quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Review - Música Para os Mortos (La Chanson Noir)

Música Para os Mortos (La Chanson Noire)
(2010, Raging Planet et al.)

Oh mar salgado, quanto do teu sal são garrafas de rosé de Portugal. Este verso retirado de Oceano Cor de Rosa ajuda a explicar um pouco o sentimento decadente, sarcástico e mordaz com que os La Chanson Noire nos presenteiam no seu primeiro longa duração. Charles Sangnoir é o principal mentor deste sinistro, artístico, decadente, extravagante e libertino projeto e é um músico experiente que desde 1992 estuda e compõe música, tendo integrado a orquestra de percussão Tocá Rufar e a Escola Profissional de Música de Almada. Foi, também, fundador da netlabel Necrosymphonic Entertainment e participou como compositor e músico integrante de vários projetos desde a música ética ao metal. Em termos de gravações, lançou Canções de Faca e Alguidar (em formato K7, 2007), Gay Music For Straight People (split-CD, em 2008) e O Bordel de Lúcifer (vinil) apresentando agora, sob a denominação de Música Para os Mortos, o seu CD de estreia. Aqui conta com a participação de Phil Mendrix (Ena Pá 2000), Mário Santos (Fausto), The Beyonder (Namek) ou Aires Ferreira, no spoken word. Estilisticamente Música Para os Mortos não obedece a nenhuma regra nem se consegue situar em nenhum campo específico. E é isso que o torna tão excitante. Mas para o georeferenciar, sempre poderemos ir adiantando que se situa num ponto de confluência entre a acidez das palavras de uns Mão Morta, os registos vocais de uns Muse, a abrangência artística e o dramatismo de uns Neonirico e o progressivo suave de uns Phideaux. Em resumo, ainda podemos afirmar que se trata de uma ligação tão estranha como bem sucedida entre a música tradicional e a atitude punk. Musicalmente, Música Para os Mortos vive muito das soberbas linhas de piano muito imaginativas e que tanto nos acariciam como nos agridem, que tanto se influencia no blues como na música contemporânea. O álbum é cantado em três línguas diferentes, mas os cenários de decadência estão omnipresentes. Caixão à Cova, a faixa de abertura serve para agarrar desde logo o ouvinte, viciando-o na sonoridade LCN para logo a seguir, em Uma Canção Decente, se atingir um dos pontos mais altos do disco com uma fusão perfeita entre o spoken word de Aires Ferreira, o soberbo solo de piano e a percussão tradicional portuguesa. À terceira faixa, o coletivo visita o Brasil e introduz o samba e a bossa nova, para em Esquizofrénico criar outros dos mais brilhantes momentos do álbum, numa aproximação da genialidade Muse. The King Of Whores é o primeiro tema cantado em inglês, assumindo-se como a faixa mais rápida, mas, ainda assim, com uma sensibilidade britpop assinalável, referência a nomes como The Smiths e afins. Loneliness Is A Common Word é, quanto a nós o mais genial tema de Música Para os Mortos. Aqui a melancolia surpreende num tema com um piano e um solo de guitarra (cortesia de Phil Mendrix dos Ena Pá 2000) verdadeiramente indescritíveis. E quando se pensa que não há mais nada que nos possa surpreender, Sangnoir arranca uma faixa como Raio de Aventura onde os pa-pa-ra-pa-pa do refrão são de uma infantilidade e ingenuidade atroz e completamente desarmante. Depois de tanta emoção vivida sob a forma de canções, o disco fecha de forma curta, suave e elegante com Azabel. Para quem aprecia sonoridades alternativas e nem sempre pesadas, La Chanson Noire acaba de apresentar o álbum perfeito. Um álbum cheio de emotividade, fantasia, decadência e excentricidade. Acima de tudo canções que devem ser para todos e não apenas para os… mortos!

Tracklisting:
1. Caixão à Cova
2. Uma Canção Decente
3. Carnaval no Cadafalso
4. Esquizofrénico
5. O Meu Amor Tem a Força de Uma G3
6. The King Of Whores
7. Loneliness Is A Common Word
8. Menage a Trois
9. Oceano Cor de Rosa
10. Quand Toutes Les Putes Sont Mortes
11. Raio de Aventura
12. Sedução Contemporânea
13. Azabel

Lineup:
Charles Sangnoir – voz, piano, guitarras, farfise, harmónica e samples
Aires Ferreira – spoken Word em Uma Canção Decente
José Espírito Santo - Guitarra solo em Caixão à Cova
Pat Vanity – voz em Menage a Trois e Raio de Aventura
Mário santos – bateria e percussão popular portuguesa
Pedro Santos – bateria e percussão popular portuguesa
Phil Mendrix – guitarra solo em Loneliness is A Common Word
Tânia Simões – violin
The Beyonder - harmónica

Internet:

Edição: Raging Planet, Helloutro Enterprises, Chaosphere Recordings, Raising Legends, Necrosymphonic Entertainment

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

Sem comentários: