segunda-feira, 23 de julho de 2012

Entrevista: The Happy Mothers


Do Porto chega-nos mais uma banda que com uma maturidade assinalável cruza o southern rock com o rock clássico. No fundo, simplesmente rock, como afirmam Pedro Adriano Carlos (voz e guitarra) e Miguel Martins (guitarra e coros) numa entrevista onde de aberta e descomprometida falam do seu projeto e fazem as suas projeções.

Podem contar-nos um pouco da origem e da história até à data dos The Happy Mothers?
Pedro Adriano Carlos (PAC): Eu e o Miguel andamos nisto há 13 anos, crescemos enquanto músicos a tocar sempre juntos. Quando começou a ficar definido quem somos e o que queremos fazer decidimos criar os The Happy Mothers em 2008. Quando se é miúdo e se está a começar na música, é natural andar a saltar de banda em banda. Nós por acaso estivemos sempre lado a lado, assistimos ao crescimento um do outro enquanto pessoas, acabamos por ter muito em comum, acabamos por partilhar o mesmo sentimento pela vida, e isso faz com que a identidade dos The Happy Mothers tenha a força que tem. Andámos durante anos a tentar arranjar músicos que se enquadrassem bem conosco, que nos fizessem sentir que somos um gang, até chegar o Pedro Santos (baixista) e o André Mariano (baterista).   

Miguel Martins (MM)- Os The Happy Mothers são uma entidade criada por mim e pelo Pedro. O nome em si surgiu em 2008, de uma interpretação daquilo que tinhamos vindo a fazer, uma ideia dada pelo Pai do Pedro, que é um grande e muito interessante Poeta e Adacémico Português. Desde então, sempre nos mativemos mais no meio underground da música Rock nacional - lançamos um LP, o qual eu produzi, gravei e misturei, no ano de 2010, e, depois de o Pedro e o André se juntarem a nós, fizemos um pequeno tour um pouco por todo o país até 2011. Em Novembro do mesmo ano, unimos esforços com o meu grande amigo, excelente músico e produtor André Indiana e gravámos os 2 singles que acabamos de lançar, So Sick e Spacetrip. Agora, acabámos de planear o nosso futuro, e estamos a levar esse plano em frente.

Que nomes ou correntes musicais vocês apontam como sendo as vossas maiores influências?
PAC: Rock acima de tudo. Nós comentamos sempre, por exemplo, o facto do Axl Rose ser um maluco e não ter noção do que anda a fazer recentemente. Mas se formos ouvir Guns de 1987, ele é real, genuíno, sem barreiras, a cantar! Ou seja, atrai-nos tudo o que é genuíno. Pode ser blues, bossa-nova… se nos arrepia no momento em que ouvimos, já está a influenciar o corpo e a mente.

MM: Eu podia desenvolver esta questão exaustivamente - mas, para nós, estou certo que se trata apenas de Rock n’ Roll - canções executadas e interpretadas de um modo livre em forma, em espírito, sem Rock n’ Roll regras. Pureza, beleza, liberdade. O mundo mais profundo e espiritual de todos - eu acredito que um bom concerto de Rock é muito mais profundo, livre, espiritual, um momento de maior comunhão entre as pessoas do que qualquer outra cerimónia.

Qual é o background musical dos elementos que constituem os The Happy Mothers?
MM: Essa é uma boa pergunta, pois para uma banda de Rock, temos os mais variados backgrounds musicais. O Pedro Carlos lançou em 2011 um álbum a solo, Loaded Dice - é uma questão de pesquisarem e ouvirem para verem do que se trata; eu colaborei com o André Indiana e com a Mónica Ferraz no tour que fizeram em conjunto, o Love Tour, entre 2010 e 2011, para além de ter feito engenharia de som em vários discos do panorama nacional durante os mesmos anos; o Pedro Santos toca baixo com o Miguel Araújo (vocalista dos Azeitonas), por vezes com os Azeitonas, com os Touro e também com a Cristina Massena; o André Mariano, para além de sempre ter sido o baterista dos recentemente extintos Slow Motion Beeer Walk, agora toca guitarra Portuguesa com o grupo de fado Dona Gi.

PAC: Eu toquei guitarra com os Slow Motion Beer Walk numa fase recente, e até foi aí que comecei a tocar com o André, até o termos convidado para se juntar aos The Happy Mothers para a tour do Psycho In Lust. Acho que se um músico quer estar envolvido em muitos projetos acaba por não dar 100% a um único projeto. Se viveres de corpo e alma entregues ao teu projeto, a probabilidade de teres êxito é maior, sem dúvida! Mas é bom colaborar com outros músicos, lidar e aceitar outras visões em relação à música, e nós termos feito outras coisas para além de The Happy Mothers ajudou a que eu e o Miguel nos entendessemos cada vez melhor na parte da composição e escrita levou a que se abrisse mais espaço para a crítica, para retificar o que está menos bom, e elogiar o que está de facto, bom.

Qual o significado do vosso nome?
PAC: O nome em si é irónico. Para explicar de uma forma prática, numa das perspectivas mais básicas: uma Mãe sente-se realizada quando é Mãe, e isso faz parte da Natureza, mas depois as suas atenções e preocupações viram-se completamente para a sua “cria”. E a “cria”, a criança, é egoísta, procura sempre satisfazer as suas necessidades, porque ainda não está educada, o seu instinto mais básico é pensar em si própria em primeiro lugar. Isso pode servir de metáfora para tudo. A questão da liberdade enquanto ser-humano, o libertar da mente, respeitar tudo e todos, respeitar o mundo como é, mas nunca seres como o mundo quer que tu sejas. Os The Happy Mothers têm essa convicção!

MM: Eu sei que o Pedro sempre teve uma interpretação um pouco diferente da minha, mas para mim, “The Happy Mothers” sempre representou uma metáfora ao nosso trabalho - enquanto artistas, somos os criadores, as “Mães” e “Pais” das nossa obras, e tal com Pais, passamos por uma grande pressão, e precisamos de uma imensa coragem em “criar” e “lançar” algo às mãos inconstantes do mundo. Não sabemos em que é que a nossa obra se vai tornar, não sabemos como o mundo a vai moldar, a vai aceitar, aleijar, modificar... sabemos que qualquer obra de arte, qualquer música é uma entidade vida, a qual apenas “parimos”, mas que, apesar disso, teremos que continuar a “amamentar” e a tentar desenvolvê-la e expandi-la.

PAC: Eu acho que a interpretação varia sempre de pessoa para pessoa, mas se formos a ver, vamos sempre de encontro ao mesmo ponto quando explicamos o significado deste nome!

De que forma descreveriam a sonoridade praticada pela banda?
MM: Um som puro, real, sem “truques” de computador, sincero, humano, bem executado, pensado mas intuitivo, nunca programado - what you see is what you get. Um grupo de artistas que fazem o que fazem por amor, por fé, por paixão, por acreditarem que cada nota que tocam é importante, pelo menos para algumas pessoas - o que tocamos, cantamos, fazemos é real, verdadeiro e estamos certos que muita gente se identificará com aquilo que fazemos exatamente por essa razão - por ser sincero.

PAC: É muito sexual. Muito suja, no melhor dos sentidos. Sendo, ao mesmo tempo, muito clean. Há os dois lados, nunca nos cansamos porque existe dinâmica, cada música é uma história, e o que acontece naturalmente é todas as músicas serem completamente diferentes, mas sempre a soar à The Happy Mothers.

Em termos líricos que mensagem transmitem os vossos temas?
PAC: Como disse anteriormente, os The Happy Mothers têm a convicção de que cada pessoa deve viver a sua vida da forma que quer. Sabes que mais? As pessoas passaram os últimos anos a dizer-me que “ninguém pode decidir por mim”, que “ninguém vai escolher o caminho por mim”, mas estão sempre à espera que eu decida pelo caminho que elas gostavam que eu seguisse. E eu, seguindo as minhas paixões, as minhas escolhas, já acham que não estou a viver na realidade e que corro perigo. Não faz sentido! A Vida é o nosso maior risco. Liricamente, eu falo disso, tendo em conta as minhas boas e más experiências, os perigos e os excessos, o desafiar a Vida, mas a vivê-la ao mesmo tempo. De uma maneira ou de outra, as pessoas identificam-se. Se eu escrever sobre sexo, por exemplo, as pessoas vão identificar-se com isso, porque se calhar não se sentem confortáveis a falar sobre o tema, então automaticamente sentem o impacto do que eu escrevi. “Love Girl, you´re so mean/ you make my body a machine/like whores have never seen” (“Bang Bang Bang”). Não há barreiras, a beleza da arte está na espontaneidade, na sinceridade, e o material novo dos The Happy Mothers é cada vez mais verdadeiro e transcendente, lirica e musicalmente. O Miguel também começou a escrever para a banda recentemente, e tudo faz sentido, quando o que ambos escrevemos se encaixa na perfeição!

MM: Liberdade - a nossa mensagem não é necessariamente política, não é necessariamente “revolucionária” no sentido mais tradicional da palavra. Apesar de termos algumas opiniões políticas, não nos achamos - de forma humilde - donos de um conhecimento ou de uma razão “política” de forma a que pudessemos expressar, defender e “pregar” - já quanto a termos espirituais, talvez sejamos arrogantes, e temos uma fé enorme que as pessoas, em geral, devem ouvir-nos, entender-nos. Somos uma entidade artística totalmente livre, independente, formada, culta, ateísta, nihilista ao mesmo tempo que profundamente desesperada em partilhar aquilo em que acredita - crenças que existem só até certo ponto desta realidade, o que torna tudo isto um pouco paradoxal. Uma entidade que tem muito para dizer, muito para inspirar, pois acreditamos que toda a sociedade considerada “desenvolvida” vive desligada daquilo que nos torna humanos, da nossa pureza, da nossa felicidade, instinto, natureza. Se ouvirem The Happy Mothers, procurem entender tudo o que fazemos - desde as músicas, às letras, às imagens, aos vídeos, às T-Shirts... sabemos que não vamos chegar a 100% do público que nos ouve - é natural.

Sei que já existe um trabalho editado, Psycho In Lust de 2010. Como sentem esse lançamento e de que forma foi a sua receção?
MM: Para quem o ouviu, a recepção foi boa. Como um lançamento underground e independente, não temos grandes dados para responder de uma forma “comum” a essa pergunta. É um disco escrito e cantado em Inglês - o que, apesar dos tempos que correm, em Portugal ainda é um desafio, e mesmo um preconceito: ainda ouço muitas vezes dizerem que música Portuguesa é cantada em Português - eu respondo que, partindo dessa premissa, a música Portuguesa ou é “pimba” ou é o Fado, pois o Rock n’ Roll de Português não tem nada! Portugal tem um carácter esquisito, eu senti o Psycho In Lust ser muito mais bem recebido pelas pessoas do mundo da música em Los Angeles do que em Portugal, e questiono, “será por ser cantado em Inglês?” Não sei ao certo, mas penso que não - penso que se trata de uma falta de conhecimento da tradição do estilo de música que fazemos. De qualquer forma, é um disco “puro”, e a maioria das pessoas que o ouviu gostou. Mas é certo que em termos “gerais” e comerciais foi um lançamento complicado devido ao carácter revolucionário e de “fora da lei” que o disco exerceu.

PAC: Foi bom termos feito esse disco, foi o que precisávamos para nos desenvolvermos enquanto profissionais. Foi mesmo um passo em frente para evoluirmos. Serviu principalmente para, posteriormente, percebermos que precisávamos de um produtor, alguém de fora, para puxar por nós. Mas é como o Miguel diz, houve uma boa recepção, é um disco bonito mas bruto, “toca no ponto fraco” das pessoas, e foi difícil perceber a aceitação, porque as pessoas podem gostar muito mas não se expressam. Eu posso ver muito porno, mas não falo sobre isso. Mas se um dia eu começar a falar, as outras pessoas sentem que também podem começar a dizer que, de facto, também vêm porno! Acho que funciona um pouco assim na música também, e em tudo no geral.

Entretanto, neste ano de 2012 já editaram dois singles. Como está a ser a sua aceitação?
MM: Em Dezembro poderemos responder melhor a esta pergunta - os singles foram editados apenas para “apimentar” a promoção que vamos fazer dos mesmos - a qual vai começar com o tour que estamos neste momento a acabar de fechar - o qual vai começar no dia 19 de outubro no Plano B, no Porto, e o qual nos irá levar a Leiria (Texas Bar dia 26 de outubro); Lisboa (2 de novembro); Coimbra (Sates dia 9 de novembro), Vila Real (20 de dezembro) e por muitos outros locais que, infelizmente, ainda não podemos anunciar. Novidades para breve!

E há perspetivas para um novo longa duração para quando?
MM: Neste momento temos decididos não só um novo longa duração (um álbum conceptual de nome The Black Sheep, o qual compusemos enquanto estive a viver em Los Angeles) bem como um EP e um outro LP... mas não me quero adiantar muito mais em relação a isto... o que posso dizer é que o The Black Sheep será um álbum semi-conceptual, para o qual eu e o Pedro já compusemos mais de 50 novas músicas. O disco terá uma mensagem forte, única, bem como um lançamento totalmente único e revolucionário. Iremos adiantar o primeiro single, bem como o nosso primeiro video-clip ainda no final deste ano.

Que objetivos traçaram, se é que o fizeram para a carreira dos The Happy Mothers?
MM: Decidimos o nosso futuro. Um LP único, o qual estamos desde já orgulhosos; os The Happy Mothers são uma entidade única, são muito mais que uma “banda” – existem e irão existir em várias formas, em várias encarnações - esperem muitos concertos, muitas músicas, muitos vídeos, muitas pinturas, esculturas, poemas, eventos, colaborações.

PAC: O que vai acontecer nós já sabemos, é como o Miguel diz, o futuro está traçado, nós agora só vamos executá-lo, vivê-lo. No fundo o intuito é esse, vivemos para a nossa arte, como dizia Charles Baudelaire “É necessário trabalhar, se não por disposição, pelo menos, por desespero”! Portanto, se existe um objectivo, é simplesmente continuar a criar em todas as formas de arte, e sobretudo, alcançar as pessoas. Citando de novo, alguém que uma vez disse “a felicidade só existe quando partilhada”. Os The Happy Mothers fazem sentido porque existem pessoas do outro lado a compreender-nos e, sabendo disso, vamos continuar por aí, a espalhar a nossa mensagem.

A fechar, querem acrescentar mais alguma coisa?
PAC/MM: Mantenham-se atentos, ouçam com calma, dêem tempo às músicas (não só as nossas, mas a todas as verdadeiras músicas). Dêem valor ao que é Português, ao que é Espanhol, ao que é Francês, Italiano, Afegão, Americano - mas dêem valor a tudo o que vos interessa... pesquisem, dêem tempo às letras, músicas, vídeos, melodias - felizmente, ainda há muita boa, real e sincera arte por este mundo fora. Façam parte disso.

Contactos:
email: info@thehappymothers.com
website: http://www.thehappymothers.com
bandcamp: http://thehappymothers.bandcamp.com/
 
Concertos Confirmados
19 de Outubro - Plano B, Porto
26 de Outubro - Texas Bar, Leiria
2 de Novembro - States Club, Coimbra
20 de Dezembro - Café Concerto, Vila Real

2 comentários:

Anónimo disse...

As datas dos concertos não estão erradas? Não batem certo com as anunciadas em http://www.thehappymothers.com

Errata: "Em
"Em termos líricos que mensagem transmitem os vossos temas?" Resposta do MM "ao mesmo tempo que porfundamente desesperada" * profundamente

Sixx Pack disse...

Hey Anónimo,

as datas foram, de facto, alteradas! Sigam-se pelo site oficial da banda!