Entrevista: Carnification

 


Mais de três décadas, várias interrupções, material perdido e a morte do baixista Paulo Castro não conseguiram encerrar a história dos Carnification. Pelo contrário, a banda açoriana recuperou antigas composições, encontrou novo impulso e chegou finalmente ao álbum de estreia, 27 anos depois da demo Embracing Solitude. Walking Among Thousands é, por isso, mais do que o resultado de uma longa espera. É uma obra que preserva parte do legado de Paulo Castro e abre uma nova fase para o grupo. João Raposo falou-nos deste percurso atribulado, do contributo decisivo de Stepan Kobyakin e do futuro dos Carnification.

 

Olá, João, bem-vindo a Via Nocturna! Os Carnification existem desde o início dos anos 90, mas Walking Among Thousands é, finalmente, o vosso álbum de estreia. Depois de uma história feita de interrupções, mudanças e recomeços, quem são os Carnification de 2026 e quanto da banda que começou esta viagem há mais de três décadas ainda existe naquilo que ouvimos hoje?

Boas e desde já agradecemos a oportunidade de estarmos na Via Nocturna. Os Carnification do presente são um grupo de amigos que adoram música e, mesmo sendo uma banda de metal, transmitem os seus sentimentos através desta mesma música. Desde o início, existiu aquela vontade de seguirmos em frente e tentarmos ultrapassar todos os obstáculos que aparecessem pelo caminho e, no geral, acho que conseguimos isso porque ainda estamos cá. Quanto à nossa música, também temos uma regra que é esta: agressividade e melodia devem andar sempre juntas e este é o lema dos Carnification praticamente desde o início da banda.

 

Depois da demo Embracing Solitude, de 1999, passaram-se 27 anos até chegarmos ao álbum. Walking Among Thousands é o álbum que os Carnification sempre quiseram fazer ou, depois de tanto tempo e de tudo o que aconteceu, tornou-se inevitavelmente num disco completamente diferente daquele que poderiam ter gravado nos anos 90?

O álbum Walking Among Thousands é a cara e a alma dos Carnification no presente e podemos falar que é o álbum de uma vida. Se o tivéssemos lançado na década de 90 ou no início de 2000, claro que seria muito diferente, pois na altura não possuíamos a mesma experiência nem os mesmos conhecimentos que temos hoje. Atualmente somos músicos muito mais maduros e com mais experiência; é a chamada evolução natural. Contudo, devo dizer que, com a promo Embracing Solitude, os Carnification conseguiram um contrato discográfico com a editora belga Shivers Records e, na altura, só não assinamos este contrato porque não se reuniram as condições necessárias para que tal acontecesse. Não conheço muitas bandas que conseguiram um contrato discográfico com apenas um tema lançado e, sendo uma banda dos Açores, ainda nos deu um prazer maior em conseguir tal feito.

 

A história deste álbum foi particularmente atribulada, incluindo material que chegou a estar praticamente concluído e acabou por se perder. Em que momento perceberam que valia a pena recuperar o projeto em vez de simplesmente fechar esse capítulo e começar do zero? E quanto do que ouvimos agora pertence às várias fases dessa longa gestação?

Houve uma altura em que pensamos em desistir, fizemos uma longa pausa e a meio desta pausa houve uma voz no nosso subconsciente que disse “é agora ou nunca” e deu-se aquele clique para avançarmos. Quanto às músicas, umas vieram do trabalho que se perdeu; nós simplesmente limamos algumas arestas destes temas. Também houve músicas novas e uma que estava “arrumada” na gaveta, sem nunca termos dado muita atenção a ela, e que serviu de single para a apresentação do álbum: o tema Cry Of The Wind.

 

Como decorreu concretamente o processo de composição e gravação de Walking Among Thousands? Depois de tantos anos de história e de diferentes experiências acumuladas pelos músicos, foi fácil chegar a um consenso sobre aquilo que deveria ser um álbum dos Carnification?

Foi um processo que até não foi nada complicado. Tínhamos mais ou menos as mesmas ideias das músicas que iriam dar origem ao álbum. Depois foi só gravá-las, que também foi um processo que correu de forma normal, e depois foi fazer o melhor alinhamento para que a audição do trabalho ficasse equilibrada.

 

Stepan Kobyakin acabou por assumir um papel muito mais amplo do que o de simples produtor, tendo participado nos teclados e estado igualmente envolvido na componente visual do álbum. Até que ponto a sua entrada no processo alterou aquilo que vocês próprios imaginavam para Walking Among Thousands?

Podemos dizer que o Stepan foi um elemento extra na banda, trabalhou imenso connosco, sugeriu ideias, etc... Claro que as músicas ficaram diferentes com a inclusão dos teclados, pois uma coisa é ouvirmos um álbum sem o som das teclas, outra coisa é ouvirmos com elas incorporadas nas músicas, mas neste caso tudo evoluiu para melhor, ficamos com muito mais harmonias e com umas ambiências incríveis, podemos dizer que com os teclados e com trabalho que o Stepan desenvolveu tudo subiu de nível.

 

Apesar da agressividade e da base death metal, há bastantes detalhes por baixo dessa primeira camada. Houve uma preocupação consciente em fazer um disco que revelasse coisas novas a cada audição, em vez de depender simplesmente do impacto imediato?

As músicas foram fluindo e as ideias foram aparecendo; não foi nada pensado; simplesmente fomos avançando e, no final de cada tema, os nossos ouvidos é que davam o veredito final; adoravam aquilo que ouviam.

 

Walking Among Thousands é dedicado a Paulo Castro, vosso baixista, falecido em 2015. Mais do que perguntar apenas pela homenagem, gostava de saber onde está musicalmente o Paulo neste disco. Existem riffs, ideias, composições ou mesmo uma determinada maneira de pensar os Carnification que tenham chegado ao álbum diretamente através dele?

Para começar o intro foi todo criado pelo Paulo Castro, até a voz que se ouve lá é a dele, depois decidimos que o nome do intro Walking Among Thousands, seria o título do álbum em homenagem ao nosso fallen brother e em muitas das músicas, as do trabalho que nós perdemos, as linhas de baixo foram criadas pelo Castro, nós só copiamos o que ele tinha deixado feito, por isso é mais do que justo esta homenagem a ele. O Paulo Castro será para sempre um de nós.

 

Ser uma banda de metal extremo nos Açores implica uma realidade muito diferente daquela vivida por uma banda sediada em Lisboa, Porto ou no centro da Europa. Ao longo destes anos, a insularidade foi sobretudo um obstáculo aos Carnification ou acabou também por ajudar a criar uma identidade própria?

A insularidade já foi um enorme problema, mas hoje em dia já é bem mais fácil sair dela. Por exemplo, se uma banda açoriana achar que tem condições para ir ao continente dar um concerto, só tem que procurar os contactos certos, ver as condições a que tem de se submeter e depois é só apanhar um avião. Só que também existem mais obstáculos que às vezes não permitem que isto se concretize. Na nossa opinião, os Carnification sempre tiveram a sua identidade própria, independentemente da insularidade, onde a energia, a resiliência e a força de vontade estão sempre presentes em tudo aquilo que fazemos. Esta é a nossa forma de pensar e, enquanto mantivermos este pensamento, vamos sempre avançando no caminho, às vezes devagar, mas o que importa é não parar.

 

Sentem que hoje continua a ser mais difícil para uma banda açoriana chegar ao continente e, sobretudo, ao circuito internacional?

Já foi mais difícil uma banda açoriana conseguir chegar ao continente; hoje é tudo mais simples do que há uns anos. Quanto ao circuito internacional, é bem mais difícil. Ainda temos que desbravar muito terreno à nossa frente para isso acontecer.

 

Depois de esperarem mais de três décadas pelo primeiro álbum, chega finalmente o momento de o defender fora do estúdio. Que planos existem para levar Walking Among Thousands aos palcos?

Este é talvez o nosso maior problema, pois temos elementos que não vivem nos Açores e é complicada a sua deslocação para podermos subir ao palco. Estamos a tentar solucionar este problema e a ver vamos o que o futuro nos irá reservar sobre este assunto.

 

Walking Among Thousands fecha uma espera enorme, mas vocês já deram sinais de que existem novas músicas em desenvolvimento. Podemos olhar para este álbum como o fim de uma longa história ou, pelo contrário, como o verdadeiro início de uma nova fase dos Carnification?

Esperamos que não seja o fim de uma longa história, mas sim a continuação da mesma. Uma porta se fechou, mas estamos prontos para abrir outra dentro do mesmo capítulo; só esperamos que não demore tanto até fecharmos a porta que queremos abrir agora.

 

Para terminar, João, agradecemos a tua disponibilidade. Há alguma mensagem que gostasses de deixar aos leitores da Via Nocturna?

Uma vez mais, nós é que agradecemos a oportunidade e, para os leitores da Via Nocturna, deixamos esta mensagem: Para quem gosta de death metal melódico com partes sinfónicas, com ambiências à volta e também algumas partes agressivas, deve adquirir o nosso álbum porque tenho a certeza de que não se irá arrepender daquilo que vai ouvir e, para além disso, estará a ajudar a banda.

Comentários

DISCO DA SEMANA VN2000 #38/2026: Contraste (ALKIMISTA) (Selvajaria Records/Prophetical Productions)

ARTISTA DO MÊS VN2000 #09/2026: VALTER ROLO (Ars Luminae)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #39/2026: Dead By The Night (XION) (Fireflash Records))