Suola Ja Noaidi (SEX MAGICK WIZARDS)
(Is It Jazz? Records)
[04/setembro/2026]
Se isto é um ritual,
ninguém parece ter distribuído previamente as instruções. Em Suola Ja Noaidi,
os Sex Magick Wizards avançam como se cada músico soubesse onde quer
chegar, mas tivesse decidido escolher um caminho diferente. Estranhamente,
encontram-se. O quarteto norueguês-sámi transforma joik, psicadelismo, jazz
e improvisação livre numa linguagem própria, enquadrando-a numa obra que aborda
a colonização, a imposição religiosa e a resistência cultural sámi. O lado
tribal sustenta temas que vão crescendo e ganhando novas formas, muitas delas
absolutamente tresloucadas. O saxofone merece particular atenção. Mais do que
instrumento solista, comporta-se como outra voz, dialogando, discutindo e
interrompendo o vocalista. Depois há estruturas jazzísticas que começam
por desafiar convenções e acabam simplesmente por ignorar que elas existem. A
liberdade de composição e improvisação permite que noises, sons
disruptivos e acordes angustiantes entrem e saiam sem pedir licença. O problema
é que tanta liberdade também produz dispersão e alguns momentos parecem existir
apenas porque ninguém decidiu travá-los. Ainda assim, Suola Ja Noaidi
tem identidade, excentricidade, risco e uma saudável dose de insanidade. Nem
sempre os Sex Magick Wizards acertam no feitiço, mas dificilmente serão
confundidos com outros feiticeiros. [80%]
The Chariot (VORONET BLUE)
(2026, Lux Records)
[25/setembro/2026]
Formados em Coimbra
em 2023, os Voronet Blue chegam à estreia com alguma pressa de partir e vontade
de descobrir caminhos pelo percurso. The Chariot, editado pela Lux
Records, reúne cinco temas de um rock de guitarras ásperas, onde o shoegaze, o
alternativo e o post-punk se cruzam sem exigir grandes cerimónias à entrada.
Mas convém ficar um pouco, pois há mais para descobrir do que a primeira
impressão sugere. O arranque privilegia a concisão. O baixo da abertura agarra
o ouvinte, mas o tema deixa a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido
melhor trabalhadas. Mas a banda responde rapidamente a essa reserva. À medida
que se avança no EP, os temas crescem, a composição ganha nuances, as texturas
encontram espaço e a alternância entre intensidade e atmosfera torna-se mais
interessante. A duração passa, assim, a revelar uma vontade de exploração que
merece continuidade. Nota-se a estreia, sobretudo na distância entre as
possibilidades sugeridas e aquilo que chega a desenvolver-se. Ainda assim, há
personalidade em formação e matéria para trabalhar. Se a carta de Tarot que
inspira o título aponta para movimento e direção, este carro já arrancou. Falta
apenas afinar alguns mecanismos. [78%]
Cold In Cold Out (SLUG COMPARISON)
(2026, Independente)
[10/setembro/2026]
O frio anunciado em Cold
In Cold Out instala-se devagar. Primeiro, nas cordas acústicas de Tongue
Of The Hollow; depois, nas camadas orquestrais que adensam a canção,
deixando entrar uma sombra de grunge. A afinidade com os Nirvana
é assumida pelo próprio Doug Harrison, mas ganha aqui um enquadramento
mais atmosférico. Vocalista dos canadianos Fen, Harrison encontra nos Slug
Comparison espaço para desenvolver o lado mais introspetivo da sua escrita.
Neste EP de seis temas e cerca de 27 minutos, as guitarras de cordas de aço e
nylon favorecem uma abordagem eletroacústica em que melodia, voz e ambiente se
alimentam mutuamente. Harrison assegura praticamente toda a construção musical,
com Randall Stoll na bateria. A proximidade emocional com Katatonia
e Porcupine Tree percebe-se nessa melancolia que atravessa os arranjos.
O resultado convence mais pela forma como sustenta o ambiente e envolve o
ouvinte do que pela surpresa composicional. Ainda assim, há pormenores
suficientes para justificar novas visitas. Entra-se pelo frio do título;
fica-se pelo calor das canções. [81%]
The Eternal Baptisme (DIVISION:DARK)
(Metalville Records/Flying Dolphin Entertainment)
[02/outubro/2026]
Se o conceito de The
Eternal Baptism fala de uma humanidade que perdeu emoções e individualidade
para a perfeição tecnológica, há aqui uma pequena ironia involuntária: por
vezes, são precisamente as máquinas que parecem mandar demasiado. Os Division:Dark
regressam depois de Prophecy, desenvolvendo a sua mitologia distópica em
torno de renascimento, resistência e redenção. Musicalmente, o coletivo cruza gothic,
NDH, industrial, pop e ambientes cinematográficos, juntando
guitarras, elementos orquestrais e ritmos modernos. O problema é o peso
excessivo da eletrónica que frequentemente ocupa demasiado espaço, uniformiza
ambientes e deixa as guitarras com pouco oxigénio. Há momentos em que The
Eternal Baptism parece querer ser simultaneamente pesado, negro, futurista
e acessível, acabando por não aprofundar verdadeiramente nenhuma dessas
direções. Salvam-se algumas melodias bastante eficazes, sobretudo quando surgem
refrões capazes de furar essa muralha eletrónica, e um vocalista com presença
suficiente para lhes dar corpo. É pouco? Não exatamente. Mas também não chega.
Há boas ideias dentro deste futuro distópico; falta-lhes, curiosamente, um
pouco mais de humanidade. [70%]
Internal Inferno (NAIL BY NAIL)
(War Anthem Records)
[25/setembro/2026]
Três anos parecem
pouco tempo para descer duas vezes ao inferno. Os Nail By Nail
fizeram-no e, neste segundo álbum, o problema não está propriamente na
temperatura, mas no facto de as chamas começarem a parecer todas da mesma
fogueira. Internal Inferno entra muito bem. Depois da curta Portas
Aperio, Katharsis abre realmente as portas com um black metal
feroz, riffs cortantes, blast beats e uma componente melódica
sombria que acrescenta dimensão ao ataque. Há também uma intenção épica e
atmosférica que impede inicialmente o disco de viver apenas da brutalidade. O
problema surge quando percebemos que, ultrapassado esse impacto, os Nail By
Nail têm poucas cartas novas para colocar na mesa. Ride The Beast ou
Above The Black Tower mantêm intensidade e competência, mas a sensação
de descoberta vai diminuindo. Dois álbuns em três anos talvez expliquem alguma
dessa falta de espaço para maturar ideias. Nada disto transforma Internal
Inferno num mau disco. Pelo contrário, há força, bons ambientes e execução
convincente. Simplesmente, para um inferno que promete ser tão Internal,
esperava-se que queimasse um pouco mais fundo. [77%]






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