Reviews VN2000: PAULA TELES; LION'S SHARE; LOUVADO ABISMO; GARGANT; AEVERIS

 


Desencanto Entreparedes
(PAULA TELES)

(Ethereal Sound Works)

[25/agosto/2026]

Os dois lados da parede encontraram finalmente a mesma casa. Depois de ver esgotadas as edições de Desencanto e Entreparedes, Paula Teles reúne os dois EPs num único CD, transformando aquilo que estava separado num retrato completo desta primeira fase do projeto. Não é propriamente um novo álbum; é a consolidação de uma identidade artística que já conquistou o seu espaço entre a tradição portuguesa e a contundência do metal. Ao longo de catorze temas, a guitarra portuguesa discute, provoca e, quando necessário, eleva a voz entre riffs pesados, piano, declamação e uma interpretação vocal profundamente fadista. Prólogo, dedicado a Carlos Paredes, reforça essa ligação, enquanto Björn “Speed” Strid volta a atravessar fronteiras, incluindo a linguística, em Jogo do Silêncio e (Re) Encarnado. Editado pela Ethereal Sound Works, Desencanto Entreparedes apresenta quase uma hora de música e um livreto de doze páginas com as letras. Mais do que recuperar dois trabalhos esgotados, esta edição impede que fiquem presos entre paredes: devolve-os ao público como partes inseparáveis da mesma obra. [90%]





Dark Hours (LION’S SHARE)

(Metalville Records/Flying Dolphin Entertainment)

[28/agosto/2026]

Vietname, Charles Manson, Martin Luther King, Che Guevara, a Primavera de Praga e as teorias da conspiração em torno da chegada à Lua. Os Lion's Share encontraram nos episódios mais sombrios e controversos do final dos anos 60 a matéria-prima para Dark Hours, um álbum que, em vez de seguir a imagem colorida e otimista habitualmente associada à década, preferiu escavar as suas zonas de sombra. Originalmente editado a 25 de março de 2009 pela Blistering Records, o álbum regressa agora, dezassete anos depois, através da Metalville, numa reedição particularmente relevante por marcar a sua primeira disponibilização em vinil. Nomeado para Álbum do Ano nos Swedish Metal Awards, Dark Hours reuniu Lars Chriss, Nils Patrik Johansson e Sampo Axelsson, contando ainda com um solo de Michael Romeo em Behind The Curtain, narrações de Stefan Norgren, participação do baterista Conny Pettersson e com a mistura e masterização de Jens Bogren. Disponível em CD, vinil preto e uma edição limitada em amarelo, esta reedição devolve à circulação um dos capítulos mais ambiciosos da história dos Lion's Share e um álbum cujo conceito continua, curiosamente, a soar tão inquietante quanto atual. [84%]




Louvado Abismo (LOUVADO ABISMO)

(Ethereal Sound Works)

[setembro/2026]

O trabalho homónimo dos Louvado Abismo saiu em maio de 2024, pela Half Beast Records, em vinil e formato digital. Chega agora em CD, via Ethereal Sound Works, com dois temas bónus: remixes de Corrida Lenta, por Rui Bentes, e de Alma Incandescente, por Towkuhsh Razamod. Apesar de o quarteto lisboeta já preparar o sucessor, provisoriamente chamado Sul, para o início de 2027, ainda vale a pena demorar-nos nesta estreia. Hugo Conim, Pedro Almeida e Hélder Luís conhecem bem os caminhos do rock pesado, mas aqui preferem perder-se entre batidas sincopadas, guitarras distorcidas e um baixo que sustenta todo o groove. Patrícia Andrade faz o resto, que é como quem diz, desarruma tudo. Canta (sempre em português), grita, murmura e transforma cada mudança de voz numa nova expressão de mal-estar. Ao longo do álbum, esse dramatismo contamina também os instrumentos, embora, por vezes, a interpretação carregue tanto nas emoções que lhes acabe por retirar alguma força. Mas, quando voz e instrumentos se encontram no ponto certo, é difícil ficar indiferente. O disco dói, corta e fere, mas para nossa surpresa, também nos põe a mexer. [76%]




Dead Night Defiance (GARGANT)

(Fireflash Records)

[25/setembro/2026]

Originalmente lançado de forma independente em 2025, Dead Night Defiance ganha agora maior projeção com a edição internacional pela Fireflash Records. É a estreia dos brasileiros Gargant e são precisos poucos minutos para perceber que os seus alicerces assentam num heavy/power metal de forte raiz noventista, musculado, sombrio e construído sobre referências bastante reconhecíveis. Compacto, pouco acima da meia hora, o álbum vive sobretudo das guitarras. Riffs densos e cortantes, ocasionalmente próximos do thrash, convivem com solos extensos, harmonizações, refrões épicos, gang vocals e alguns apontamentos de teclados. Há competência instrumental e um equilíbrio interessante entre agressividade e melodia, embora nem sempre as composições consigam transformar essa abundância de recursos em momentos verdadeiramente memoráveis. Judas Priest da era Painkiller, Sanctuary, Iced Earth ou Grave Digger aparecem demasiadas vezes no horizonte para que os Gargant consigam reclamar já um território inteiramente seu. Dead Night Defiance tem peso, técnica e boas ideias, mas ainda lhe falta aquela personalidade capaz de separar uma estreia competente de um disco realmente marcante. [72%]





Imminence (AEVERIS)

(Independente)

[23/maio/2026]

Depois de termos contactado com White Elephant, o álbum de estreia dos belgas Aeveris, em 2022, o regresso da banda faz-se agora através de Imminence, um trabalho que reúne os dois EPs anteriormente editados, Imminence Act I: Roots e Act II: Revelations. O resultado confirma uma banda tecnicamente competente dentro do metalcore contemporâneo, capaz de conjugar riffs pesados e melódicos, uma bateria sólida e uma utilização dinâmica das vozes, alternando agressividade e melodia com naturalidade. Há qualidade na execução e uma preocupação evidente com a construção das canções, evitando que o peso se transforme numa sucessão previsível de breakdowns. Ainda assim, Imminence acaba por revelar algumas limitações. Apesar da consistência, da boa produção e de uma abordagem suficientemente variada, faltam-lhe aqueles momentos verdadeiramente marcantes capazes de permanecer na memória depois de o álbum terminar. As composições funcionam, mas poucas conseguem destacar-se de forma inequívoca. Imminence é, assim, um trabalho sólido e competente, que demonstra a evolução dos Aeveris, mas que não consegue deixar uma impressão realmente duradoura. [70%]

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