Há dois anos, Pedro Serpa admitia que Viagem podia ser o último disco de Alkimista. A vida trocou-lhe as voltas e a necessidade de compor trouxe Contraste, o quarto álbum e o fecho da tetralogia dos elementos. Voltámos à conversa para perceber o que o levou a completar este ciclo… e o que poderá acontecer depois de o deixar para trás.
Olá, Pedro! É um prazer
voltarmos à conversa dois anos depois. Quando falámos sobre Viagem, dizias que o
futuro dos Alkimista era desconhecido e que nem sabias se o projeto terminaria
ali. Afinal, não só continuou, como chegamos agora a Contraste, o quarto
álbum. O que aconteceu, entretanto, para transformar aquela incerteza num novo
disco?
Olá, Pedro, é com gosto que agradeço a oportunidade de
mais uma conversa. O Contraste não estava nos planos; aconteceu porque
tinha de acontecer. As circunstâncias da vida levaram-me a compor. É a minha
forma de lidar com alguns “desconfortos” da vida.
Contraste encerra a tetralogia dos
elementos com o Ar. Agora que podemos finalmente olhar para os quatro trabalhos
como um todo, esta arquitetura já estava pensada desde o início ou foste
descobrindo as ligações e o destino da tetralogia enquanto fazias os discos?
Sim, quando associei o primeiro disco ao elemento Fogo,
fiquei com a ideia de que os seguintes também teriam o seu elemento
correspondente. Tento que seja coerente com o tema do disco.
Há aqui uma contradição
interessante: o Ar sugere leveza, mas Contraste contém alguns dos momentos
mais pesados dos Alkimista, chegando mesmo ao funeral doom. Houve alguma
intenção de contrariar deliberadamente aquilo que seria a representação mais
óbvia deste elemento?
O Ar alimenta o fogo e é ao mesmo tempo um ciclo que
se fecha. É como um regresso ao início, ao doom mais pesado, mas com
muita melodia alimentada pela esperança do desconhecido.
Daí a escolha de Contraste para o
título?
Sim, foi este conceito simples que esteve presente na
composição. Pesado e melódico.
Todavia, conseguir
fazer conviver extremos sem transformar uma composição numa simples sucessão de
partes é outra questão. Foi encontrar esse equilíbrio o principal desafio de
composição de Contraste?
Não sei como responder a isso. Componho tanto de forma
instintiva como ouvinte. Aquilo que sinto em música e palavras é o gosto de
ouvir o conjunto final. Se me consegue cativar, tem valor e valeu a pena fazer.
Há dois anos
explicavas-nos que trabalhavas normalmente em períodos muito produtivos,
seguidos de longas pausas que te permitiam regressar às músicas de forma mais
“analítica e desapaixonada”. Foi novamente esse o método em Contraste ou este
álbum, por fechar um ciclo, exigiu uma forma diferente de trabalhar?
Faço pausas longas para “limpar” as ideias e ser
ouvinte. Depois regresso de forma instintiva e apaixonada, componho muito em
pouco tempo, de forma visceral. Só depois é que deixo a coisa arrefecer e volto
a ser mais ouvinte e analiso dessa forma o que compus. É a minha forma de
criar. Raramente pego na guitarra para compor “fora de época”.
Continuas a concentrar
praticamente tudo nas tuas mãos: composição, interpretação, programação,
produção, mistura, masterização, design e ilustração. Isso oferece-te liberdade
absoluta, mas também significa que não existe ninguém dentro dos Alkimista para
te dizer que uma ideia não funciona. Como consegues criar essa distância
crítica e decidir quando deves insistir numa ideia ou simplesmente abandoná-la?
É um processo solitário e individualista. Tem
vantagens e desvantagens que apresentas, para além da falta de troca, de
discussão de ideias, de pontos de vista diferentes. Sinto falta de compor em
banda, como o fazia na adolescência, mas, mais uma vez, as circunstâncias da
vida (adulta) trazem limitações. É também um desafio que abracei com gosto e
tenacidade. Tenho um grupo muito restrito de pessoas que ouve os discos antes
de saírem cá para fora e cuja opinião valorizo. Durante o processo de escuta
analítica, mais na fase final da composição e dos arranjos, é quando algumas
ideias são insistidas ou eventualmente descartadas.
Contraste foi novamente gravado
essencialmente em casa. Depois de quatro discos, esse isolamento criativo
tornou-se indispensável à identidade dos Alkimista ou existe alguma curiosidade
em descobrir o que aconteceria às tuas músicas se fossem construídas num ambiente
mais coletivo?
O isolamento acontece naturalmente; a música do
Alquimista é algo produtivo/positivo que consigo fazer a partir desse
isolamento. Gostava muito de voltar a estar numa banda, compor em conjunto,
mesmo que fosse fora deste projeto. Se um dia incorporar outras pessoas no Alkimista,
a música será diferente, mas o conceito de mudança, de procura, de descoberta
está presente e é o núcleo deste projeto.
Rita Correia regressa
depois de Viagem, agora em Forjado na Dor e A Sereia e o
Pescador. Na nossa conversa anterior dizias que ela tinha enriquecido as
melodias com a sua voz. Desta vez já escreveste determinados momentos a pensar
nela? E o que consegue a voz da Rita dizer nestes temas que a tua não
conseguiria?
O método de trabalho e gravação com a Rita manteve-se.
Eu levo melodias que ela enriquece e transmite o seu cunho pessoal. As vozes
dela foram gravadas no estúdio onde ensaia com a sua banda e que lhe permite
estar mais à vontade. Mesmo que eu conseguisse cantar aquelas melodias, não
ficariam bem. Já foram pensadas para voz feminina, tanto pelo conceito (como é
óbvio na Sereia e o Pescador) como pela beleza e candura.
Também David Soares
regressa, assinando a letra de Mercurial. Foi novamente uma necessidade de
escrita que o trouxe a Contraste ou começou a existir uma verdadeira linguagem
criativa comum entre vocês?
Tenho uma relação de criatividade e amizade com o
David já há alguns anos, desde a banda-desenhada até à música. É das pessoas
mais cultas e interessantes que conheço e por quem nutro grande admiração.
Pedi-lhe que escrevesse a letra para uma música sabendo apenas que queria
explorar a ideia de contrastes, em várias facetas da vida. Ele abordou na sua
forma erudita e visceral o conflito da criação.
Em 2024 dizias que os
Alkimista eram deliberadamente íntimos e pessoais e que criar não era
propriamente uma escolha, mas algo que “tem de sair de nós”. Agora que fechas
quatro álbuns ligados entre si, sentes que já saiu aquilo que precisava de sair
ou terminar esta tetralogia deixou precisamente novas questões por resolver?
No final do Viagem estava em paz se não
escrevesse mais nada, e agora sinto o mesmo. Há o aspeto da realização, da
satisfação em ter concretizado estes projetos musicais. Eles são um fim em si
mesmos e algo de que me orgulho. Vivo um período de incerteza diferente dos
anteriores. Não sei como será a minha vida, mas fomento o ótimo que fui
perdendo ao longo dos anos e das vivências. Espero continuar a compor; tenho
ideias que quero explorar, aspetos que quero melhorar. Enquanto houver
curiosidade pela vida, surgem novas questões, novos “elementos” a explorar.
Quatro álbuns permitem
também olhar para trás e perceber uma evolução que talvez não seja tão evidente
enquanto se está dentro dela. Se comparares o Pedro Serpa que iniciou este
percurso com aquele que acaba agora Contraste, qual foi a ideia, regra ou
limitação sobre aquilo que os Alkimista deveriam ser que mais tiveste de
desaprender?
A primeira limitação que senti no primeiro disco foi
cantar em voz limpa. Queria, mas não conseguia soar bem. Senti que foi um
grande salto para o segundo. Gravei as vozes do Cinzas em estúdio,
sozinho, onde consegui compor harmonias em cima das melodias, o que me deixou
muito realizado. Continuo a querer explorar mais e melhor as melodias vocais;
espero fazê-lo no próximo registo. Na parte instrumental, comecei a usar agora
uma afinação mais grave, que acentua o peso e que aumenta a amplitude musical.
Há uma diferença entre
terminar uma tetralogia e conseguir realmente desprender-se dela. Quando
acabaste Contraste, sentiste sobretudo uma libertação por teres
fechado o ciclo ou apareceu aquele vazio desconfortável de já não existir um
próximo elemento a indicar o caminho?
Não sinto o vazio desconfortável. Sinto o oposto, que
tenho a “mochila” cheia nas costas, que fiz um caminho digno e que a posso
pousar para pegar em algo novo e iniciar outro caminho, um novo rumo. Custou
mais começar do que continuar. Enquanto tiver coisas a experimentar, não receio
ficar sem ideias. Se isso acontecer, é porque fiz o que tinha a fazer e será
tempo de seguir noutras direções.
E isso leva-nos
inevitavelmente ao futuro. Já existem músicas, conceitos ou simplesmente ideias
soltas para aquilo que poderá suceder a Contraste? Depois de quatro discos
ligados por uma estrutura conceptual, interessa-te agora quebrar essa lógica e
fazer algo que possa até contrariar aquilo que as pessoas aprenderam a esperar
dos Alkimista?
Sim, existe. Estou a querer adiar, mas as vicissitudes
estão a puxar por mim. Não sei se vai resultar, mas tenho um desafio interessante
pela frente.
Quando conversámos em
2024, dizias duvidar que os Alkimista alguma vez se concretizassem como banda,
embora admitisses a vontade de gravar alguns temas “ao vivo” numa sala de
ensaio. Dois anos depois, essa posição mantém-se? Poderemos algum dia ver os Alkimista
transportados para um palco, mesmo através de uma formação criada
especificamente para esse efeito?
Penso nisso muitas vezes, o que só reflete esse
desejo, mas é muito difícil mobilizar outros músicos, principalmente sendo um
projeto tão pessoal. O meu esforço e gratificação são um ciclo fechado. Por que
é que alguém quereria entrar nele? Qual seria o seu gosto ou motivação?
Obrigado, Pedro, mais
uma vez. Para terminarmos, que mensagem gostarias de deixar aos leitores da Via
Nocturna e a quem acompanhou esta tetralogia até Contraste?
Se gostam, continuem a ouvir, deixem a vossa opinião,
partilhem com os amigos. Este é um projeto pessoal e caseiro; consegue chegar
longe através da internet e da venda limitada de CDs, mas não almejo
fama nem riqueza; valorizo mais o que os ouvintes têm a dizer.




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