Entrevista: Dick van der Heijde

 



Um AVC interrompeu, em 1991, o percurso musical de Dick van der Heijde, então compositor e letrista dos Ligeia Lie. A síndrome de locked-in obrigou-o a comunicar letra a letra, mas encontrou na escrita uma forma de continuar ligado ao rock progressivo, tornando-se crítico e autor de vários livros. Mais de três décadas depois, a possibilidade dada pela IA de descrever por palavras a música que queria criar abriu-lhe o caminho de regresso à composição. Assim nasceu Locked-In, um álbum centrado nas memórias do primeiro mês nos cuidados intensivos. Nesta conversa, Dick responde às reservas sobre o uso da inteligência artificial. Afinal, para ele, foi essa tecnologia que lhe trouxe a possibilidade de voltar a fazer música.

 

Olá, Dick, e bem-vindo. Para quem possa não estar familiarizado com o teu percurso, foste músico, jornalista de rock progressivo e escritor antes da síndrome de locked-in mudar drasticamente a tua vida. Como te apresentarias hoje aos nossos leitores e de que forma Locked-In representa este novo capítulo da tua história?

Antes do meu AVC, em 1991, era músico, compositor e letrista da nossa banda de rock progressivo, Ligeia Lie. Depois do AVC, tudo isso terminou de forma abrupta. Para continuar ligado à música de alguma forma, comecei a escrever críticas e crónicas sobre rock progressivo. Com o tempo, descobri que gostava genuinamente de escrever e daí nasceram muitas histórias. Também publiquei vários livros. Foi um enorme desafio, uma vez que comunico letra a letra. O que gostaria que os leitores desta entrevista soubessem é que a música faz parte da minha vida desde os seis anos de idade. Aos catorze, fiquei fascinado, na verdade, obcecado para toda a vida, pela música dos Genesis, Yes, Van der Graaf Generator e de muitas outras bandas de rock progressivo. Quase não falo disso no álbum, porque a história começa com o meu AVC (Blue Door) e centra-se quase exclusivamente no meu primeiro mês na unidade de cuidados intensivos. Durante esse período, tinha muito pouco interesse pela música. Só depois da morte de Freddie Mercury é que a minha paixão pela música começou, pouco a pouco, a regressar.

 

Depois de mais de três décadas sem conseguires criar música da forma tradicional, quando percebeste pela primeira vez que a inteligência artificial podia tornar-se a ponte entre a música que continuava a existir na tua mente e o álbum que acabaste por concretizar?

Em 2024, vi um programa de televisão sobre música gerada por inteligência artificial. Dois humoristas estavam a gozar com o tema, mostrando sobretudo como era fácil criar uma canção ao estilo de um artista já existente. Dentro de mim, tudo dizia que aquilo estava completamente errado. Ainda assim, despertou a minha curiosidade. Uma semana depois, a Michelle (a minha parceira musical no crime) e eu sentámo-nos ao computador para perceber o que eu conseguiria fazer com aquilo. O programa revelou-se perfeito para mim, porque funciona através da descrição, por palavras, da música que queremos criar. E isso é exatamente aquilo que consigo fazer. Em poucos meses, criei cerca de quarenta canções. No final, apenas duas entraram em Locked-In.

 

Algumas pessoas olham para Locked-In sobretudo como um álbum gerado por inteligência artificial, enquanto outras defendem que é, acima de tudo, uma obra profundamente humana, porque nasce da tua visão, das tuas letras e das tuas emoções. Como descreverias o teu papel criativo ao longo de todo o processo?

Vejo-me como o arquiteto do álbum. Por exemplo, fiz questão de que o mesmo vocalista surgisse em cerca de nove das faixas. Todo o álbum foi construído com base em decisões desse género. Depois, claro, há as letras. Quando alguém pega em letras tão emocionais como estas e lhes dá forma musical, é natural sentir que a canção passa a ser sua. Quando ouvi Still Here pela primeira vez, foi um momento de verdadeira euforia.

 

As tuas letras têm sido amplamente elogiadas como o núcleo emocional do álbum. Temas como Blink Once For Yes, Gasping For Air e Pain Around Me partem diretamente de experiências profundamente pessoais. Foi difícil transformar momentos tão íntimos em música ou, pelo contrário, escrever estas canções acabou também por ser uma experiência libertadora?

Sim, exatamente. Escrever proporciona-me uma enorme sensação de libertação, tal como aconteceu quando escrevia os meus livros. Aliás, pode dizer-se que criar, seja o que for, oferece sempre uma espécie de libertação emocional. A Michelle é designer gráfica profissional e, juntos, também criamos videoclipes para as canções mais antigas. Quando algo que imaginámos finalmente ganha forma, muitas vezes acabamos por soltar um grande e sentido "Sim!", um verdadeiro momento de triunfo.

 

Musicalmente, o álbum percorre o rock progressivo, o AOR, o hard rock melódico e até alguns apontamentos de música sinfónica. Já tinhas uma visão sonora bem definida antes de iniciares este projeto ou essa identidade foi surgindo gradualmente à medida que aprendias a trabalhar com a inteligência artificial?

Como já escrevi centenas de críticas, vejo todos esses estilos como uma forma ideal de variedade, tal como acontece nos filmes e nos livros. Tem de existir uma base consistente, mas tudo o que se acrescenta por cima contribui com algo de valioso. Além disso, gosto genuinamente de todos esses estilos. Basta olhar para a minha coleção de CDs. Este álbum é, simplesmente, quem eu sou.

 

Muitos músicos receiam que a inteligência artificial possa acabar por substituir a criatividade humana. No teu caso, porém, permitiu-te recuperar uma forma de expressão artística que a tua condição te tinha retirado. Acreditas que a tua experiência pode ajudar a mudar a forma como as pessoas encaram esta tecnologia?

Penso que este álbum também demonstra que existe um lado positivo na música criada com recurso à inteligência artificial. O que me surpreende é que muitas pessoas também conseguem ver isso. De certa forma, a discussão sobre a música feita com IA faz-me lembrar o aparecimento do rock. Na altura, dizia-se que aquilo "não era música" e que corrompia as notas musicais. A música clássica continua a ser tocada hoje em dia e estou convencido de que as pessoas continuarão a fazer rock durante todo o tempo em que existirmos.

 

Embora o álbum tenha recebido críticas muito positivas, alguns críticos sugeriram que certos aspetos, como a produção muito polida ou algumas transições menos naturais, ainda denunciam a utilização de inteligência artificial. Ao ouvires o álbum terminado, houve momentos em que pensaste: "Isto ainda não corresponde exatamente ao que imaginei"?

Não, sinceramente. A produção pode, de facto, ser um pouco polida, mas isso não me incomoda. E alguém comentou que um solo de saxofone parecia fundir-se com um solo de teclado. Não consigo ver isso como uma crítica. Toquei saxofone durante anos e fazia precisamente esse tipo de transição na vida real. Há pessoas que criticam apenas por criticar.

 

Passaste muitos anos como jornalista musical e agora encontras-te do outro lado da barricada. A forma como críticos e ouvintes reagiram a Locked-In correspondeu às tuas expetativas ou houve reações que te surpreenderam verdadeiramente?

Penso que algumas críticas se concentram demasiado na inteligência artificial, como se ela fosse, por si só, algo negativo. Nesses casos, acabam por parecer mais artigos de opinião do que verdadeiras críticas. O que há de errado no facto de, passados 33 anos, a IA me ter permitido voltar a dedicar-me ao meu hobby? No fim de contas, não deveria ser o conteúdo aquilo que realmente importa?

 

Depois de concluíres este projeto, sentes que encontraste uma nova linguagem artística que podes continuar a explorar? Já existem ideias para outro álbum ou estás simplesmente a desfrutar do facto de voltares a fazer música?

Sim, é uma nova linguagem que quero continuar a explorar. Sou assim por natureza: estou sempre a olhar em frente. Aquilo de que mais gosto é escrever canções para as pessoas que me rodeiam. Isso também me permite experimentar diferentes géneros musicais de vez em quando. Estou igualmente a trabalhar num tema que pretendo lançar como complemento ao álbum Locked-In. Posso já revelar que utilizei novamente a mesma voz para os vocais. Também me interessa muito a evolução da IA aplicada ao vídeo, um campo que está a avançar a uma velocidade impressionante. Estou a pensar em fazer um videoclipe para essa música. O guião já está escrito.

 

Finalmente, se alguém ouvir Locked-In sem conhecer nada da tua história pessoal nem do recurso à inteligência artificial na sua criação, o que gostarias mais que retirasse dessa experiência?

Que tivesse gostado de o ouvir. No final, é isso que realmente importa.

 

Muito obrigado pelo teu tempo. Para terminar esta entrevista, gostarias de deixar uma última mensagem aos nossos leitores?

Podem ouvir o álbum em todas as principais plataformas de streaming, como o Spotify e a Apple Music. E gostaria também de agradecer a todos o interesse demonstrado por esta entrevista.

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