sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Entrevista com In Peccatvm

Sendo esta a primeira vez que conversamos, gostaria que nos fizessem uma breve resenha histórica dos In Peccatum.
Os In Peccatum surgiram em 1998, fruto da vontade do Almeida em criar uma banda de heavy metal. Começamos sem um rumo musical definido e a nossa primeira demo In Beauty é espelho dessa situação. A nossa segunda demo Just Like Tears…, lançada um ano depois, já apresenta a banda com a sonoridade que a define presentemente, um doom/ gothic metal. A entrada de um teclista na altura ajudou também a definir a direcção musical a seguir. Em 2002 editamos o nosso E.P Antília e este trabalho ajudou a colocar o nosso nome no panorama underground regional e nacional. Entre 2002 e 2006 andamos um bocado em banho maria devido às nossas vidas profissionais, que impediram alguns dos nossos elementos de viver permanentemente em S. Miguel, o que fez com que nesses anos aparecêssemos muito pouco ao vivo. Isto condicionou também o lançamento de novos registos, como se nota pelos 7 anos de intervalo entre o Antília e o MDLXIII. Felizmente desde 2006 e com a entrada do Spell (teclas) e do Oliveira (bateria) a banda reuniu todas as condições para trabalhar regularmente.

Vocês podem ser considerados como um dos nomes mais importantes da cena açoriana. Nesta conformidade sentem que tem responsabilidade no surgimento de novos colectivos no arquipélago?
Não nos consideramos um dos nomes mais importantes da cena açoriana, mas de tudo faremos para estarmos por cá mais uns valentes anos. Acima de tudo queremos que as pessoas olhem para nós como um exemplo de persistência e de luta pela nossa causa. A termos alguma responsabilidade no surgimento de novos projectos, que a causa seja esta.

Apesar de existirem há mais de dez anos, a vossa produção não têm sido muito intensa. Preferem apostar na qualidade em detrimento da quantidade?
Tal como referi acima, o facto de termos apenas duas demos e dois EP's deveu-se sobretudo às nossas vidas profissionais, que nos impediram de trabalhar com a regularidade pretendida. Se repararem nas nossas entrevistas desde 2003, mencionávamos sempre que um próximo registo sairia em breve. Tal não aconteceu, e o sucessor do Antíla apenas veio cá para fora 7 anos depois. Este disco deveria ter saído há uns anos atrás. De qualquer forma, sem dúvida que preferimos apostar na qualidade em vez da quantidade. O MDLXIII marca o fim da fase das demos e EP's, o que faz com que o próximo passo a dar seja a edição de um álbum. Temos planos de o ter cá fora no máximo dentro de 2 anos, mas se for preciso mais tempo para ter um produto de qualidade, é certo que levará o tempo que for preciso.

Ainda assim, com a qualidade que tem demonstrado, acreditam que o factor insularidade tem algum peso nesse aspecto?
Nós sempre encaramos a insularidade como um factor positivo na nossa promoção. É certo que traz muitos inconvenientes, mas tentamos aproveitar aquilo de bom que ela nos proporciona. Exemplo disto é explorar nos nossos trabalhos realidades que nos são próximas e fazer disto algo que nos distinga dos demais. No Antília abordamos as Lendas das Sete Cidades (para quem não conhece, são umas lagoas na ilha de S. Miguel) e no MDLXIII abordamos a erupção vulcânica de 1563 que destruiu parte da nossa ilha.

Os In Peccatum nunca ponderaram a hipótese de rumar ao continente ou aos Estados Unidos, afinal destino de tanta gente açoriana?
Quanto aos Estados Unidos, foi coisa que nunca nos passou pelos pensamentos, visto que os americanos não são muito interessados em doom/ gothic, como constatamos pelas reviews que recebemos dos media de lá, aquando da promoção do Antília. Rumar ao continente faz parte dos nossos planos, mas apenas para dar concertos. Gostamos todos de viver nos Açores.


Em relação ao EP MDLXIII, vocês voltam a demonstrar uma capacidade invulgar de pesquisa e recolha de elementos históricos. Essa tem sido uma aposta ganha?
Sem dúvida. Queremos fazer deste tipo de recolha uma imagem de marca dos In Peccatum. Explorar lírica e musicalmente elementos açorianos é algo que iremos fazer sempre que possível, por forma a termos algo que nos distinga de outras bandas. Podemos adiantar que os temas novos que andamos a escrever para o nosso próximo trabalho, que será finalmente um longa duração, serão sobre algo intimamente ligado com o ser açoriano.

Em dois temas têm convidados (Ana Rochate e Zeca Madeiros) para as declamações das narrações de Gaspar Frutuoso. Foi vossa intenção, desde o início, que essas narrações fossem protagonizadas por gente exterior à banda?
Em relação ao Zeca Medeiros foi uma escolha natural, pois quando escrevemos o tema Difusas Sombras e surgiu a narração inicial, lembramo-nos logo da voz cavernosa e peculiar dele. Dissemos logo que um dia que gravássemos a música, tinha de ser ele a declamar o poema. Como é um artista por quem temos um grande respeito e admiração foi fantástico tê-lo a participar no nosso disco. Por sua vez, a Ana Rochate já tinha colaborado connosco num concerto unplugged que demos em 2006 na Antena 1 da RDP-Açores, portanto foi a primeira escolha quando nos lembramos de uma voz feminina para o efeito.


Os créditos do EP referem a utilização de uma guitarra açoriana. Quais as principais características deste instrumento e em que difere, por exemplo, da guitarra portuguesa?
A Viola da Terra é um instrumento típico dos Açores e está presente em todas as suas ilhas, variando na sua afinação, número de cordas, encordoamento e dedilhação. É um instrumento com um corpo em 8 (tipo violão), com 12 cordas, dispostas em cinco parcelas, sendo as três primeiras duplas e as duas seguintes triplas. Outra característica marcante é a boca ser normalmente em forma de dois corações (virados com a ponta para fora). Já a tínhamos utilizado no Antília e agora tinha novamente de fazer parte deste trabalho. É mais uma marca de açorianidade que incutimos na nossa sonoridade. Ainda que não tenha um papel de grande destaque, sabemos que ela está lá.


Que significado teve para os In Peccatum a atribuição do prémio Melhor Álbum 2009 nos Metalicidio Awards?
Foi acima de tudo uma grande surpresa, pois o disco tinha saído apenas um mês antes. O site Metalicidio é um dos principais meios de apoio ao metal regional, daí que tenhamos ficado satisfeitos com o galardão.

Em termos de promoção a MDLXIII, como estão a ser preparadas as apresentações ao vivo?
Temos planos este ano para fazer uns dois ou três concertos no continente com mais duas bandas daí. Já há conversações feitas, portanto resta-nos esperar. Se não for em 2010, será em 2011. É um dos nossos objectivos próximos. Por cá, desde que lançamos o disco ainda não aparecemos ao vivo, mas decerto oportunidades não irão faltar. Para já, encontramo-nos a trabalhar em novos temas, tendo em vista a edição do
álbum.

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