sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Entrevista: Igor

Igor é um camaleão da música portuguesa. Sofre de alterações comportamentais que se refletem no seu visual e na sua música. É na mudança que sobrevive. Iniciou a sua existência em 2008 com o fantástico Circo dos Horrores, que invadiu o país de fantasia e ironia, onde era manifestada a decadência e o humor negro. O mesmo Circo que nos trouxe a realidade crua e dura envolta num manto de ilusão reaparece agora sugerindo uma nova roupagem sonora e visual, com o irreverente e imoral Uma Casa de Bonecas. Igor Freitas em discurso direto.

Olá Igor, obrigado por despenderes algum do teu tempo com Via Nocturna. Aí está o sucessor de Circo dos Horrores. De que forma este novo trabalho se aproxima ou afasta da tua estreia?
Um pouco dos dois. Inicialmente este disco era para ser um EP que revisitava temas do primeiro disco, algumas covers e uma original. No entanto, o conceito foi mais forte e decidi aproveitar essas mesmas músicas e inseri-las numa história. Para isso, teria de compor mais temas e assim o fiz. Portanto, é um disco bem diferente a nível visual e musical mas está interligado com o anterior através dessas versões.

Este é um trabalho nada easy-listening e que volta a ter uma forte componente teatral. Era essa, seguramente a tua intenção…
Exato. Este projeto foi criado para ser teatral e sempre diferente de álbum para álbum. Sou como um camaleão.

Sendo este um trabalho conceptual, podes esclarecer em que consta a história?
Um homem na casa dos 40, tem uma vida monótona e solitária mas um dia vê uma stripper com vinte e tal anos e sente-se atraído por ela. Daí resultam noites de muito sexo até o dia em que ele se apaixona por ela. Ela, ainda jovem não quer comprometer-se e ele fica obcecado em mantê-la consigo. O fim fica em aberto...

Em termos musicais, acabas por abranger diversos estilos. De que forma se processa o trabalho de composição por forma a conseguires este resultado não diversificado?
O conceito é o início. Depois vem a música, letras e visual. Terá de estar tudo interligado. Neste projeto, nada é “feito à toa”, é tudo pensado. A nível musical temos os ritmos, os tipos de sons, e a nível literário os recursos estilísticos. Neste caso específico, as músicas atravessam várias fases da história, daí serem bastante diversificadas, como num musical.

Apesar de teres uma banda contigo, o álbum vem em teu nome próprio. Isso reflete que todo o processo de composição das músicas e escrita da história esteve só a teu cargo?
Sim. Mas ao contrário do Circo dos Horrores (em que fiz tudo sozinho, exceto o baixo e uma guitarra), a banda fez os arranjos. Graças a eles ficou um trabalho com mais musicalidade.

Mas recuperaste algum tema do teu primeiro trabalho para este disco?
Sim, o Can-Can dos Horrores (Circo dos Horrores) e a Bailarina sem Vestido (Bailarina de Vestido). E também existe um pequeno excerto do Circo dos Amores no tema Circo dos Horrores.

Quem são os músicos que acompanham na gravação do disco e como decorreu o processo de escolha/seleção dos mesmos?
São os mesmos que me acompanham ao vivo. São eles: Nuno Cardiga (Som D'Alma); Siul Soares (Ana Souls Trio); Ricardo Silva (Lions Like Zebra) e Eva Plaisir (SinVision Photography). Só o Nuno e a Eva é que encontrei através de anúncios, o Ricardo foi através de amigos e o Siul já o conhecia. Costumo dizer que sou um privilegiado porque apesar de serem bons amigos, são excelentes músicos.

Foi fácil conseguires encaixar as versões na história por ti criada, suponho… pelo menos é o que transparece da audição do disco em que as três covers acabam por surgir de forma natural no alinhamento…
Sim. Depois de decidir que as covers iam estar inseridas na história, escolhi estas por serem grandes temas, pelas letras e por serem muito diferentes deste projcto.

Este álbum acaba por ter alguma relação com a peça encenada por Henrik Ibsen?
Não. Confesso até que nem conhecia essa peça. A casa de bonecas que idealizei é a inocência e a perversão. Isto é, o disco fala do amor e os seus dois lados: o romântico e o carnal. O romântico está visível na ingenuidade de um quarto de criança e a respectiva casa de bonecas, onde musicalmente está o lado mais clássico. O carnal é visível na perversidade de um bordel e as suas respetivas “bonecas”, onde a música entra como um cabaret.

O que se passou com o vídeo Nini dos Meus Quinze Anos?
Pedi uma autorização aos detentores dos direitos dessa música para fazer um videoclip. Essa autorização tardou em chegar e um teaser desse vídeo foi disponibilizado online. No entanto, como o vídeo foi posto sem autorização, o mesmo teve de ser retirado da internet. Mas essa questão está resolvida e brevemente estará novamente disponível.

Tiveste, recentemente, a festa de lançamento do disco. Como correram as coisas?
Correu muito bem, os comentários foram muito positivos.

E próximos concertos já há alguma coisa agendada?
Sim, temos no dia 1 de fevereiro – Grémio Dramático Povoense (Póvoa de Santa Iria); 31 de maio – Centro Cultural da Malaposta; 12 de julho – Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro. Mas estão a ser agendados mais espetáculos.

Ao vivo, terás sempre a componente teatral e de encenação ou poderás fazer alguns concertos apenas com a execução das músicas?
Será sempre teatral, exceto as Fnac’s, onde só será possível fazer parte do espetáculo. Com o Circo dos Horrores fizemos alguns concertos apenas com as músicas e correram mal. As pessoas não entenderam e além disso não conseguiram tirar partido da essência do espetáculo.

A terminar, mais uma vez obrigado e dava-te a oportunidade de acrescentar algo mais ao que já foi abordado nesta entrevista?
Obrigado eu pela vossa disponibilidade e apoio. Quero referir que o espetáculo é uma coisa e o álbum outra. Ao vivo a história é outra, ainda mais perversa...

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