segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Entrevista: MULHERHOMEM

O panorama alternativo nacional foi abalado por esse furacão musical que dá pelo estranho nome de Mulherhomem. Um trio sem baixista que se estreia na forma do enigmático e caótico Novecentos. Via Noturna quis conhecer melhor esta entidade e foi conversar com os três Manueis (Ramos, Ribeiro e Ferreira) que constituem os Mulherhomem.

Como surgiram os MULHERHOMEM?
Surgiram das cinzas de um projeto musical anterior. O Ramos e o Ribeiro continuaram a fazer jams juntos e as músicas foram surgindo natural e repetidamente. Pouco depois o Ferreira foi participando nos ensaios e acabou por entrar para a banda também naturalmente.

Quais as principais áreas artísticas e nomes que mais influenciaram a génese dos MULHERHOMEM e a criação de Novecentos?
A génese de MULHERHOMEM, mais do que baseada em áreas artísticas ou nomes que nos influenciem, veio mais da vontade de ir tocando e do que saía no momento...

Quanto a este álbum, porquê Novecentos?
A razão pela qual o álbum acaba por se chamar de Novecentos ainda é um pouco misteriosa para nós. O número reflete, numa primeira abordagem, uma quase despreocupação, uma abstração que no mundo da cultura onde tudo deve significar algo quase que magoa ou inflige injúria. Se dissermos que nada quer dizer, que é apenas um número lançado ao ar – como ligeiramente se costuma falar – aposto que na audição do disco, ou na dissecação da capa e contracapa e nas letras em si se encontrarão respostas. Não faz mal, assim somos nós, inquietos curiosos, insatisfeitos pela ausência e frágeis no vazio da razão. Mas se por outro lado, te disséssemos que 900 (novecentos) quer dizer para nós, uma ligação geracional ao século XX que nos acompanhou vivamente nas grandes alterações da sociedade que hoje vivemos, pois se pensarmos que há 100 aos atrás a locomoção humana era de tração animal e completamos mil e NOVECENTOS com o homem na lua, era digital, internet etc etc é uma percentagem avassaladora face aos milhares de anos de evolução. Mas se se explicar que é isto, cai um manto de pretensiosismo que não nos serve e não nos revemos, por mais sentido que possa fazer. O sentido das coisas, aos outros cabe dar, o dom da interpretação é a marca fulcral da curiosidade e é nessa que nos distinguimos e nadamos como um peixe veloz. Por isso mais vale dizer que é segredo, e que na intimidade do disco, haja uma oportunidade de num estranho momento te segredarmos a verdadeira razão de se chamar assim.

Um dos aspetos que mais salta à vista é a superior qualidade lírica. Quem é o responsável por esse setor e de onde vem a inspiração?
Antes de mais agradecemos o elogio. Sem dúvida é algo que nos deixa orgulhosos pensar que marcamos uma posição de qualidade face a algo. Coloca-nos verdadeiramente um sorriso na cara. Mas respondendo, a essa devemos a todos, até porque na pergunta se encerra sempre a melhor resposta, porque a criação de um momento, musicalmente falando, passa por uma espécie de transe, algo inimitável e intangível visto que se trata de uma mistura de sons, posturas, ditos e descritos que se confundem numa sala com pessoas tão diferentes. A letra acompanha o que o som nos diz e neste álbum o que dizemos confunde-se com o que fazemos soar. A inspiração vem de dentro, somos uma pequena caixa negra, que nela encerra os sussurros dos desastres diários.

Para além disso, não tem baixista. Aparentemente, nem precisam…
Tudo começou com dois instrumentos. Com o passar do tempo e à medida que as músicas iam sendo construídas apercebemo-nos que estávamos muito satisfeitos com o que tínhamos criado. Mais importante do que não termos baixista ou outro instrumento qualquer é o facto de fazermos música que realmente gostamos e isso é o que importa.

Assim, como definiriam Novecentos?
Uma refeição preparada a horas tardias, que na urgência da fome foi pensada como algo rápido, mas que num determinado momento demos conta que já estávamos a cozer coisas, a descascar outras a elaborar e a fantasiar face à simplicidade do objetivo. É um disco por isso que compreendemos que não se devore todo, mas que ao mesmo tempo apazigua a fome não esquecida de se engolir o que se fez, por isso guardamos um pouco dele para a refeição do dia seguinte. É um disco de sobras, pedaços de nós e de outros que ficam soberbamente bem juntos. Que causa algum desconforto, alguma náusea mas suportável porque sabemos que estamos a subir de altitude. Que induz a insistência da interrogação, que confunde porque parece que responde e não responde. É fugaz e evasivo mesmo no momento em que parece que compreendemos. E finalmente, o que torna para nós MULHERHOMEM, brilhante, é a possibilidade imensa de não ser nada disto, de ser apenas um álbum de rock em português que acima de tudo nos faz pessoalmente orgulhosos de o ter criado.

Já foram apelidados da banda mais pesada do MAR. Como se vêm nesse papel?
É totalmente indiferente que MULHERHOMEM seja a banda mais pesada do Movimento Alternativo Rock. Não nos torna nem melhores nem piores que os outros projetos porque todos têm o seu som e trilham o seu caminho independentemente do que as outras bandas fazem.

Do Semente foi o tema escolhido para primeiro single. Que critérios vos nortearam na escolha deste tema?
Era o tema que a maior parte dos amigos a quem mostrávamos o álbum escolhia para uma primeira amostra ao público. Consegue conjugar várias facetas de MULHERHOMEM e portanto achámos que causaria uma boa primeira impressão.

Apesar do álbum se chamar Novecentos, no alinhamento existe um tema que é o Oitentaeoito. De onde vem esta tendência para a matemática?
Não passa de uma coincidência. Nem tínhamos dado conta dessa ligação aos números… Aproveitamos para salientar que temos mais duas músicas que envolvem algarismos: FP 232 e Procrastinador Nº1.

Sim, é verdade. E quanto a concertos, como estamos?
Bem, mas nunca totalmente satisfeitos. É esta a receita para desejar o futuro. Começamos o ano com o pé esquerdo, que na ótica de MULHERHOMEM é perfeito, tocámos no Metro da Baixa-Chiado PTBlueStation numa Sexta-feira 13, que foi uma experiencia muito boa e com excelentes resultados, ao abrigo das atividades do MAR desse mês. E o que agora se avizinha é uma atuação em direto de dois temas mais entrevista na SWTMN com transmissão em direto via rádio e com live streaming na net, no dia 22 de fevereiro a partir das 22h com mais 3 bandas do MAR, Matilha, Nervo e O Quarto Fantasma. Depois vamos tocar na MusicBOX dia 1 de março no lançamento da editora do MAR e temos mais um em vista também para março na Timilia das meias no Montijo. Queremos mais, o palco é a nossa casa. Sabem onde nos encontrar?

A terminar, existe algum requisito para se tocar nos MULHERHOMEM que diga que tem que se chamar Manuel? (risos)
Agora já só há vagas para Marias…

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