sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Entrevista: Ray Vaughn

Membro fundador dos Hostages, banda de Punk/Art Rock de S. Francisco nascida em finais dos anos 70, Ray Vaughn esteve imensos anos afastado das lides musicais, como acaba por nos explicar nesta entrevista. Mas o seu regresso acontece com Way Down Low, um disco onde o músico deixa para trás os seus medos e lança-se numa aventura em formato de banda.

Olá Ray! Obrigado pelo teu tempo respondendo a Via Nocturna! Podemos começar pelo início? Foste um dos membros fundadores dos Hostages e depois desapareceste em 1992. Quais são as tuas maiores lembranças desse tempo?
As minhas memórias nunca foram tão acentuadas para começar com tristeza... O que mais ficou comigo foi essa energia e sensação de que poderíamos ter feito alguma coisa com a música naquela época. Quando somos jovens sabemos que não temos limites, não se tem medo de errar ou cair de cara no chão... No início dos anos 70, mudei-me de S. Francisco para Londres com vontade de tocar e escrever músicas... A música no início e meados dos anos 70 parecia estar num estado de fluxo, cabelos grandes, solos de guitarra bombásticos, jams de 20 minutos, realmente chatos. Tudo parecia muito grande e muito produzido e eu não tinha ideia do que estava a fazer ou por que fui para Londres... Mas lá eu era, não conhecia ninguém e o principal pensamento que tinha era “e agora?” Tocava numa velha guitarra acústica, em clubes folk em Birmingham, Coventry, o Black Country e tocando as minhas músicas. Um dia ouvi uma banda de Nova York, Television, seguida pelos Ramones, Richard Hell, depois de volta a Londres, os Sex Pistols, Clash... Depois de ouvir tudo isso, senti que tinha que estar numa banda. Voltei para San Francisco no outono de 78, conheci Ed Rawlings e Peter Hughes e juntos criámos os Hostages. San Francisco estava cheio de música e clubes. Punk, shows DIY e festas em armazéns. Foi uma verdadeira comunidade de freaks e artistas, skaters e drag queens. Tivemos uma boa época, os Hostages terminaram em 84, mas Eddie e eu continuamos a tocar até cerca de 92... Depois, uma noite saímos de palco e estava feito. Assim. Acabou. Parecia que estava a escrever a mesma música repetidas vezes, quem quereria ouvir essa merda? Eu certamente não. Em seguida, apaguei as luzes durante 17 anos.

Regressaste em 2010, em formato a solo e acústico. Porque tomaste essa opção?
O que aconteceu? Boa pergunta... Apenas um determinado dia peguei numa caneta e papel e comecei a escrever novamente. Peguei numa guitarra acústica, como na década de 70 e escrevi este registo que acabei por chamar de Way Down Low. Estava numa fase em que ia e vinha entre San Francisco e Nova York, e realmente gostava do escape da cidade, gostei como poderia ser totalmente anónimo neste rodopio, uma parceria entre o lixo da cidade e os diamantes, a beleza e horror todos no mesmo bloco... Era muito fácil ser essa entidade a solo e tocar quando quisesse, para quem quisesse, quando quisesse, sem rede... Como um equilibrista na corda bamba, foi isso que fiz.

E nota-se que te sentes confortável nos ambientes acústicos, porque eles estão muito presentes neste álbum…
Depois de fazer alguns espetáculos a solo, apenas eu e uma guitarra acústica, comecei a ter medo do palco... Ficava tão nervoso quando tocava, bem, para ser honesto, em lugares merda... e o costume era ficar excitado antes de tocar. Bem, foi muito desconfortável… Foi bom uma vez, mas era tão estranho... Era como se eu nunca tivesse feito isso antes. Foi quando chamei Ed Rawlings e disse: precisas tocar essas músicas comigo. Foi quando começamos a fazer este espetáculo com 2 pessoas: eu na acústica e Ed na sua bela Stratocaster prata. Elétrico e acústico, ao vivo, só nós dois... Funcionou bem e tornou-se interessante tocar guitarras. Quanto à tua pergunta, eu adoro tocar em formato acústico, mas ter uma banda atrás de mim é o que realmente quero.

Como já vimos, Ed Rawlings está de novo contigo. Que outros músicos tocam contigo em Way Down Low?
Ed, claro, o dono da mão lenta... Ele saca sons daquela Strat prata que simplesmente me levam ao topo. Na realidade, ele é um dos melhores guitarristas por aí hoje. Michael Urbano na bateria é uma superestrela! Ele toca com os Ligabue e está na Europa em tournée quando não anda na estrada com os Cracker. Ele divide o estúdio onde gravei com o produtor Michael Rosen. Stephen Winkle toca baixo na maioria das faixas. Stephen tocou com Ed e comigo nos Die Boss Nova. Esta malta veio a frio para o estúdio e rockaram a valer! E, claro, Mr. Phil Bennett no Hammond B3... Ele toca com os Starship e as suas faixas realmente falam por si, um teclista absolutamente brilhante. Na minha opinião ajudou a elevar o disco a um outro nível. Apesar de tudo, tivemos sorte com estes músicos... Falando honestamente são eles que fazem este disco.

A produção esteve a cargo Michael Rosen, um vencedor de um Grammy. Como foi trabalhar com ele?
Michael Rosen...  O melhor amigo, irmão, recuemos às minhas primeiras gravações com os Hostages e aos primeiros espetáculos, ele é o elo que me tem segurado e isso é a pura verdade. A confiança que tenho nele torna qualquer experiência de estúdio fluir. Podes pensar que uma banda a fazer a música é a coisa mais importante, mas não é... Sem um produtor que saiba do que faz, te conheça, consiga levar-te a fazer coisas nunca fizeste antes... Essa é a magia da gravação... Agora, claro que se escreveres uma ou duas boas músicas isso ajuda...

É verdade e o curioso é que Michael começou a sua carreira a trabalhar contigo e agora estão de novo juntos...
Conheci Michael quando ele estava na faculdade na sua formação em gravação. Ele gravou praticamente tudo o que os Hostages fizeram...  E ele também fez os nossos espetáculos. Tocamos em alguns dos piores clubes dos EUA e digo-te que o Michael sempre fez os nossos shows soarem bem. Quando fui ter com Michael pela primeira vez para este projeto era para gravar um álbum acústico a solo. Ainda não tinha banda. E durante alguns meses, tocámos no estúdio... e soava bem. Desenvolvemos um pouco as músicas, re-escrevemos aqui e ali e foi  Michael quem sugeriu trazer Michael Urbano para tocar bateria. Pensei: claro, porque não? Urbano também já tocou com Cheryl Crow, Smashmouth e muitas outras bandas. No mínimo, eu estava mais do que feliz a tocar com ele. Acontece que, pelo menos para mim, eu realmente estava conetado com ele. Tens que imaginar esta potência de um baterista num quarto, eu e a minha Martin D28 acústica noutra sala, passando 3 dias colocando as pistas de 12 músicas. Só nós dois! E Michael Rosen a girar os botões na cabine de controlo. Nada do que eu estava acostumado num estúdio... Nunca tinha gravado assim... foi estranho mas à medida que as faixas iam ficando completas adicionamos Ed, Stephen e Phil. E estou muito feliz com o som e o registo, o melhor que eu já fiz, com certeza. Mas o próximo será um pouco diferente.

Para quem estiver interessado em adquirir o teu álbum, o que deve fazer?
Querem ouvir o disco? Ele está disponível no I Tunes, no Best Buys, K Mart, Amazon... mas quem quiser ouvir de graça poderá encontrá-lo em rayosomusic.com. Devo admitir que o meu site está uma confusão, ainda há trabalhos a decorrer, mas podem navegar e ler mais sobre o processo de gravação no meu blog, e também me podem encontrar no YouTube http://www.youtube.com/watch?v = 2_GoFCKt2AE



E a respeito de atuações, como está a agenda?
Estive em Nova York, em julho e terminamos alguns shows aqui em San Francisco; pretendemos estar no Noroeste do Pacífico, em outubro e com sorte e boa fortuna na Europa na Primavera com uma banda completa. De igual forma que adoro a ideia de um ato de solo, uma banda completa realmente permite que as músicas alcancem um outro nível.

Mais uma vez obrigado pelo teu tempo e para terminar dava-te a oportunidade de dizer mais alguma coisa que não tenha sido abordado nesta entrevista...

Não, obrigado... tem sido um inferno de um passeio selvagem, sinto-me extremamente afortunado que esteja a receber interesse e airplay para Way Down Low, não só aqui nos Estados Unidos, mas a Europa e Canadá, bem... realmente não te posso agradecer o suficiente pelo teu tempo e apoio. Ser capaz de tocar ao vivo, para as pessoas que amam a música tanto quanto eu é o maior presente... Obrigado. Amem e respeitem todos... E não se esqueça de fazer bastante ruído!

1 comentário:

Alexandra disse...

Bela entrevista! Não sabia que o senhor Ray estava de volta... Obrigada!