O último dia do Milagre Metaleiro Open
Air 2026 começou sob uma ameaça que pairava sobre o festival desde as
primeiras horas: chuva. E, desta vez, a meteorologia não falhou. Ao longo da
tarde, o céu foi mudando de humor até transformar o recinto numa espécie de Wacken
português, com chuva, nevoeiro, trovoada e, sobretudo, uma plateia determinada
a não arredar pé.
Mas antes da tempestade, houve sol. E foi
ainda com condições meteorológicas favoráveis que os Capela Mortuária
tiveram a missão de abrir o último dia. A banda portuguesa entrou em palco sem
rodeios, disparando um verdadeiro ataque de thrash metal e dando início
a uma jornada que viria a ter alguns dos momentos mais contrastantes de todo o
festival.
Seguiram-se os espanhóis Sovengar,
que trouxeram consigo uma abordagem bem diferente. Se tecnicamente o concerto
esteve longe de ser irrepreensível, em termos de animação dificilmente poderia
ter sido mais eficaz. A banda transformou o palco numa verdadeira festa,
recorrendo à estética de pirataria e a uma boa dose de humor para conquistar o
ainda reduzido público presente. Houve uma versão de Drink, dos Alestorm,
e até os teclados de Bowes foram recuperados para a ocasião. O vocalista, pouco
interessado em permanecer confinado ao palco, chegou a subir para a estrutura
do sistema de som. Em Drink Of Victory, foi ainda mais longe: abandonou
o palco, cantou sentado no balcão de um ponto de bebida e acabou no meio do mosh
e do stage diving. Nem o inevitável “siiiim” faltou.
Entre dragões, ogres e outros “convidados
especiais”, Sovengar conseguiu aquilo que talvez fosse mais importante
naquele momento: juntar o público à frente do palco e criar um ambiente de
festa. Algumas das brincadeiras roçaram o infantil, é certo, mas as melodias
imediatamente orelhudas funcionaram. Foi um concerto tecnicamente sofrível em
vários momentos, mas genuinamente divertido. E, no final, era impossível não
reconhecer que a banda tinha cumprido a sua missão.
E porque um festival desta dimensão
também se faz das figuras que por ele passam, entre a música e a chuva houve
ainda uma visita muito especial: o inigualável Tino de Rans, que não
quis deixar de marcar presença no Milagre Metaleiro Open Air.
De seguida, o festival mudou novamente de
direção com Girish And The Chronicles. Numa multidão composta
maioritariamente por metaleiros de gostos mais extremos, o hard rock do
quarteto indiano tinha pela frente uma tarefa complicada. A resistência
inicial, contudo, foi sendo vencida à força de competência. A banda mostrou um
domínio técnico impressionante e ainda encontrou espaço para uma brincadeira
pouco habitual: baixista e guitarrista trocaram de instrumentos. Depois da
diversão, chegou a hora de apresentar material novo, com vários temas do
próximo álbum, Disintegrate, que tem lançamento previsto para novembro
de 2026.
Girish Pradhan revelou-se, mais
uma vez, o verdadeiro homem-orquestra da banda. Além de liderar a formação,
assumiu a guitarra do seu próprio guitarrista para um curto solo e, no final,
trocou novamente de funções: enquanto o baterista avançava para a frente do
palco com o suporte do prato, Pradhan assumia a bateria para um final
apoteótico. Rock ’n’ Roll Is Here To Stay foi recebido com um coro
uníssono. Mesmo acreditando que poucos na plateia conhecessem previamente esse
ou os restantes temas, a banda conseguiu conquistar progressivamente um público
que, à partida, não parecia ser o seu.
E então chegou Blaze Bayley. E
chegou acompanhado pela chuva. O concerto integrava a tour de celebração
do aniversário da participação do vocalista nos Iron Maiden e foi, sem
dúvida, um dos momentos de maior adesão popular de todo o festival. A chuva
começou a cair, mas não conseguiu competir com a resposta do público: riffs,
melodias e refrões foram cantados em uníssono por uma plateia completamente
entregue. O setlist foi especialmente dedicado a The X Factor, havendo
ainda tempo para recuperar três temas de Virtual XI (Futureal, The
Clansman e The Angel And The Gambler, esta última numa versão mais
curta) e Born As A Stranger, de Silicon Messiah.
Mais do que um concerto, houve também
espaço para uma mensagem. Blaze Bayley deixou um discurso motivador,
apelando aos presentes para que nunca desistissem dos seus sonhos. Num festival
em que milhares de pessoas enfrentavam chuva e cansaço para continuar diante do
palco, as palavras ganharam um peso especial e terão certamente emocionado
muitos dos presentes.
Se a chuva já começava a marcar presença
durante Blaze Bayley, com Belphegor transformou-se
definitivamente numa tempestade. E, sinceramente, dificilmente poderia haver
melhor banda para esse cenário. Chuva intensa, nevoeiro e trovoada criaram uma
atmosfera cinematográfica para o black metal austríaco. Tratou-se,
segundo a história do festival, do primeiro dia de chuva de sempre no MMOA,
e a estreia não poderia ter sido mais apropriada. Belphegor respondeu
com um verdadeiro ataque de trve black metal, aproveitando as condições
meteorológicas para tornar o ambiente ainda mais extremo. A tempestade não foi
suficiente para afastar os metaleiros. Vieram os casacos, abriram-se os
guarda-chuvas, improvisaram-se proteções, mas o público permaneceu diante do
palco. A natureza parecia querer transformar o concerto num ritual, e os
presentes aceitaram o desafio.
Já com a tempestade mais calma, os Primal
Fear apresentaram-se em palco como uma máquina perfeitamente oleada. O
público rapidamente se rendeu. Uma banda profissional, segura, imponente e
claramente em excelente forma. Tudo pareceu executado com precisão cirúrgica,
sem que isso retirasse espontaneidade ou impacto à atuação. E há algo de
especial em ver Mat Sinner continuar em palco, décadas depois, a fazer
aquilo que sempre fez melhor: rockar.
A chuva ainda marcou presença no início,
mas como se o festival tivesse decidido oferecer à banda as condições
perfeitas, acabou por parar. A partir daí, foram os riffs e as melodias
de Primal Fear a dominar o recinto, e até os trovões perderam
importância.
O alinhamento esteve naturalmente muito
centrado em Domination, o mais recente álbum de estúdio, do qual
surgiram The Hunter, Destroyer e I Am The Primal Fear. Mas
houve também espaço para alguns clássicos e para a épica Fighting The
Darkness, uma das melhores músicas ouvidas ao longo dos três dias. A
entrega do público foi extraordinária. Tão extraordinária que Ralf Scheepers
chegou a interromper a introdução em backing track para simplesmente
ouvir a plateia gritar “Primal Fear! Primal Fear!”. Um momento espontâneo que
resumiu na perfeição a comunhão entre banda e público. Grandes riffs,
grandes melodias, grandes solos e uma execução praticamente perfeita.
Para encerrar o MMOA 2026 ficaram
os Insomnium. A escolha não poderia ser mais contrastante. Depois da
força direta e explosiva de Primal Fear, os finlandeses trouxeram ao
palco o seu death metal melódico, mergulhando o recinto numa atmosfera
mais contemplativa, melancólica e emocional. Apresentados em formato de
quarteto, com apenas duas guitarras em palco, os Insomnium conseguiram
ainda assim reproduzir a densidade e a dimensão atmosférica da sua
música. Com as guitarras acústicas em backing track construíram-se
momentos de forte ambiência, num concerto que funcionou como um período de
reflexão depois da intensidade das horas anteriores. Os Insomnium
mostraram-se extremamente competentes em transformar dor, melancolia e
introspeção em música, encerrando o festival com uma abordagem menos imediata,
mas igualmente poderosa, capaz de criar momentos de uma intensa emotividade e
beleza.
Incluídos no setlist estiveram Gleam
In The Black e Shadowlife, os singles mais recentes da banda,
que farão parte do próximo álbum de originais, Netherworlds, previsto
para outubro.
E foi assim que terminou o Milagre
Metaleiro Open Air 2026, o verdadeiro Wacken português. Porque, no fim, a
chuva chegou. A tempestade chegou. Os trovões chegaram. Mas os metaleiros
ficaram.
Até 2027!

Comentários
Enviar um comentário