Entrevista: Insane Slave

 

Oito anos depois do álbum homónimo, os Insane Slave regressam com Dangerous Tides, um trabalho que revela uma banda disposta a explorar novos caminhos sem deixar para trás a sua essência rock. Entre temas escritos ao longo de mais de uma década, outros surgidos já durante o processo de composição e uma produção marcada por sucessivos contratempos, o álbum acabou por ganhar uma identidade própria. Falámos com César Alves sobre a longa gestação de Dangerous Tides e a forma como todas essas peças acabaram por encontrar o seu lugar no mesmo disco.

 

Antes de mais, César, bem-vindo a Via Nocturna 2000 e obrigado pela vossa disponibilidade para esta conversa. Para os leitores que possam estar a descobrir os Insane Slave pela primeira vez, como apresentariam a banda e a sua identidade musical?

Olá, Pedro, obrigado nós por nos receberes e por continuares, ao fim de tantos anos, a divulgar e a apoiar a música que se faz por cá. Insane Slave nasceu da paixão de um grupo de amigos pela música, por volta de 2008, e apesar da mudança de alguns membros da banda com o passar dos anos, a paixão pelo que fazemos continua a ser a força motriz de ainda cá andarmos. Apesar de bebermos de diferentes fontes de influência, a nossa alma é do rock, portanto, embora possamos ir por aqui ou por ali, somos uma banda de rock na sua essência.

 

Dangerous Tides chega como um trabalho conceptual, explorando uma forte dualidade entre momentos de intensidade e outros mais introspetivos. Como nasceu a ideia para este álbum e qual foi o ponto de partida da sua criação?

É curioso, porque algumas músicas foram escritas há mais de 6 ou 7 anos.  A Survive, a Habibi ou a Ghosts Of Fire…a 40 Seconds, por exemplo, é um tema em processo há pelo menos 13 anos, que chegamos inclusive a tocar ao vivo várias vezes, mas que só agora tivemos a oportunidade de a gravar. Todas elas sofreram ajustes no processo de gravação, mas contrastam com temas mais recentes que foram escritos para o disco, assim como houve outros que ficaram na gaveta, por não haver espaço para tudo. Talvez essa dualidade venha daí, as músicas foram trabalhadas de forma individual, com um olhar atento ao que cada uma delas nos pedia e não tanto a pensar em como tudo soaria em disco.

 

Existe um fio condutor bastante evidente ao longo do disco, tanto a nível musical como lírico. O conceito foi definido logo desde o início ou foi ganhando forma naturalmente durante o processo de composição? 

Ao contrário do disco anterior, que foi concebido com um propósito totalmente conceptual sobre uma sociedade utópica ao estilo de Aldous Huxley, neste, tentamos fazer algo diferente, e sem forçar uma temática, deixando que as músicas nos dissessem sobre o que falavam, antes de escrever sobre elas. Foi a forma que encontramos de ser o mais honesto possível com o que tínhamos em mãos. Não deixamos de dar a nossa perspetiva sobre a sociedade e a forma como vemos o Mundo, mas encontrámos espaço e verdade na fragilidade para abordar temas como a nossa “existência” de uma forma uma pouco mais profunda… a ténue linha entre a vida e a morte, o amor e a ausência dele, ou as nossas próprias vulnerabilidades enquanto seres humanos... o que por si só constituiu um desafio extra. Talvez esse fio condutor de que falas, e bem, seja a nossa identidade.

 

O vosso percurso discográfico tem sido marcado por um grande intervalo entre lançamentos: sete anos entre The Night Rider EP e o álbum homónimo, e agora oito anos até Dangerous Tides. Esta é uma consequência natural da forma como os Insane Slave trabalham, privilegiando o tempo necessário para amadurecer as ideias, ou houve outros fatores que contribuíram para estes longos intervalos entre discos?

Não é fácil conjugar energias e disponibilidades, especialmente com pessoas que não fazem vida apenas da música. Depois há a vida cá fora a acontecer… começamos a trabalhar neste disco no início de 2020; entrou a pandemia; pouco depois de voltar à normalidade, o CC. Stop onde temos o nosso estúdio andou com uns problemas legais e fechou por um tempo; depois andou à volta de 1 ano a funcionar com o horário condicionado…chegou a ser penoso. Contudo, olhando para trás, segurando o copo meio cheio, este espaço temporal também permitiu amadurecer ideias, crescer e evoluir ao mesmo tempo que se ia trabalhando, o que, se calhar, de outra forma, não aconteceria, pelo menos não da mesma forma. As coisas têm um tempo e uma forma de acontecer, e este disco foi assim. O próximo será com certeza diferente.

 

Musicalmente, o álbum consegue equilibrar peso, melodia e ambientes bastante distintos. Sentem que este disco representa a afirmação da identidade dos Insane Slave ou marca uma nova etapa na evolução da banda?

Acho que a resposta é um misto dos dois. Se por um lado, neste álbum exploramos espectros sónicos diferentes dos que havíamos até então, em que por exemplo a inclusão de piano e sintetizadores foi determinante, por outro, e fazendo uso da opinião que nos foi dada por quem nos segue desde o início, as novas músicas, apesar de uma onda diferente, continuam a soar a Insane Slave, o que de certa forma é um motivo de orgulho para nós.

 

Carlos Costa Alves assume um papel particularmente relevante, contribuindo com vozes, guitarras, sintetizadores e até clavinete em diferentes temas. Até que ponto estas participações ajudaram a enriquecer a sonoridade do álbum? 

O Carlos teve um papel preponderante, não só pelos instrumentos que gravou, mas pela forma como se imbuiu e abraçou todo o projeto. Foi ele o responsável pela gravação, produção e mistura deste disco. Os arranjos orquestrais, os sintetizadores e o piano gravados pelo Carlos e também alguns pelo Névio ajudaram definitivamente a pintar o disco com uma outra cor. Ora colorindo momentos melancólicos, ora acrescentando teatralidade e dramatismo noutros. São elementos que passaram a fazer parte do nosso som e que com certeza irão continuar a fazer parte daqui para a frente.

 

Os dois primeiros temas do álbum, Survive e Habibi, introduzem desde logo uma dimensão folk e étnica pouco habitual, seja através da gaita de foles de Marcelo Almeida em Survive, seja pela atmosfera e pelas melodias arábicas de Habibi. O que vos levou a explorar estas sonoridades e de que forma elas contribuem para a narrativa de Dangerous Tides?

A Survive já estava praticamente gravada (creio que só faltava gravar a voz), quando decidimos convidar o Cheganahora (Marcelo Almeida) para acrescentar a gaita de foles na introdução da canção (e que seria também o início do disco). Não só o fez com mestria na introdução como na estrofe e no final do tema. Elevou o tema para outro patamar. A Habibi nasceu de um riff antigo e a letra foi escrita numa viagem à Arábia Saudita em 2019. Estas duas músicas sempre encaixaram bastante bem seguidas, tanto que foram desde logo as primeiras a serem escolhidas no alinhamento do disco.

 

O conceito de perturbação rockipolar é uma imagem bastante forte e original para descrever a vossa música. De que forma essa ideia reflete não só as letras, mas também a própria abordagem musical da banda?

Este conceito nasceu de uma brincadeira, mas é essencialmente uma forma de definir como abordamos e sentimos a música que fazemos.  Embora nos assumamos como uma banda de rock (e este, por si só, é tão vasto), não nos prendemos a géneros/subgéneros nem tampouco a preconceitos.

 

Dangerous Tides inclui vários temas com uma duração inferior a três minutos. Esta foi uma escolha consciente, privilegiando a intensidade e a eficácia de cada música em detrimento da duração?

Uma boa questão, Pedro. Houve de facto a premissa de tentar que os temas fossem mais concisos e diretos ao assunto neste disco. Mas não foi algo em que tenhamos perdido muito tempo a pensar. É impossível escrever a pensar que este tema vai ter x ou y minutos de duração. Talvez por termos decidido desde o início descolar da abordagem mais progressiva do disco anterior, os novos temas acabaram, de forma natural, por falar por si próprios. Assim como os de 5 minutos ou a 40 Seconds com 8 minutos e tal, por exemplo.

 

Parcialmente Dangerous Tides foi gravada no mítico CC Stop, um espaço incontornável da história do rock portuense e português. Que significado teve para os Insane Slave trabalhar num local tão emblemático? Sentem que o ambiente desse espaço acabou por influenciar, de alguma forma, o resultado final do álbum?

O CC Stop tem sido a nossa casa praticamente desde sempre; é lá que escrevemos, ensaiamos e acabamos por gravar a maior parte do álbum. Apesar de todas as contrariedades que tivemos com a legalização do edifício, a influência do espaço que nos rodeia é inevitável e está por certo espelhada no álbum.

 

Naturalmente, um novo álbum desperta vontade de o levar para palco. Existem já concertos ou planos para apresentar Dangerous Tides ao vivo? Que tipo de experiência pretendem proporcionar ao público?

Tivemos a apresentação e lançamento do disco no final de junho no Hard Club no Porto, e foi excelente. Há 4 anos que não tocávamos ao vivo. Por essa e por muitas outras razões, este concerto foi um lavar de alma incrível; estávamos a precisar. A missão agora é continuar; estamos a trabalhar na tour de apresentação do disco que divulgaremos em breve. Pretendemos proporcionar uma viagem ao som da nossa música, enquanto 5 indivíduos deixam o que têm e o que não têm em cima do palco.

 

Para terminar, obrigado pelo teu tempo. Queres deixar alguma mensagem aos leitores da Via Nocturna 2000 e a todos aqueles que acompanham ou vão agora descobrir os Insane Slave?

Obrigado nós pelo convite para esta entrevista e pelo interesse no nosso trabalho, Pedro. A todos os leitores do Via Noturna 2000, se ainda não nos conhecem, deem uma vista de ouvidos no nosso disco e, se gostarem, fiquem atentos aos próximos concertos. Se não gostarem tanto assim, fiquem atentos na mesma, porque podem vir a gostar!

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