III – As Lágrimas São o Sangue da Alma (OS VULTOS)
(2026, Spectral
Works)
Depois de Vultos
II – A Luz Imprime Memórias, onde a névoa romântica do drone e das
sequências hipnóticas parecia preservar fragmentos de um passado suspenso, Vultos
III – As Lágrimas São o Sangue da Alma aprofunda essa mesma viagem
interior, conduzindo-a para territórios mais inquietos e confessionais. Gravado
no verão de 2006, no improvisado Pus Studios montado no kollektiv
onde a banda vivia em Bergen, este terceiro volume confirma a singularidade de Os
Vultos enquanto projeto à margem do tempo e das convenções. Os títulos
revelam desde logo a profundidade poética do disco: Remoinho/Naufrágio, A
Estrela e a Supernova ou Ânsia sugerem um imaginário onde o íntimo e
o cósmico coexistem. Mas são as lembranças das tradições transmontanas que
surgem logo a abrir com Matança do Porco. A voz frágil e declamatória de
Abel Van Pires permanece o centro emocional destas composições longas e
intuitivas, acompanhada por guitarras discretas, programação, sintetizadores e
uma pulsação espectral que transforma limitação em linguagem. Recuperado
décadas depois pela Spectral Works, Vultos III reforça a ideia de
que este vasto ciclo de edições é menos uma reedição arqueológica do que a
revelação tardia de uma obra profundamente humana, onde as lágrimas se
confundem, inevitavelmente, com o próprio sangue da alma. [70%]
The Answer (SWEET)
(2026, Metalville
Records)
Lançado originalmente
em 1992 sob o nome Andy Scott's Sweet e com o título A, aquele
que corresponde ao décimo álbum de estúdio da banda marcou o início de uma nova
fase liderada pelo guitarrista Andy Scott e pela renovada formação
composta por Mal McNulty, Steve Mann, Jeff Brown e Bodo
Schopf. Editado apenas na Alemanha, Austrália e Japão, rapidamente se
tornou uma peça de coleção, permanecendo indisponível durante vários anos. Em
1995, regressou ao mercado com o título The Answer, acompanhado por três
faixas extra, consolidando a reputação de uma obra frequentemente apontada como
uma das mais subvalorizadas da discografia dos Sweet. Sem conquistar
grandes prémios ou sucesso comercial expressivo, destacou-se pela forma como
conciliou a identidade clássica da banda com um hard rock mais musculado
e contemporâneo. A Metalville prossegue agora a recuperação deste
período da carreira dos britânicos, reeditando o álbum em CD digipak e
vinil, preservando os extras Marshall Stack (Alt Ending), Do As I Say
(Single Mix) e Stand Up (Heavy Rock Version), devolvendo às novas
gerações um capítulo há muito reservado aos colecionadores. [81%]
Half Naked Souls (HALF NAKED SOULS)
(2026, Independente)
Half Naked Souls é
um novo projeto nacional composto por Isabel Dentinho (Stone Of
Patience) na voz, Nuno Romero (Critical Hazard, Legacy Of
Payne e Stone Of Patience) na guitarra e voz, Ivo Claudino (Stone
Of Patience e Lumear) na guitarra, Pedro Simões no baixo e Rômulo
Zanco (Heaven Metal) na bateria. Neste álbum de estreia homónimo, o
quinteto aposta numa sonoridade marcada por afinações muito graves, riffs
densos e compactos e uma forte componente atmosférica trazida pelo desempenho
de Isabel Dentinho. É esta quem, de facto, introduz um contraste
melódico que suaviza parcialmente o peso instrumental. As composições
privilegiam a construção de ambientes pesados e sombrios, combinando elementos
góticos e sinfónicos com uma abordagem moderna e robusta. Em vários momentos,
essa densidade das criações faz lembrar Alas, o já desativado projeto
liderado por Erik Rutan, embora, naturalmente, sem alcançar o mesmo
equilíbrio entre peso e capacidade de fixação. Num trabalho demasiadamente
longo e profundamente homogéneo, um dos momentos mais marcantes surge no final
de Where Rivers Are Born, cuja secção derradeira assume a forma de uma
oração. Depois de termos falado de alguns destes músicos a propósito de While
I Die, dos Stone Of Patience, torna-se inevitável estabelecer
comparações. E, diferenças estilísticas à parte, mesmo considerando a evidente
ambição composicional que é trazida pela duração dos temas e de uma identidade
própria em formação, aqui o resultado revela-se muito menos inspirado e
impactante. [77%]
Bitter Me (BLITZ)
(2026, Fastball
Music)
Os norte-americanos Blitz
apresentam-se em Bitter Me com uma proposta assente no metal moderno,
onde riffs pesados, eletrónica e refrões melódicos procuram coexistir de forma
equilibrada. A produção é competente e a execução não levanta reparos, mas isso
revela-se insuficiente para sustentar um álbum que raramente desperta
verdadeiro entusiasmo. O principal problema está na composição. A maioria dos
temas segue caminhos demasiado previsíveis, sem riffs particularmente
marcantes ou refrões capazes de permanecer na memória depois da audição. Faixas
como The Score ou a própria Bitter Me deixam perceber algum
potencial, mas o disco acaba por assentar numa sucessão de canções corretas que
pouco arriscam e ainda menos surpreendem. Não é um mau álbum. Cumpre o que se
propõe e deixa evidente que a banda domina a linguagem do género. Falta, porém,
inspiração para transformar essa competência em identidade. No final, Bitter
Me ouve-se sem esforço, mas também sem grande vontade de regressar a ele. [73%]
All That Remains (SINSID)
(2026, Pitch Black
Records)
A ideia de um heavy
metal sem concessões continua a ser a imagem de marca dos noruegueses Sinsid,
mas All That Remains confirma também uma tendência menos animadora. Se Mission
From Hell permanece como o ponto mais alto da discografia, este quarto
álbum dificilmente consegue aproximar-se desse patamar. O coletivo aposta em
temas mais diretos (os cinco primeiros nem chegam aos quatro minutos e, no
total, apenas 4 ultrapassam essa marca), esquecendo um pouco o aspeto do
desenvolvimento das composições. O resultado assenta quase exclusivamente no
peso dos riffs, sustentados por guitarras densas e um som
propositadamente sujo. E quando o disco termina, pouco mais fica na memória do que
um par de momentos. Vocalmente temos outro problema. Não é um desempenho
incompetente, mas sua uniformidade torna-o pouco cativante, ainda por cima num
trabalho de produção que não valoriza plenamente o material. Forte, musculado e
genuíno, All That Remains tem energia de sobra, mas falta-lhe inspiração
para transformar essa força em canções verdadeiramente marcantes. No fim, all
that remains é precisamente a impressão de um disco pesado, competente, mas
incapaz de deixar uma marca duradoura. [77%]






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