade de validação externa. Se os três primeiros discos nasceram quase por acaso, a quarta aventura, Nunca É Muito Tempo, Sempre É Pouco Tempo, também gravada originalmente em 2007, foi a primeira concebida com a intenção clara de ser um álbum. E isso sente-se. As composições apresentam uma estrutura mais definida, com secções mais trabalhadas, sem sacrificar a espontaneidade que sempre distinguiu a banda. Paradoxalmente, este foi também o primeiro trabalho mantido completamente inacessível ao exterior, reforçando a ideia de uma criação voltada apenas para si própria. Esse espírito manifesta-se numa escrita que faz as canções dialogarem entre si e onde cada uma origina a seguinte. Aquele que, para nós, é até agora o melhor momento da sua discografia, pela sua maior musicalidade, documenta uma fase importante da evolução criativa dos Os Vultos. O riff da faixa-título, a pulsação tribal da bateria ou a apropriação de um verso de John Handcox revelam uma identidade cada vez mais consciente. A edição pela Spectral Works devolve finalmente à luz um capítulo essencial da história da banda. [75%]




Locked-In (DICK VAN DER HEIJDE)

(2026, Independente)

Durante mais de três décadas, Dick van der Heijde viveu privado da possibilidade de fazer música devido à síndrome de locked-in. O seu regresso à criação faz-se, precisamente, com Locked-In, um álbum criado através da inteligência artificial, é certo, mas que prova que o seu verdadeiro valor reside nas ideias, nas letras e na visão artística que lhe dão forma. Musicalmente, cruza rock progressivo e AOR com naturalidade, apoiado em guitarras melódicas, teclados envolventes e composições acessíveis. Temas como Blink Once For Yes, Pain Around Me, as duas partes de Positivity e Learning Curve destacam-se pela carga emocional e pela qualidade melódica. Apesar das virtudes, a produção excessivamente polida, algumas interpretações vocais artificiais e uma duração a rondar a hora retiram impacto ao conjunto. Ainda assim, Locked-In prova que existe uma diferença fundamental entre utilizar a IA para substituir a criatividade e fazê-lo para devolver capacidade de expressão a quem a perdeu. Mais do que um exercício tecnológico, este é um álbum profundamente humano, cuja autenticidade nasce da honestidade do seu autor. [78%]




Panacea (AGUSA)

(2026, Karisma Records)

Na medicina antiga, uma panaceia era um remédio universal capaz de curar todos os males. Em Panacea, os suecos Agusa oferecem algo semelhante: uma viagem musical capaz de suspender o tempo e transportar o ouvinte para paisagens sonoras de rara beleza. Gravado ao vivo no Progressive Circus Festival, em Malmö, a 28 de setembro de 2024, este é já o seu quarto álbum ao vivo, testemunhando a reputação que os Agusa conquistaram em palco e confirmando que o palco é mesmo o seu habitat natural. O alinhamento é composto por apenas três temas — Lust Och Fägring (Sommarvisan) (a superar os 14 minutos), Den Förtrollade Skogen (20 minutos) e Ur Askan (com mais de 10 minutos) — mas cada um deles oferece amplo espaço para a banda expandir as composições através de longas jams executadas com notável fluidez e inspiração. Entre o rock progressivo retro, o folk escandinavo e o krautrock, os Agusa constroem um ambiente encantado, marcado por melodias de forte inspiração oriental, diálogos instrumentais cativantes e uma constante sensação de descoberta. A flauta, a guitarra, o órgão e a secção rítmica entrelaçam-se de forma orgânica, revelando um grupo de músicos excecionais que parece divertir-se genuinamente em palco. Maioritariamente instrumental, Panacea reserva apenas um breve momento vocal em castelhano durante Ur Askan, suficiente para acrescentar uma nova cor a uma experiência já muito rica em nuances. O resultado é um dos melhores álbuns ao vivo que tivemos oportunidade de ouvir nos últimos tempos e mais uma prova da excelência dos Agusa enquanto banda de palco. [96%]

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DISCO DA SEMANA VN2000 #28/2026: Conquering Swords (TEMPLAR) (Jawbreaker Records)

GRUPO DO MÊS VN2000 #07/2026: SANDMIND (Firecum Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #30/2026: 40 Seconds (INSANE SLAVE) (Independente)