sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Entrevista - Factory Of Dreams

Hugo Flores é já um nome incontornável da cena metálica nacional. Se os excelentes álbuns com Project: Creation já tinham deixado antever isso, não restam dúvidas que foi com Factory Of Dreams que o músico conseguiu por cá fora toda a sua capacidade criativa. Melotronical é já o terceiro disco deste projeto em parceria com Jessica Lehto e representa a melhor proposta saída da mente imaginativa de Flores. A evolução é notória como o próprio músico também atesta.

Este é já o terceiro álbum para o projeto Factory Of Dreams. Pode afirmar-se que encontraste a estabilidade criativa e a tua identidade?
Tem sido extremamente aliciante e estimulante criar música no âmbito deste projeto, sem dúvida alguma, e inspiração não tem faltado! Mas nenhum álbum que eu produza é igual e eu escrevo ao sabor do momento, por isso julgo que essa ‘estabilidade’ já terá começado com Project Creation sendo cimentada agora com este potente Melotronical que para mim é o culminar de anos de trabalho sendo o meu álbum favorito. Mas de facto estou muito à vontade com Factory of Dreams e é para continuar em força, sem descurar o meu Project Creation no qual também já estou a trabalhar na sonoridade para o terceiro álbum. São projetos diferentes, com Factory pretendo prosseguir o som do Melotronical e com Creation a intenção será explorar sons mais progressistas incluindo instrumentos diversos e mais étnicos, mantendo o estilo dos dois primeiros cds. No entanto, tanto um projeto como o outro serão alvo de um som mais agressivo, e no caso de Factory, este Melotronical é a prova disso. E tenho de admitir que Factory deu um novo fôlego à minha música.

E pode afirmar-se que entre ti e a Jessica a química continua bem patente…
Sim, funcionamos bem e ela é 5 estrelas. Muito criativa e prestável e a forma como se adapta às músicas, e como eu também por vezes escrevo músicas à medida dela, é de facto prova do que dizes. Este Melotronical é mesmo…como hei de dizer, na tua review escreveste radioativo e é mesmo isso, radioativo, incandescente e potente nas vibrações que transmite. É um álbum difícil de superar muito sinceramente, pois tem tudo, melodia, ritmo, alterações de ritmo, agressividade contrabalançada com suavidade, e a Jessica ao rubro a atingir patamares complexos de atingir com esse belo instrumento que é a sua voz.

Nesse ponto, ainda pensas em reativar alguns dos outros teus projetos, nomeadamente, Project: Creation? Até porque em 2008 dizias-me que tanto FoD como Project: Creation tinham a mesma prioridade.
No final, tenho sempre de optar por um deles, mas a verdade é que Melotronical assumiu um som que me prendeu completamente, e tive mesmo de deixar Creation para trás por um tempinho, mas de vez em quando lá ia compondo coisas. Também tinha de recarregar baterias para me lançar no 3º Creation e que fará a conclusão da trilogia e tem de terminar em beleza. Mas agora estou a compor já este terceiro Creation e ao mesmo tempo mais músicas para Factory. Para já estou focado numa única faixa de Creation e a determinar qual o melhor som, quais as guitarras e amps a usar, enfim, quero ir devagar para fazer bem!

Ouvindo este teu novo trabalho, mantemos a sensação que os três álbuns de FoD são todos distintos. Como consegues manter esses níveis?
Eu não sigo fórmulas, faço mesmo o que na altura me apetece e quando a criatividade não tem limites, tudo é possível. Mas estou de tal forma contente com Melotronical, que desta vez, e por uma única vez, estou convicto em seguir a sonoridade do Melotronical para um 4º álbum. É que muitas faixas ficaram por gravar, enfim 13 faixas eram mais do que suficientes para a história que queria contar neste cd. Assim, terei futuramente outras 13 faixas a gravar para um 4º cd. Os temas abordados também são diferentes entre os álbuns. Para este Melotronical, impunha-se algo trónico, uma espécie de Cybermetal, e assim foi. Protões, eletrões, som Cybermetal, potente e por vezes duro com ritmos fortíssimos com double kickdrum muito presente e ritmos mecânicos e frenéticos, por vezes a atingir patamares de tal forma loucos que desafiam qualquer ritmo.

Realmente, este é, na minha opinião, o mais poderoso e forte de todos. Tens vindo numa espiral crescente de agressividade. Até onde pensas chegar?
Pois, também já pensei nisso (risos)! Mas acho que dificilmente farei algo mais pesado do que Melotronical, senão terei mesmo de criar um 3º projeto para não sair demasiado do género. Gosto desta onda, e, como te disse, um 4ª álbum terá um som semelhante ao de Melotronical. Será mais agressivo? Mais suave? Não sei... as ideias que tenho em papel dão-me ideia que será muito idêntico em termos de agressividade ao Melotronical, mas o caminho até lá ainda é longo, e como disse, faço o que no momento me dá na real gana, portanto vamos ver.

Mas a diferença mais notória será a inclusão de vozes masculinas. São todas tuas ou tens algum convidado? E qual foi o objetivo da sua inclusão?
Sim, as performances de vocais masculinos são todas minhas. Algumas partes são como que uma diálogo, cujas letras foram desenhadas para serem interpretadas por um homem e uma mulher. Daí esta necessidade e a necessidade de contar uma história. Repara na Whispering Eyes onde existe exatamente esse diálogo, ou na Protonic Stream. Outras vezes eu ou a Jessica assumimos o 'papel principal' sendo que o outro faz de narrador, depende das faixas. Acresce o facto de algumas partes serem de tal forma brutais que a minha voz assentava muito bem, tendo por objetivo realçar esse nível de agressividade. Eu próprio fiz questão de cantar tudo de uma forma expressiva e por vezes inquieta ou meio em transe, julgo que ficou bem patente. Só fiquei descansado quando tinha tudo a meu gosto e com a força necessária.

E em termos de conceito. O que é abordado desta vez?
Evolução de uma molécula eletrónica até se tornar num ser vivo capaz de criar e de destruir a sua própria dimensão, mas que só se apercebe dos seus poderes no final do álbum, ou quase… Percorrem-se vários estágios da vida deste ser, que experiencia a beleza da vida, mas cedo se apercebe que vive numa prisão da qual tem de escapar. Uma espiral infinita. No fundo peguei num tema cibernético e atómico de ficção científica, como bem gosto, para descrever o que se passa na nossa Terra e nos problemas que todos sentimos dia a dia. A necessidade de escapar, de fugir, de controlar as nossas vidas, de melhorar ou moldar o mundo à nossa imagem...já podes ver onde quero chegar.

As reviews têm sido extremamente positivas e chegaste a número 1 na Global Gothic Chart. Como estás a viver este momento?
Estou contente, percebo que este álbum excede qualquer expectativa e isso é muito gratificante. A cena da Global Gothic for uma surpresa, não fazia ideia que poderíamos ficar em primeiro lugar, tendo bandas como Within Tempation e Sirenia a 'competir'. Back To Sleep é a faixa que ficou em número um...boa escolha e ainda vamos ver mais desta faixa proximamente.

O álbum inclui uma remake de um tema antigo Something Calling Me. Algum motivo em especial?
Sim, adoro a melodia desta faixa, e na original era eu que cantava. Atualmente a voz da Jessica adapta-se bem a esta faixa além de que a letra e o tema encaixa na história que estou a contar com Melotronical. O tema é a morte, é o deixar este Mundo, partir para outro sítio. No fundo no caso da história há uma necessidade interior desse Ser em fugir, e ele próprio cria o seu novo mundo e vai-se embora... É uma música mais suave, cujo refrão eu pessoalmente adoro, e tinha mesmo de ouvir a Jessica a interpretá-la. Sabia que ficaria excelente neste álbum!

Como foi o trabalho de composição desta vez? Voltou a estar tudo concentrado em ti?
Sim, a 100% mesmo, porque desta vez não havia qualquer espaço para convidados. Algumas pessoas com que trabalho habitualmente ainda me perguntaram se havia um spot para entrarem, mas por mais gosto que tivesse nisso, seria só 'encher' o álbum e isso não queria mesmo. A música já estava muito produzida e muito densa. No entanto para os vocais, e como já referi, a Jessica é responsável por quase todas as harmonias vocais femininas, e mesmo algumas masculinas, pois eu tive de a acompanhar em algumas secções, especialmente nos duetos com ela. Esta parte foi sobretudo centrada na Jessica.

E para as gravações, tu a Jessica voltaram a trabalhar em separado, ou desta vez foi diferente?
As gravações propriamente ditas foram feitas em estúdios separados, mas íamos falando regularmente como habitualmente, para eu ouvir as gravações dela ou os ensaios, dar opiniões etc… Trabalhamos muito bem assim. Muito obrigado pela entrevista, um prazer como sempre. Para mais info ver os nossos sites oficiais:

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

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