Três dias
em estúdio, cinco canções e uma identidade ainda em construção. Os Voronet
Blue, quinteto de Coimbra, estreiam-se com The Chariot, editado pela Lux Records,
cruzando a aspereza do grunge com as atmosferas do shoegaze e a
irreverência do rock alternativo. Entre imperfeições assumidas,
simbolismos e ambições, descobrimos uma banda que não esconde as suas origens,
mas já procura ultrapassá-las.
Olá,
Voronet Blue, bem-vindos a Via Nocturna! Para quem vos descobre agora, como se
conheceram e o que vos levou a formar a banda em Coimbra, em 2023?
BEATRIZ MONTEIRO (BM): Os primórdios dos Voronet Blue remontam a 2018, quando o Zé
(guitarrista) me convidou, para integrar uma banda da qual já fazia parte. Na
altura, optei por não aceitar o convite. Em 2022, o Zé voltou a desafiar-me,
desta vez com uma proposta distinta: criar um novo projeto musical, partindo do
zero. Naquele momento, encontrava-me sem qualquer ligação a um projeto musical
e recordo-me de ter partilhado com alguém as saudades que sentia de fazer
música. Nesse sentido, o convite surgiu numa altura particularmente oportuna, permitindo-me
reencontrar uma vontade que permanecia por concretizar. Foi assim que aceitei o
desafio e dei início, juntamente com o Zé, àquilo que viria a ser os Voronet
Blue. Ao longo de 2022, o projeto desenvolveu-se a dois, tendo sido em 2023 que
começámos a reunir os restantes elementos. Bernas (guitarra) e a Leo (baixo)
juntaram-se simultaneamente. Eu e Bernas já partilhávamos uma amizade de longa
data, enquanto a Leo chegou através de uma procura nas redes sociais. Foi
também por esta via que encontrámos o Diogo (bateria), o último elemento a
integrar o grupo, completando a formação dos Voronet Blue.
Que
referências vos aproximaram inicialmente e em que momento sentiram que começava
a surgir uma identidade própria? Já agora, de onde vem o nome Voronet Blue?
BM: Sendo eu e o Zé os primeiros elementos do projeto, as
bases musicais dos Voronet Blue começaram por surgir do encontro entre
as nossas preferências e referências individuais. Enquanto o Zé se aproximava
mais do shoegaze, do rock alternativo e do noise rock
e de referências como My Bloody Valentine, Wolf Alice e Sonic
Youth, eu encontrava maior inspiração no rock clássico, com grande
foco nos anos 70, e no grunge, com referências principais como Fleetwood
Mac, L7, Blondie e Hole. Desta combinação nasceu uma
primeira identidade sonora, em que as melodias atmosféricas do Zé se cruzavam
com as minhas letras, de caráter mais místico, e uma voz influenciada
pelas mulheres que marcaram a história do rock. Com a entrada de
Bernas, da Leo e do Diogo, esta identidade foi-se expandindo e
adquirindo contornos cada vez mais próprios, fruto da diversidade de gostos,
referências e sensibilidades musicais de cada um. A escolha do nome foi,
curiosamente, um dos processos mais difíceis. Tanto quanto me recordo, só ficou
decidido, em modo de votação, depois de termos a confirmação do nosso concerto
de estreia, altura em que se tornou indispensável dar um nome ao projeto. Procurávamos
algo singular, capaz de refletir a natureza etérea das guitarras, mas que evocasse
também uma certa misticidade e se relacionasse com o universo das letras. Foi assim
que surgiu Voronet Blue,
uma referência ao azul característico do Mosteiro de Voroneț, na Roménia, cuja
tonalidade singular permanece envolta em mistério, sendo frequentemente
associada à dificuldade de reproduzir exatamente a sua composição original.
Esta ideia de algo simultaneamente belo, enigmático e difícil de replicar
acabou por ressoar com a identidade que procurávamos construir enquanto banda.
Como
decorreu a criação de The Chariot, desde as primeiras ideias até à gravação? Qual foi a
decisão mais difícil para transformar essas ideias num primeiro trabalho que
vos representasse?
BM: Desde o início, tivemos a intenção de desenvolver os Voronet
Blue como um projeto sério, assente sobretudo na criação de música
original. Quando a banda se consolidou, em 2023, eu e o Zé já tínhamos
composto, em formato acústico, Marigold,
a primeira música que escrevemos em conjunto, à qual se seguiu Juliette. Já com a formação completa,
surgiu Grip, a primeira composição
desenvolvida por todos os elementos, seguida de The Chariot e, por último, Stargaze.
Apesar de a banda se ter formado em 2023, só em 2025 avançámos para a gravação destes
temas. Durante esse intervalo, foram naturalmente surgindo novas ideias e possibilidades
sonoras, o que tornou o processo de seleção particularmente desafiante. Mais do
que escolher as músicas de que mais gostávamos, era importante perceber quais representavam
melhor a identidade dos Voronet Blue. O maior desafio foi, por isso, encontrar
um equilíbrio entre a sonoridade que nasceu inicialmente da colaboração entre mim
e o Zé e aquela que foi sendo construída coletivamente com a entrada dos
restantes elementos. Queríamos que este primeiro trabalho refletisse não só
aquilo em que nos tínhamos tornado enquanto banda, mas também as nossas
origens, preservando a essência do projeto desde os seus primeiros passos.
O EP
conserva alguma inexperiência própria de uma estreia, mas também deixa ouvir
ideias com margem para crescer. Hoje, o que sentem que ficou plenamente conseguido
e o que gostariam de ter desenvolvido melhor?
BM: O EP foi gravado em apenas três dias, em agosto de
2025, num processo intenso, que se estendeu das primeiras horas da manhã até ao
final da tarde, sob o calor característico do verão e num estúdio cuja própria
estrutura, repleta de isolamento acústico, tornava as condições particularmente
exigentes. Apesar do tempo limitado, sentimos que conseguimos concretizar a
essência do que pretendíamos transmitir com este primeiro trabalho e estamos
satisfeitos com o resultado e com a identidade que nele conseguimos afirmar. Ao
mesmo tempo, reconhecemos que a experiência nos deixou vontade de explorar outras
possibilidades. Numa próxima edição, gostaríamos de dispor de mais tempo em estúdio,
permitindo-nos aprofundar os arranjos, experimentar novas abordagens e acrescentar
camadas e detalhes às composições. Olhamos, por isso, para este EP com satisfação,
mas também como um ponto de partida: um primeiro registo que representa quem
somos neste momento e que nos dá espaço para continuar a crescer enquanto banda.
Os
primeiros temas são mais curtos e diretos; depois, as composições ganham duração
e nuances que as tornam mais interessantes. Essa sequência foi pensada para
revelar progressivamente outra dimensão da banda ou reflete diferentes fases da
vossa escrita?
BM: Acho que, por uma espécie de coincidência, acaba por ser
um pouco das duas coisas. A ordem dos temas foi pensada sobretudo tendo em
conta a ótica de quem o ouve, procurando criar uma sequência que fizesse
sentido e conduzisse o ouvinte pelo universo sonoro dos Voronet Blue. No
entanto, olhando para o EP como um todo, sinto que essa progressão acaba também
por refletir as diferentes fases da nossa escrita e a forma como fomos
explorando outras possibilidades musicais. Ao longo do EP, sentimos que apresentamos
diferentes estilos e abordagens sonoras, revelando as várias influências que coexistem
na banda. Assim, quase sem intenção premeditada, a sequência permite que essas
diferentes facetas se manifestem gradualmente, dando a conhecer não só a
evolução da nossa escrita, mas também a diversidade e as várias dimensões da
identidade musical dos Voronet Blue.
As
guitarras ásperas dão uma impressão imediata de simplicidade, mas há pormenores
que só se revelam com novas audições. Como decidem quando uma canção precisa de
mais uma camada e quando acrescentar começa a retirar-lhe força?
JOSÉ “ZÉ” GASPAR (JG): O EP foi gravado em formato live, ou seja, os instrumentos todos ao mesmo tempo, as vozes foram
gravadas depois. Foram poucas as guitarras que foram gravadas já depois, nomeadamente
os solos de Bernas em Grip e em The Chariot, os feedbacks e outros “noise effects”. A percussão também foi gravada depois. No caso das
guitarras, ficou a sensação de que poderíamos ter acrescentado algumas camadas
e, mesmo na preparação de músicas novas que temos vindo a compor, já é algo que
temos mais em mente, já vamos tendo ideias para diferentes guitarras e
diferentes atmosferas com os pedais de efeitos. No caso da percussão, o Diogo
já usava o cowbell nos ensaios, mas o
resto veio depois de explorarmos o que havia no estúdio, o que também foi um
processo engraçado, e correu bem e ficou. Apesar de não ser isso que sentimos
com o EP, se calhar será demais quando sentirmos que será cada vez mais difícil
replicar ao vivo.
BERNARDO “BERNAS” MATOS (BM): Senti que foram muitos ensaios e experiência ao vivo
antes de finalmente entrarmos em estúdio. Obrigou-nos a olhar para este
conjunto de músicas de diversas perspetivas e situá-las em diferentes
contextos. Então, quando finalmente nos vimos em estúdio, já tínhamos algumas
coisas que ao nível das guitarras sabíamos que tinham de estar garantidas: noise, feedbacks e texturas que
se desenvolvessem de um tema para outro, bem como qualquer outra “fritaria”
que, naturalmente, saísse dali naqueles curtos dias em estúdio. No que diz
respeito aos solos, eu tinha um conjunto de ideias e coisas que fui inventando.
Quando fiquei sozinho no estúdio para gravar esses takes, liguei quase todas as distorções que tinha, segui o instinto
e saiu o que tinha que sair! Sempre gostei da ideia de um EP de estreia
tendencialmente mais cru e com personalidade; acho que conseguimos isso e só
nos deu vontade de fazer mais.
O título
remete para a carta O Carro, do Tarot, e para a tensão entre determinação e perda
de controlo. Esse conceito orientou a escrita ou surgiu ao reconhecerem algo comum
às cinco canções?
BM: Inicialmente, The Chariot era apenas o título da
última faixa do EP. No entanto, quando olhámos para as cinco composições no seu
conjunto, percebemos que era também o nome que melhor representava este
primeiro trabalho, tanto pelo seu simbolismo como pela ligação que estabelece
entre todas as músicas. A carta do Carro está associada ao movimento, à
progressão e ao impulso de avançar, o que nos pareceu particularmente adequado
para representar o início do nosso percurso discográfico. Para além disso, sentimos
que cada tema se relaciona, à sua maneira, com o simbolismo da carta. Grip aborda a total perda de controlo; Stargaze explora a manifestação e a
crença de que o movimento nos pode conduzir a algum lugar; enquanto Juliette e Marigold refletem as consequências de movimentos passados, de
experiências que outrora nos fizeram perder o controlo, mas que também nos
ensinaram a recuperar as rédeas do nosso próprio caminho. Por sua vez, The Chariot representa a aceitação
daquilo em que nos transformamos através dessas experiências: uma espécie de
carapaça espessa e garras afiadas, desenvolvidas como mecanismos de proteção,
mas que se tornam também instrumentos para avançar. Tal como um caranguejo,
aprendemos a movimentar-nos com aquilo que fomos adquirindo ao longo do
caminho. Esta imagem ganha ainda outra dimensão pelo facto de o Carro ser a carta
associada ao Caranguejo no simbolismo do Tarot e da astrologia. Assim, The Chariot acabou por transcender o
título de uma única música para se tornar o conceito que une todo o EP: um
trabalho sobre perda de controlo, transformação e movimento, que assinala o início
do nosso percurso enquanto banda.
O que
procuravam numa editora para esta estreia e como nasceu a ligação à Lux Records?
Que importância tem, para uma banda a começar, poder apresentar este trabalho
também em CD?
BM: Uma das coisas que nos une enquanto banda é também o
carinho que temos por Coimbra. Somos todos da cidade, à exceção da Leo, que é
do Porto (mas estudou em Coimbra), e, por isso, a ligação à cena musical
conimbricense faz parte da nossa identidade. Neste contexto, a Lux Records
assume um papel fundamental enquanto estrutura de edição discográfica em
Coimbra, constituindo uma ferramenta essencial de apoio aos músicos independentes
e permitindo-lhes concretizar, editar e dar visibilidade aos seus projetos. É,
sem dúvida, uma referência no panorama musical da cidade e uma parte importante
daquilo que mantém viva a sua identidade musical. A nossa ligação à Lux surgiu
de forma bastante natural. Eu, Bernas, o Zé e o Rui Ferreira, da Lux
Records, somos RUCcianos, ou seja, fazemos parte da Rádio
Universidade de Coimbra, pelo que já existia uma ligação prévia através desse
espaço de partilha e divulgação musical. A aproximação aconteceu, assim, num
contexto de afinidade pessoal e musical, tornando esta colaboração
particularmente significativa para nós. Para esta estreia, procurávamos uma
estrutura que compreendesse a nossa identidade e que nos ajudasse a dar forma
física ao trabalho que tínhamos desenvolvido. A Lux Records surgiu como
um parceiro que, para além de conhecer de perto a realidade musical da cidade,
contribui ativamente para que projetos independentes tenham a oportunidade de editar
e divulgar a sua música. A edição em CD tem também uma importância especial, sobretudo
numa fase inicial do percurso de uma banda. Permite-nos materializar este primeiro
capítulo dos Voronet Blue num objeto que pode ser partilhado, guardado e
colecionado, prolongando a experiência da música para além do digital. É
gratificante fazer parte de uma cultura de edição independente que valoriza o
formato físico e que continua a criar espaço para novas vozes e projetos
musicais.
A vossa
sonoridade foi sendo construída em palco antes desta estreia. Agora que o EP
está editado, como pretendem levá-lo a mais públicos e até que ponto os concertos
continuam a transformar estas canções?
JG: É verdade! Nós
tivemos a oportunidade de nos apresentarmos ao público antes de seguirmos
para o estúdio, o que foi interessante para nós, para avaliarmos a reação das
pessoas às nossas músicas e ao nosso som. E também até ao lançamento em
setembro deste ano, tivemos mais outras oportunidades, como o Ceira
Rock Fest e a Casa Capitão. E quando começámos a anunciar que
íamos lançar um EP, isso também gerou alguma expectativa e tivemos
várias pessoas a vir ter connosco e a querer saber mais, o que foi ótimo
para nós. Agora, com o EP editado, o nosso principal objetivo é levar estas
músicas para os concertos e dar a conhecer a banda a cada vez mais
pessoas. Queremos chegar a diferentes públicos, também a quem já nos
conhece, mas que ainda não teve a oportunidade de nos ver ao vivo, a
quem ainda não está familiarizado com o nosso som e também a quem já nos
acompanha e continua a apoiar. É importante para nós manter essa ligação com
as pessoas e continuar a fortalecer essa relação através da música e dos
concertos.Para nós, cada concerto é uma história única, porque gostamos de
experimentar e fazer algo diferente, seja ao nível do alinhamento, da
performance ou até da estética visual. As músicas estão em constante
transformação, sobretudo as novas, que ainda não foram levadas para
estúdio. Mas mesmo os temas do EP vão ganhando novas formas ao vivo, seja
através de prolongamentos, de abordagens diferentes em partes instrumentais,
nomeadamente nos solos, ou da exploração de novos efeitos. Gostamos de
perceber até onde podemos levar cada música e de não sentir que existe
uma versão definitiva. Isso também torna cada concerto uma experiência
diferente, tanto para nós para quem nos ouve.
Obrigado
pela conversa! Que próximos passos gostariam de dar depois de The Chariot e que mensagem querem deixar
aos leitores da Via Nocturna que estão agora a entrar no vosso universo?
JG: Obrigado nós, pelo
convite! Para além de querermos continuar a apresentar o EP ao vivo, temos
também a ambição de começar a trabalhar o próximo projeto, que gostaríamos que
fosse um álbum. Ainda vamos precisar de algum tempo para nos reunirmos, trocarmos
ideias e explorarmos novos caminhos, mas é algo que já temos em mente. Aos
leitores da Via Nocturna, deixamos o convite para ouvirem o nosso EP e, para
quem nos quiser ver ao vivo, vamos tocar nos dias 30 e 31 deste mês, no TAGV,
em Coimbra, e no Espaço AL 859, no Porto, respetivamente. Já temos
também alguns concertos marcados para o próximo ano, que serão anunciados no
nosso Instagram. Por isso, sigam-nos por lá para acompanharem as
novidades e, quem sabe, encontrarmo-nos num próximo concerto!
BM: É isso! Venham,
tragam amigos e rockem muito! Stay safe!




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