Vinte e três músicos,
um álbum, nove anos de intervalo. A matemática dos The Acoustic Foundation pode
parecer complicada, mas a equação resolve-se depressa: mais gente, mais
experiências e uma vontade intacta de fazer o corpo responder antes sequer de a
cabeça ter tempo para pensar. Depois de Big Sculpture, os
TAF voltam a cruzar soul, funk e rhythm & blues em whaTAFunk,
trazendo para dentro do disco aquilo que foram acumulando pelo caminho e
fazendo desse regresso uma celebração assumidamente coletiva.
Antes de mais, sejam
muito bem-vindos de volta a Via Nocturna 2000! Já passaram nove anos desde a
nossa última entrevista, numa altura em que Big Sculpture
acabava de apresentar ao mundo os The Acoustic Foundation. Quando olham para
esse percurso hoje, que distância sentem entre a banda que lançou Big
Sculpture e aquela que chega agora a whaTAFunk?
Muito obrigado, Via Nocturna 2000. Sempre um
prazer estar cá, num dos espaços de maior e melhor promoção da música que se
faz em Portugal. Respondendo à vossa questão, há diferenças claras nestes 9
anos, começando pela formação do coletivo, que foi sofrendo algumas alterações.
Além disso, achamos que somos hoje uma banda mais madura e mais certa do
caminho a seguir. Big Sculpture abriu uma série de opções, whaTAFunk
filtra-as.
whaTAFunk chega, então, nove anos
depois de Big Sculpture, mas não parece simplesmente um segundo capítulo
tardio: há uma sensação de expansão, tanto musical como humana. Como nasceu
este novo álbum e em que momento perceberam que tinham material para construir
um disco com uma identidade tão própria?
Concordamos em absoluto com essa análise. O disco
nasce em duas fases: a primeira durante a pandemia, em que os temas foram
aparecendo das ideias que cada músico ia trazendo; a segunda numa espécie de
retiro musical que fizemos no Gerês. Foi um momento de catarse criativa e
viemos de lá com o álbum praticamente pré-produzido. O mais difícil foi excluir
alguns dos temas… talvez um dia tenham direito a uma segunda vida.
Estamos perante 41
minutos de soul, funk e rhythm & blues, mas há
bastante mais do que uma simples celebração do groove. Até que ponto as
experiências acumuladas durante estes nove anos acabaram por influenciar a
escrita e a maturidade emocional das canções?
Grande parte das letras é da Marta, nossa vocalista, e
claramente reflete as vivências que foi tendo neste tempo. A composição dos
temas também: muitos deles nasceram em jams de banda, num momento em que
as jam sessions voltaram a aparecer em força no Porto. Quase sem querer,
tornou-se inevitável que essa pulsão criativa contagiasse a nossa forma de
fazer músicas.
Uma das grandes
diferenças relativamente ao vosso primeiro álbum está na dimensão do coletivo: whaTAFunk envolve 23
músicos. Como se gere criativamente uma formação desta dimensão?
Esse é um dos (talvez mesmo “o”) motivos para o tempo
que separa os dois álbuns. Tínhamos os temas todos finalizados desde 2023,
talvez, mas sabíamos exatamente com quem e como queríamos gravá-los. Já
tinham passado 6 anos de Big Sculpture… se tivessem de passar 7, 8… ou 9
para lançar whaTAFunk exatamente como o sonhávamos, então que assim
fosse. A base das músicas estava feita, mas em estúdio tanto os músicos
como os produtores (Colin Girod e Ricardo Fidalgo) tiveram
liberdade total para acrescentar camadas. Foi um processo incrível!
A secção de sopros
assume um papel particularmente importante no disco e o coro gospel acrescenta
outras dimensões ao som. Como foram pensados estes arranjos e o que procuravam
obter através desta combinação de músicos?
Ao longo dos anos, temos feito, em grupo ou cada um
por si, uma série de viagens para ver concertos de soul e funk (e
não só) por todo o mundo. São quase visitas de estudo, autênticos momentos de
inspiração, que nos vão dando vontade de ir mais por aqui ou por ali. Fomos
cozinhando as nossas próprias ideias para o álbum e chegámos à formação que o
gravou, com o coro gospel, a secção de quatro sopros e um percussionista
fora-de-série, o Pedro Vasconcelos.
Há também uma
interessante relação entre a energia instrumental e a vulnerabilidade das
vozes: muitas vezes as canções falam de situações emocionalmente difíceis, mas
a música recusa-se a ficar presa à tristeza. Era importante para vocês criar
esse contraste entre aquilo que as letras dizem e aquilo que o corpo sente
através do groove?
Atrai-nos esse jogo de contrastes de, com mais ou
menos ironia, dar movimento a temas dramáticos. Porque a tristeza também pode
ser expiada a dançar. Em whaTAFunk encontramos duas baladas, com maior
carga dramática, mas a maior parte das músicas vinca a nossa identidade de
coletivo mais upbeat.
whaTAFunk introduz ainda uma novidade
particularmente significativa: três temas cantados em português, depois de uma
longa trajetória em que o inglês dominou o vosso repertório. O que vos levou
finalmente a dar esse passo?
Desde o nosso primeiro single, há mais de 10 anos, que
havia quem pedisse temas em português. E a Marta gosta de cantar em português,
embora na escrita privilegie o inglês. Assim, é com alguma naturalidade que
abraçamos este desafio. As letras surgiram e desde logo soubemos que tínhamos
de as incluir.
Agora, um desses três temas, conta
com a participação de João Couto e assume a forma de um dueto com Marta. Como
surgiu esta colaboração e o que é que João Couto trouxe à canção?
O João é um amigo antigo da banda, já partilhámos
vários músicos e apreciamos muito o trabalho dele. Perguntámos se nos escrevia
uma letra e entregou-nos também a música. A partir daí, e porque as demos
já soavam tão bem, fazia todo o sentido convidarmos o João para cantar o tema
com a Marta.
Outro momento
particularmente curioso é O Conto do Vigário, que nasceu durante um
retiro no Gerês precisamente quando a banda estava reunida para decidir que
temas ficariam de fora do álbum. Como é que uma canção que nem sequer fazia
parte dos planos acabou por entrar no disco? E o que vos diz essa história sobre
a forma como os The Acoustic Foundation funcionam enquanto coletivo?
Estávamos a preparar a sessão de pré-produção no
Gerês, com um instrumento a entrar de cada vez. Quando demos por ela, tínhamos
um groove novo, diferente do resto dos temas, mas complementando-os.
Decidimos dar-lhe estrutura e gravá-lo, à espera de lhe acrescentar uma letra,
caso surgisse. No próprio dia, inspirado pela paisagem e por uma vivência
recente, o Ricardo, nosso baixista, escreveu essa letra, que retrata aqueles que
sorriem afirmativamente e, pelas costas, agem ao contrário.
Ao longo da preparação
de whaTAFunk,
foram apresentadas várias peças do puzzle mostrando diferentes lados do
álbum, desde o funk mais explosivo até a soul mais contemplativa.
Foi difícil escolher aquilo que deveria ser revelado antes do disco
completo?
É sempre difícil distanciarmo-nos das músicas e
perceber quais são realmente singles ou não. Numa banda independente,
ainda mais: para o bem e para o mal, não há estrutura que nos “empurre” mais
para um lado ou para outro. Começámos por anunciar Fresh News, depois um
dos temas em português, um single duplo com groove no Lado A e
balada no Lado B e o dueto com o João Couto a acompanhar o lançamento do
disco. Todos acompanhados por videoclipes ou visualizers assinados pela
realizadora Bárbara Silva, os mais vistos da nossa história.
Há também uma dimensão
muito física nos The Acoustic Foundation, que sempre esteve associada aos
vossos concertos e à relação entre música e dança. Depois de tantos músicos
envolvidos na gravação, como vão transportar whaTAFunk para
palco? Teremos uma formação igualmente alargada ao vivo e, sobretudo, como
imaginam a experiência de apresentar estas novas canções perante um público?
O funk também é cor, movimento, muita vida em
palco. E tentamos que isso esteja sempre presente, seja em concertos mais
compactos, seja naqueles em que nos é permitido expandir a formação. Este ano,
já tivemos um concerto com 14 músicos e 2 bailarinos em palco, já nos
apresentámos com 7 músicos e 3 dançarinos de breakdance ou “só” com 5
músicos. Em qualquer dos casos, o freak show e a energia no limite são
inegociáveis. Acabámos de fazer o Palco Histórico do Festival CA Vilar de
Mouros e essa foi, uma vez mais, a marca que quisemos deixar.
E para terminar como
começámos, regressando ao ponto em que a nossa última conversa ficou: nove anos
depois, os The Acoustic Foundation estão novamente deste lado. O que gostariam
que os leitores da Via Nocturna 2000 levassem consigo depois de ouvirem whaTAFunk e, já
agora, que novidades podemos esperar dos próximos concertos e desta nova etapa
da banda? Muito obrigado pela conversa e esperamos não ter de esperar mais nove
anos para voltarmos a falar convosco!
Começamos pelo fim: já temos letras para o próximo
álbum e temos-nos encontrado para as primeiras sessões de criação. Queremos um
disco novo nos próximos 2 ou 3 anos. Acima de tudo, ao ouvirem whaTAFunk,
desejamos que sintam vontade de mexer o corpo, de cantar e dançar. Que se
identifiquem com a forma como refletimos a vida na música e a música na vida. E
que isso vos dê vontade de aparecer nos próximos concertos, que é onde os TAF
atingem o auge da sua expressão artística. Um abraço grande para todos os leitores,
obrigado pelo carinho que nos têm dispensado.




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