Entre diálogos de Hammond e
guitarra, harmonias vocais e desvios pelo space disco, os Mad Painter
continuam a explorar o espírito aventureiro dos anos 70. A propósito de Island
Poetry, o seu terceiro álbum, Alex Gitlin falou-nos sobre uma banda mais
coesa, os acidentes criativos que ficam nas canções e a vontade de dar novos
caminhos às influências de sempre.
Olá, Alex, e bem-vindo a
Via Nocturna 2000! É um prazer ter os Mad Painter connosco. O vosso terceiro
álbum, Island Poetry, parece um disco que poderia ter sido
descoberto num arquivo esquecido dos anos 70. O que achas da evolução da banda
e o que é que este novo álbum representa na vossa trajetória?
Acho que o Island Poetry representa uma fase
mais focada para os Mad Painter. O Splashed era um álbum de 17
faixas composto por material escrito em momentos diferentes e, em termos de
estilo, era muito abrangente, quase «tudo e mais alguma coisa». O Island
Poetry é mais coeso, um pouco mais pesado e, acima de tudo, um esforço
muito mais coletivo. A maior parte do material foi escrito
especificamente para este álbum, embora haja exceções. Stand Your Ground
remonta a 2017, enquanto Empty Bottles foi escrita em 2021 e já estava a
ser tocada antes do lançamento de Splashed. Portanto, nesse
sentido, a evolução consiste em passar da compilação de uma grande coleção de
ideias diferentes em Splashed para a criação de um álbum que parece mais
próprio de uma banda específica num momento específico. Continua a percorrer o hard
rock, o rock progressivo, o glam, o metal, a space
disco e outros territórios, mas acho que há uma identidade comum mais forte
a mantê-lo coeso.
Como vimos, ao
contrário de Splashed, que combinava composições mais antigas e mais
recentes, Island Poetry foi escrito em grande parte a pensar na formação
atual. Como é que isto alterou o vosso processo criativo e quanta liberdade
tiveram os outros músicos para moldar as canções?
Uma coisa interessante sobre o nosso processo criativo
é que o nosso guitarrista, Al Naha, é, em grande medida, o nosso
guardião do tempo e do arranjo original. A sua instrução favorita é,
essencialmente: «Faz como na demo!» Ele gosta de se manter fiel à demo
original, incluindo momentos em que algo pode ter acontecido quase por
acidente, e depois insiste para que consolidemos esse arranjo específico como a
estrutura final da canção. Ironicamente, isso pode resultar em algumas
reviravoltas muito interessantes e espontâneas que se tornam partes permanentes
da composição. Os outros geralmente seguem o fluxo, embora, de vez em quando,
alguém tenha uma ideia interessante (um final, por exemplo) que acaba por ser
incorporada no arranjo final. Portanto, há liberdade dentro da banda, mas
também existe um forte desejo de preservar tudo o que conferiu carácter à demo
original.
O álbum soa
notavelmente orgânico, quase inteiramente analógico, apesar de ter sido gravado
com tecnologia moderna. Captar aquele calor vintage foi um
objetivo deliberado da produção, e onde traçam a linha entre preservar as
imperfeições do rock clássico e tirar partido das possibilidades
modernas de gravação?
O calor fazia certamente parte do som que queríamos,
mas «analógico» não deve ser interpretado de forma demasiado literal. O álbum
foi gravado faixa a faixa por Tom Hamilton na Lowell Street Sound,
em Peabody, Massachusetts, e foi também o Tom quem o produziu e misturou.
Utilizámos tecnologia de gravação moderna (Pro Tools e plugins)
em vez de fazermos um disco autenticamente totalmente analógico. O que importa
para mim é o resultado: algo acolhedor e natural, em vez de clinicamente
perfeito. A tecnologia moderna é extremamente útil, mas não há razão para
que tenha de retirar toda a personalidade de uma interpretação. O objetivo
era, essencialmente, utilizar métodos de gravação contemporâneos sem perder o
carácter associado aos discos que adoramos.
O órgão Hammond é
absolutamente central para a identidade dos Mad Painter, competindo
frequentemente com a guitarra. Como é que desenvolves estes diálogos sem
transformar as canções em exibições intermináveis de virtuosismo?
Essa relação entre o Hammond e a guitarra é muito
importante para os Mad Painter. Não encaro o Hammond como algo
que se limita a ficar atrás da guitarra a preencher os acordes. Ele pode
conduzir o riff, proporcionar harmonia e textura, tornar-se um
instrumento principal ou responder diretamente à guitarra. Às vezes, a guitarra
assume o primeiro plano e, outras vezes, é o Hammond que o faz. Isso
cria naturalmente uma espécie de conversa e, ocasionalmente, uma competição, entre
os dois instrumentos. O objetivo não é ter toda a gente a fazer solos sem
parar; é deixar que os papéis se alternem dentro da canção. Essa interação é
uma parte importante do som da banda.
A vossa música transita
com facilidade entre o hard rock dos Deep Purple, o boogie
dos Status Quo, a teatralidade dos Queen e os territórios mais sofisticados do rock
progressivo britânico. Com tantas influências reconhecíveis, como é que
garantem que os Mad Painter desenvolvem a sua própria personalidade?
Certamente não tentamos disfarçar as nossas
influências. Os Deep Purple, os Uriah Heep, os Status Quo,
os Queen, os Rainbow, os Wishbone Ash, os Motörhead
e grande parte do rock britânico daquele período fazem genuinamente
parte do nosso vocabulário musical. Mas essas influências não se manifestam
todas da mesma forma. Debt Collector e Suit Of Worries têm uma
forte ligação aos Deep Purple; Empty Bottles vem da linha dos Status
Quo; Shadow Of The Words tem uma influência dos Queen; e Nektarized
vai por um caminho completamente diferente, rumo ao space disco. Outras
canções aventuram-se no heavy metal, no rock progressivo ou em
territórios mais jazzísticos. Acho que a personalidade dos Mad
Painter advém da combinação desses elementos diferentes na mesma banda, nas
mesmas vozes, nos arranjos impulsionados pelo Hammond e nas nossas
próprias canções. Somos influenciados por esse período, mas não nos limitamos a
reproduzir uma banda ou um estilo em particular.
Nektarized é uma das composições mais
intrigantes do álbum, com estruturas rítmicas invulgares e mudanças inesperadas
de direção. O título é uma homenagem direta aos Nektar, ou há algo mais por
trás disso? E quão importante é a experimentação numa banda tão profundamente
enraizada no rock clássico?
Sim, a ligação aos Nektar é absolutamente
intencional, mas há uma reviravolta. Nektarized é uma homenagem invulgar
aos Nektar, na qual a letra é construída a partir de títulos de álbuns e
canções dos Nektar. Musicalmente, porém, a faixa não é simplesmente uma
tentativa de soar como os Nektar. A referência musical está muito mais
próxima do som space-disco dos Ganymed do final dos anos 70.
Assim, o título e a letra apontam numa direção, enquanto a inspiração musical
aponta para outro lado. Esse tipo de experiência encaixa-se perfeitamente no Island
Poetry. Estar enraizado no rock clássico não significa estar
restrito a uma única fórmula. Neste álbum, podemos passar do hard rock
com forte presença de Hammond para o metal, o glam, a
música atmosférica, um shuffle com toques de jazz e algo como Nektarized,
mantendo sempre o som da mesma banda.
Um dos pontos fortes do
álbum é a sua capacidade de mudar de caráter sem perder a coerência. Estes
arranjos surgem naturalmente ou desafiam-se conscientemente a ir além das
fórmulas familiares?
Essas mudanças surgem geralmente de forma espontânea
durante os arranjos, em vez de resultarem de qualquer decisão consciente de que
precisamos de tornar uma canção diferente apenas pelo prazer de ser diferente. Essa
é uma das coisas de que gosto na forma como a banda funciona. Um arranjo pode
tomar um rumo inesperado simplesmente porque algo acontece durante o ensaio,
alguém toca algo de uma forma particular ou uma característica acidental da
demo original passa a fazer parte da canção final. Portanto, a variedade não é
calculada. Desenvolve-se naturalmente a partir do material e da forma como os
músicos reagem ao mesmo.
As melodias e as
harmonias vocais são outro grande ponto forte deste álbum. Acham que esta
dimensão melódica merece tanta atenção quanto a identidade mais pesada da
banda, impulsionada pelo Hammond?
Sem dúvida. O Hammond e o lado mais pesado da
banda podem ser os elementos mais imediatamente percetíveis, mas a melodia e a
harmonia vocal são uma parte muito importante do Island Poetry. O álbum
não pretende ser uma série de doze demonstrações de órgão e guitarra pesados. Os
Queen são uma das influências na nossa formação musical, e o álbum
contém muito material em que a melodia, a atmosfera e as vozes sobrepostas são
tão importantes quanto o peso instrumental. Para mim, essas não são identidades
separadas. São partes diferentes do vocabulário da mesma banda.
Seis canções contam com
letras do escritor e jornalista musical Dmitry M. Epstein. De que forma
trabalhar com as palavras de outra pessoa afeta a vossa composição? As letras
dele alguma vez vos obrigaram a abandonar uma ideia musical inicial e a
explorar uma direção completamente diferente?
O Dmitry M. Epstein escreveu as letras de seis
das doze canções do Island Poetry, e a nossa colaboração foi-se
desenvolvendo ao longo do tempo. No início da colaboração, a abordagem era mais
centrada na melodia, enquanto que, mais tarde, o Dmitry também me enviava
poemas e eu compunha música para eles. É uma forma interessante de trabalhar,
porque se está a responder a uma linguagem que já tem o seu próprio ritmo,
imagética e estrutura, em vez de simplesmente escrever palavras para se
adequarem a uma peça musical já existente. Mas não, as letras dele nunca me
obrigaram a abandonar uma ideia musical inicial e a recomeçar numa direção
completamente diferente. A primeira vez que leio uma das suas letras, tenho
tendência a «ouvir» a música de uma determinada forma na minha cabeça. A
melodia flui naturalmente das palavras, e é assim que a canção nasce.
Encerram o álbum com
uma interpretação de Circle Of Hands, dos Uriah Heep. Tendo em
conta a forte influência que estes exercem na música dos Mad Painter, por que
razão optaram por uma abordagem tão respeitosa? E o que faz com que esta canção
em particular seja a conclusão ideal para Island Poetry?
Os Uriah Heep são particularmente importantes
porque são uma daquelas bandas em que as origens musicais dos membros dos Mad
Painter realmente convergem. Circle Of Hands já fazia parte do nosso
repertório ao vivo, por isso não foi um cover escolhido arbitrariamente
no final da gravação do álbum. Abordámo-la com respeito e de forma bastante
fiel, em vez de tentarmos transformá-la em algo irreconhecível. Às vezes, uma
canção não precisa de ser desconstruída simplesmente para provar que se é capaz
de o fazer. E, como faixa de encerramento, confere ao álbum aquele clássico
sentido de grandiosidade dos Uriah Heep. Funciona tanto como uma
homenagem como uma afirmação de uma das origens musicais dos Mad Painter.
Quais são os vossos
planos para promover Island Poetry ao vivo? E com a Epictronic a
ajudar-vos a chegar ao público europeu, será realista esperar ver os Mad
Painter a atuar na Europa, talvez até em Portugal?
Planeamos continuar a tocar por toda a Nova Inglaterra
sempre que tivermos um compromisso, incluindo Massachusetts, Rhode Island, New
Hampshire e Connecticut. Acabámos também de regressar de dois espetáculos na
área de Nova Iorque: o Parkside Lounge, em Manhattan, e o Famous Food
Festival, em Long Island. O Famous Food Festival foi o maior palco
em que já tocámos, com o maior público perante o qual já nos apresentámos até
agora. Foi uma verdadeira emoção. A Epictronic é uma editora italiana e
o facto de a termos a bordo dá certamente aos Island Poetry a
oportunidade de alcançar mais ouvintes na Europa. Mas no que diz respeito às
digressões, de momento não temos planos de nos aventurarmos fora dos Estados
Unidos. Por isso, infelizmente, ainda não posso prometer Portugal!
Alex, obrigado por
partilhares as tuas reflexões com a Via Nocturna 2000. Antes de terminarmos, o
que gostarias de dizer aos nossos leitores, especialmente àqueles que ainda
acreditam que o espírito aventureiro do rock dos anos 70
ainda tem muitas histórias para contar?
Muito obrigado pelo convite e por terem dedicado tempo
a ouvir o álbum com tanta atenção. A quem acredita que o espírito aventureiro
do rock dos anos 70 ainda tem histórias para contar, eu diria: nós
também. Para nós, amar esse período não significa tratá-lo como algo preservado
atrás de um vidro. Esses sons, como órgãos Hammond, guitarras potentes,
harmonias vocais, ideias progressivas, riffs de hard rock e
melodias fortes, continuam perfeitamente capazes de se transformar em música
nova. É precisamente disso que tratam os Mad Painter. Sabemos de onde
vem a inspiração, temos orgulho dela e estamos interessados em ver até onde a
podemos levar.




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