quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Entrevista: Mehran

Com um passado ligado ao rock e ao metal, o iraniano radicado em Chicago Mehran Jalili, descobriu as potencialidades da guitarra flamenca e aventurou-se a explorar essa sonoridade. Depois de uma estreia bem recebida, Subterranea traz-nos o guitarrista rodeado de um coletivo sólido a entrar por campos de rock progressivo, mas sempre com forte base do flamenco. Via Nocturna foi descobrir um pouco mais deste virtuoso guitarrista.
 
Olá Mehran! Tudo bem contigo? Este teu segundo álbum é um pouco diferente da tua estreia. Porque decidiste, desta vez, trabalhar com uma banda completa, em vez de voltares a recorrer a músicos de sessão como aconteceu em Angels Of Persepolis?
Tudo bem por aqui, obrigado por me dares esta oportunidade para falar sobre o meu trabalho. Quando publiquei Angels Of Persepolis, eu tinha que executar ao vivo e para isso tive que arranjar músicos diferentes para me acompanhar. Passado algum tempo e depois de algumas mudanças de membros tornou-se evidente que as coisas funcionavam melhor como uma banda.
 
E como escolheste os músicos que tocam contigo em Subterranea?
O meu grupo é o mesmo grupo que gravou Subterranea. O nosso baixista, Krushanu Joseph estudou guitarra flamenca comigo durante um ano ou dois, quando um dia me disse: "sabes que eu toquei baixo nos últimos 10 anos". No início não tinha certeza do que fazer, mas um dia pedi-lhe para trazer o baixo. Gostei do que ouvi e convidei-o para fazer um espetáculo connosco. Ele estava pronto e em algumas semanas aprendeu todo o set e fez um grande trabalho. O seu entusiasmo e forma de tocar colocou-o no ponto. O nome de Sam Werk, o nosso baterista surgiu oralmente e o mais impressionante sobre ele é que é um conhecedor de world music e tem muita experiência como baterista e percussionista. Ele tocava em diferentes conjuntos cubanos e porto-riquenhos, por isso sabia que não tinha medo de usar as mãos. Acho que o fato de a sua principal influência ser John Bonham bem como o seu entusiasmo para se juntar a nós, pareceu ser o ajuste perfeito e então começamos a tocar juntos e logo ficou claro que ele estava perfeitamente adaptado à música que eu estava a tocar. Cronologicamente, o membro final foi o teclista/pianista Carl Kennedy, que me foi apresentado por outro teclista. Reunimo-nos algumas vezes e realmente gostei do seu estilo Jazz/blues. Também tem formação clássica, portanto sabia que ele era muito versátil e poderia ajudar tremendamente o nosso som.
 
Apesar de teres uma sonoridade muito orientada para o flamenco, desta vez adicionaste alguns "extras". As linhas de piano e de baixo são muito jazzy. Era esta a tua intenção?
Na verdade não. Para o próximo CD, não tentarei recriar o álbum Angels Of Persepolis e procurarei desviar-me do flamenco. Eu já comecei a escrever música com a guitarra flamenca mas com muito rock and roll. Quis criar algo muito original e único. A minha intenção não era rodear a guitarra flamenca com teclados e linhas de baixo, mas mudar o meu estilo de escrever para estar mais de acordo com o que fazia há alguns anos e que era Rock and Roll, ou pelo menos, com alguns indícios disso. Foi por isso exatamente que criei este grupo.
 
Mas podemos considerar Subterranea como um disco com uma abordagem mais rock?
Podes considerá-lo com uma abordagem mais mainstream. O que ouves aqui, seja rock ou world music, é algo pessoal, em que eu fui bem ao fundo de mim para reviver o que eu costumava fazer, mas com uma nova técnica e disciplina.
 
De facto, apesar da tua tendência para o flamenco, cresceste com os grandes nomes do rock...
É verdade, quando estava a aprender a tocar guitarra na minha adolescência, era um grande fã de Pink Floyd e Led Zeppelin. Eles foram a minha inspiração para pegar na guitarra. Mais tarde toquei em diversas bandas de rock e metal e, eventualmente, deixei tudo pelo Flamenco. Agora sinto que estou de regresso ao rock mas desta vez melhor equipado e com muito mais conhecimento da guitarra e das suas dinâmicas.
 
A respeito dessa influência do flamenco, de onde vem? Viveste em Espanha, certo? Isso teve alguma influência?
Bem, não posso dizer que vivi em Espanha, mas fiz muitas e longas viagens até lá para estudar Flamenco com professores muito bons. Usei esse tempo para mergulhar na forma de arte e absorver o máximo possível. Treinei da mesma forma que todos treinam quando vão para lá. Tive aulas particulares, acompanhei aulas de dança e qualquer hipótese que houvesse ia ver um monte de espetáculos e concertos. Apenas ia onde se tocassem Flamenco. Compra-se um monte de músicas e tenta-se aprender o máximo que se puder. Poucos meses depois, volta-se e faz-se o mesmo. Eu fiz isso durante dez anos. Mas isso não foi o fim. De regresso aos Estados Unidos teria que desenvolver o que aprendi e usá-lo para tocar em aulas de dança e fazer espetáculos de flamenco aqui. Para completar, também estudei Flamenco com outros maestros nos Estados Unidos e, como de costume tens de os encontrar e persegui-los por todo o país para estudar com eles.
 
Sei que existe um conceito subjacente a Subterranea. Pode explicar-nos em que consiste?
O conceito de Subterranea tem a ver com a nossa sociedade de hoje e a forma como os humanos tratam os outros seres humanos e a Mãe Terra. O cenário é a alguns milhares de quilómetros de profundidade na terra, na quarta dimensão. Ali, há cidades e civilizações de pessoas que por acaso são a nossa imagem ao espelho. No entanto, eles estão num caminho contrário ao nosso e muito mais perto da perfeição. Eles estão muito mais em sintonia com a natureza e com o seu meio circundante e dão muito mais valor à vida humana do que nós na superfície. Isso de certa forma é uma objecção a toda a destruição que temos emprestado a nós próprios, das guerras que se travam em outras terras e dentro da nossa própria sociedade, no nosso próprio povo. Os atuais acontecimentos sociais, políticos e económicos do nosso mundo são um exemplo.
 
Subterranea tem uma capa extraordinária. Quem foi o autor?
O criador dessa obra de arte é um amigo, Siamak Zarin Ghalami. Ele e eu discutimos o conteúdo e a ideia. Algumas semanas depois, apresentou-me o seu trabalho. Havia umas poucas ilhas verdes na água e o seu reflexo eram edifícios modernos que estavam para baixo, apontando para o seu ser inferior e menos desejável. Esta é a maneira como ele interpretou o conceito e realmente gostei, portanto, escolhi-a para usar. À medida que se avança para a direita, as estruturas e os desenhos dos edifícios nas sombras tornam-se mais antigas, representando a passagem do tempo.
 
Uma vez que nasceste no Irão, de que forma é que esse facto influenciou a tua carreira no futuro?
Eu acho que uma coisa que eu posso retirar do facto de ser persa é que estava exposto a muita música persa na minha fase de crescimento. Algumas das melodias têm sugestões e influências do flamenco e esta pode ser a razão pela qual eu me interessei pelo Flamenco. Mesmo quando se trata de criar música Flamenca tenho tendência de a transformar em algo um pouco persa. Podes ouvir muito disso no álbum Angels Of Persepolis.
 
E o facto de te teres mudado para Chicago ficou a dever-se a questões musicais ou não?
Não, foram circunstâncias da vida que me trouxeram até aqui quando eu tinha 14 anos de idade.
 
De regresso à música está a trabalhar actualmente em algum outro projeto?
Bem, estamos a fazer com os nossos espectáculos de Subterranea e já estamos a trabalhar em novas músicas para o próximo álbum. Agora que tenho uma unidade sólida para trabalhar, acho que vai ser muito mais fácil e rápido chegar aos álbuns. Talvez no próximo ano teremos um novo cá fora.
 
Tiveram três datas de apresentação ao vivo do álbum. Como foi a reacção e o que está planeado para os próximos tempos?
Os shows correram muito bem. Foram bem recebidos e público estava entusiasmado. Isso ajuda-nos muito. Isto é, sabes que o teu trabalho é apreciado. Acabei de assinar um novo contrato com um agente que me vai aproximar das editoras e de outras oportunidades e tentar obter algum tipo de interesse para nos levar em tournée.
 
A terminar, queres acrescentar algo mais para os nossos leitores?
Quero agradecer-te pela maravilhosa review e por tocar Subterranea no teu programa de rádio Via Nocturna. Também para os teus leitores quero dizer para nos irem ver num futuro próximo quando estivermos a tocar nalgum lugar por perto e acompanharem-nos visitando o meu site (www.mehranguitar.com) ou no Facebook. Também quero agradecer o vosso apoio!

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