Entrevista: Meu General

 


Nem todas as ideias acabam no disco para o qual foram inicialmente pensadas. Algumas ficam para trás, à espera do momento certo, e foi precisamente desse movimento contínuo que nasceu A Programação Segue Dentro de Momentos. Depois de Coração Máquina, os Meu General continuaram a acumular experiências, a desenvolver caminhos deixados em aberto e a reforçar uma identidade que se vai construindo disco após disco. Dois anos depois da nossa primeira conversa, voltámos a falar com Gilberto Pinto sobre esse novo capítulo.

 

Olá, Gilberto! É um prazer voltar a receber os Meu General na Via Nocturna, depois da nossa conversa de 2024, quando Coração Máquina estava no centro das atenções. Entretanto, muita coisa aconteceu. Como estás e como se passou este período para ti e para os Meu General desde então?

Olá, é verdade...General está de volta com um trabalho novo de originais. Na verdade, acho que foi um processo normal de seguimento sobre o disco anterior. Este novo álbum traz muitas ideias que ficaram na gaveta do processo criativo do Coração Máquina e que foram desenvolvidas logo de seguida. Vivemos algumas experiências marcantes nesse período de 2024 e 2025 que fizeram com que este processo criativo para este novo disco fosse ganhando mais solidez… Tivemos nestes 2 anos dois concertos importantíssimos com os Xutos e Pontapés e que nos trouxeram alguma coesão interna que levou a um maior foco na abordagem ao processo criativo sobre o novo disco…

 

Na nossa entrevista anterior falavas de uma fase de maior maturidade do projeto e da vontade de continuar a preencher o repertório que ainda sentias faltar aos Meu General. O que aconteceu nesse período depois de Coração Máquina e em que medida esse percurso acabou por conduzir a A Programação Segue Dentro de Momentos?

É exatamente o que te dizia na resposta anterior...o processo criativo de General é como se fosse um comboio em andamento...  Existem sempre temas e formas de construção que são porreiras de revisitar... com roupagens diferentes... e ao mesmo tempo arriscar e fazer alguns temas que saiam fora do esquema habitual. Acho que continua a faltar alguma maturidade sónica e lírica… mas é a eterna coisa… que vamos descobrindo de disco para disco… Com este novo trabalho acrescentamos 9 músicas ao repertório do projeto… portanto temos mais opções de escolha para equilibrar um alinhamento e torná-lo mais coerente…

 

O novo álbum parece nascer de uma sensação de urgência. Até que ponto A Programação Segue Dentro de Momentos é também um retrato do tempo em que vivemos?

É uma sensação que se consegue ter ouvindo o disco. Não foi pensada de forma consciente, mas de facto esta urgência que a sociedade atual nos apresenta faz com que o disco soe assim...

 

O título A Programação Segue Dentro de Momentos é particularmente sugestivo. O que significa realmente esta “programação” para ti e qual foi a ideia que esteve na origem do título?

Parece que já não pensamos... parece que vamos todos para o mesmo sítio....  para as mesmas modas… para as mesmas trends... parece que nos deixamos programar por algo que está por vir.... por uma marca de telemóvel... por uma marca de carro... por uma fake news... por qualquer coisa imediata... somos sempre o que está por vir.... e o que está por vir é ditado por um poder maior que manipula as massas...

 

Em 2024 disseste-nos que o processo criativo estava muito centrado naquilo que compunhas, com o Pedro a ajudar a abrir e fechar portas em termos de estruturas e andamentos. Dois anos depois, sentes que essa metodologia se manteve ou houve uma maior participação dos restantes músicos na construção deste álbum?

O processo manteve-se praticamente o mesmo; neste disco houve uma maior abertura em algumas músicas. Houve um trabalho prévio de uma série de riffs soltos que foram o motivo para desenvolver canções.... Aliás, os 2 singles são o espelho disso… São 2 riffs que estavam numa lista bastante extensa e que foram escolhidos para se trabalhar. O Pedro neste disco apresentou uma lista de ideias que foram bastante inspiradoras… e que resultaram nos 2 singles.... Quero e Não Quero e Se Esperas...

 

No Coração Máquina, o Nuno Senra tinha assumido o baixo e falavas dele como uma peça central no equilíbrio musical e humano do projeto. Agora és também tu a assumir o baixo. Como surgiu essa mudança e o que trouxe essa acumulação de funções à forma como pensaste e construíste estas novas canções?

Sim... o Nuno foi e é uma peça central aqui no Ecossistema General... o facto de ter sido eu a assumir o baixo no disco foi mais uma questão de timing e não de opção musical. Aliás, no trabalho de General, o Nuno certamente estará ao leme do baixo... Como componho as músicas e sou muito rápido a desenvolver as ideias, o baixo é só mais uma parte do puzzle. É evidente que não penso como baixista, o que faz com que as músicas possam perder um pouco dessa valência, mas foi assim que foi dirigido e nunca foi muito pensado… e muito elaborado....


O João Cabeleira volta a marcar presença, desta vez em Se Esperas. Depois da experiência de A Vida Está Lá Fora, de Coração Máquina, a colaboração parece ter adquirido uma dimensão natural. Como nasceu esta nova participação e o que procuravas especificamente da guitarra do João neste tema?

A presença do João foi uma forma de podermos repetir a experiência que foi maravilhosa... Entre mim e o João ficou uma amizade grande que, sempre que podemos, estamos a falar de música... e sempre que podemos inventamos sempre qualquer coisa para podermos estar juntos. A banda gosta muito quando o João está connosco. Sentimo-nos muito orgulhosos de poder ter um amigo que gosta de nós e que nos defende como ninguém. Este disco tinha uma música altamente rock n’ roll. Um dos tais riffs que o Pedro apresentou e eu desenvolvi e em conversa com o João Cabeleira, disse que podíamos repetir a experiência e foi assim naturalmente. Connosco é tudo muito natural, sem stress, com muito boa onda....

 

Também encontramos Afonso Ribeiro na bateria em dois temas. O que determinou a sua participação?

O Afonso já tinha tocado connosco e regressou agora à bateria de General. A gravação deste disco aconteceu de forma natural e foi sendo feita mediante a disponibilidade de cada um. O Afonso gravou mais temas, mas que não chegaram à versão final do cd, portanto, aparecem estes dois…

 

Como é que a presença de músicos diferentes em determinadas faixas contribuiu para a identidade sonora do álbum?

Cada pessoa traz a seu cunho para as músicas em que participa… é inevitável. É sempre a interpretação de cada um do que sente e do que toca, mesmo que o arranjo seja discutido e ensaiado. A personalidade de cada um fica registada no modo como se relaciona com o instrumento e com a própria música.

 

Quando pensas no álbum como um todo, que sensação gostarias que ficasse no ouvinte depois da última faixa?

Cada pessoa interpretará o disco de forma diferente, mas era interessante que ficassem com a sensação de verdade e de uma coerência musical que vem dos discos anteriores.

 

Consideras que este novo álbum é, mais do que os anteriores, um disco que só fica verdadeiramente completo quando é levado para o palco?

Todos os discos são obras que ficam cristalizadas num suporte e que datam um período de trabalho. Mas as músicas permanecem vivas cada vez que as replicamos ao vivo. Ou seja elas vão crescer e tornar-se adultas à medida que forem tocadas e encaradas por pessoas e mesmo por nós.

 

Já agora, como estás a preparar a ida para o palco e que expectativas tens para os próximos concertos?

Já fizemos o concerto de apresentação deste disco no Arda Recorders com a participação do nosso amigo João Cabeleira e pudemos ter a noção exata de como este disco se encaixa na perfeição na discografia de General. Temos ideias concretas de como iremos encarar os próximos concertos e estamos a trabalhar arduamente para que possamos crescer passo a passo. Vamos ver o que vem a seguir.

 

Para terminar, que mensagem gostarias de deixar aos leitores da Via Nocturna e a todos aqueles que continuam desse lado a acompanhar os Meu General?

Gostaria de agradecer o apoio de muita gente que nos segue ao longo destes anos, que está lá nos momentos difíceis e que diz presente sempre que inventamos uma coisa nova para apresentar. E agradecer o apoio também da Via Nocturna por nos dar oportunidade de falarmos sempre sobre a vida e futuro de MEU GENERAL.

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