segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Entrevista: a Jigsaw

A revista francesa Les Inrockuptibles afirmava em 2012 que os a Jigsaw eram uma banda a seguir. Em 2014, a especializada revista coloca-os junto de nomes como Tom Waits e Leonard Cohen. E o caso não é para menos: depois da “perda da inocência” e da “construção da identidade”, os a Jigsaw falam-nos agora, volvidos três anos, da aceitação dos termos da nossa mortalidade. Jorri e João Rui revelam a Via Nocturna as razões de ser No True Magic.

Olá pessoal! Tudo bem? Obrigado pela vossa disponibilidade. Podem falar um pouco deste projeto a Jigsaw. Como nasceu, como se foi desenvolvendo, têm atingido os objetivos inicialmente traçados?
Este projeto nasceu há 15 anos, fruto da vontade de criar música. Creio que não será muito diferente do momento inicial em que tantas bandas se formam. Em 2007 editamos o nosso primeiro LP Letters From The Boatman, seguido pelo Like The Wolf em 2009, e foi este que levou à nossa internacionalização e durante a tour do qual levámos as nossas canções a diversos cantos da europa. Durante esta tour escrevemos o nosso álbum Drunken Sailors & Happy Pirates que viu a luz do dia em 2011. Regressamos agora às edições discográficas em formato LP em 2014 com o No True Magic.

Com um passo já rico em termos de produções, de que forma prepararam este regresso?
Este “regresso” foi preparado ao longo de três anos durante o qual também andamos a promover o anterior Drunken Sailors & Happy Pirates. A sua preparação acaba por não ser muito diferente da dos álbuns anteriores no sentido em que o começámos a preparar com bastante antecedência. O que vai alterando é a maior experiência que temos na sua preparação dado o que aprendemos com as anteriores.

E porque um hiato de três anos para o vosso trabalho anterior?
Para este álbum necessitámos de mais tempo porque para o anterior escrevemos demasiadas canções. Apesar do anterior ter apenas 12 canções no álbum, nós gravámos cerca de 32 e necessitávamos de mais tempo para as poder apresentar todas. Até porque a maioria foi editada, tanto como b-sides de cd-Singles, como em Cassete e Vinil.

Porquê No True Magic num álbum que é, todo ele, pura magia?
No True Magic é a metáfora do conceito deste álbum; da suspensão da mortalidade. É nesse sentido que professamos a não existência da verdadeira magia; do milagre supremo da imortalidade.

No entanto, é, também um álbum algo escuro e sombrio. Foi vossa intenção desde o início criar algo assim?
Sim, este foi assumidamente escrito com o propósito de ser o nosso álbum mais negro. E sendo a mortalidade/imortalidade o tema, mais não o poderia ser. Pelo menos na narrativa que nele é abordada.

No True Magic é um disco conceptual, verdade? Podes descrever um pouco do conceito à volta do qual giram estes temas?
Sim, à semelhança dos nossos álbuns anteriores, este volta a ser um álbum conceptual no qual as canções servem o conceito que foi criado. Como falava atrás, a suspensão da mortalidade. O poeta Simon Coleridge falava da willing suspension of disbelief; a suspensão voluntária do nosso julgamento/credulidade em relação à implausibilidade de uma determinada narrativa. É um pouco isso o que nós fazemos em relação ao nosso encarar do fim dos nossos dias. Vamo-nos esquecendo, todos os dias, do nosso fim – como se um ato de magia nos pudesse conceder a imortalidade. E na compreensão do quão ilusória ela é, compreendemos a ilusão que nos enreda a existência.

Vocês são apenas um duo mas apenas na fase de criação, porque na execução têm a The Great Moonshiners Band. Quem são eles atualmente?
Tanto na fase de criação como de execução somos apenas nós os dois. Na gravação contámos com com um punhado de convidados, alguns dos quais fazem parte da The Great Moonshiners Band, que foi uma banda de suporte que criámos para a apresentação deste álbum. O Pedro Serra no contrabaixo, a Maria Côrte na harpa, viola de arco e violino, bem como o Guilherme Pimenta na bateria e percussões participaram neste álbum e fazem parte desta banda, juntamente com o Victor Torpedo na guitarra, a Tracy Vandal na voz e a Paula Nozzari nas percussões.

Precisamente, para este disco ainda tiveram outros convidados. Queres falar um pouco sobre a sua escolha e participação?
Para além dos que já falei, participou ainda o Miguel Gelpi e o Gito Lima no contrabaixo, que para além do contrabaixo foi ainda o responsável pelo design do álbum. Participou ainda a Carla Torgerson na voz, o Hugo Fernandes no violoncelo, o Laurent Rossi na Trompa e a Susana Ribeiro no violino e Glockenspiel. A escolha de cada um deles foi feita de acordo com o que a canção nos pedia e de acordo com o que conhecemos do trabalho de cada um destes músicos fenomenais. É baseado neste conhecimento que temos sempre a certeza de que o convite irá resultar de melhor forma para a canção.

E como se proporcionou o contacto com a Carla Torgerson?
O caso da Carla deve-se à paixão que temos pela sua voz, que nos levou a criar o papel feminino da narrativa da canção Black Jewelled Moon especificamente para a sua voz. O contacto em si foi através do vocalista dos Walkabouts (da qual a Carla faz parte) Chris Eckman que me colocou em contacto com a Carla. Ela depois gravou a voz em Seattle no estúdio Wakatake do Glenn Slater, teclista também dos Walkabouts. Creio que será o caso para dizer que estamos bastante agradecidos não só à Carla mas a toda a banda dos Walkabouts.

Ao longo dos anos têm tido bastante reconhecimento fora do país (até mais que cá dentro, suponho). Na vossa opinião a que se fica a dever isso?
É uma boa pergunta, para a qual não tenho de facto uma resposta simples. Ainda mais porque há um maior esforço de promoção da música em Portugal do que fora dele e ainda assim temos sido sempre bastante apoiados pelos media internacionais. Creio que seria uma pergunta à qual estariam mais qualificados os media portugueses para responder.

Esse reconhecimento proporcionou-vos uma longa tournée europeia. Que recordações guardam desses momentos? Vai repetir-se com este novo disco?
Desde essa longa tour que já somos sempre obrigados a apresentar os nossos discos fora de portas. As pessoas desses países receberam-nos com um carinho tal, que estamos em dívida para com elas. E exigimo-nos o esforço desse regresso para lhes apresentar as nossas novas canções.

Estão a comemorar 15 anos de existência. Olhando para trás, como analisam o percurso dos a Jigsaw até hoje?
Ao olhar para trás, vamos percebendo que não é o tempo que nos transforma mas sim a experiência de o atravessar. A forma como nos vamos transformando assentes na experiência que vamos adquirindo. E nota-se bem de álbum para álbum com essa experiência nos altera. E isso não se queda apenas no âmbito musical.

Tiveram algum evento especialmente preparado para esta comemoração ou não?
Sim, voltamos a celebrar o nosso aniversário no Salão Brazil em Coimbra num concerto duplo (dia 13 e 14 de dezembro) onde tocámos 15 músicas diferentes em cada um dos dias, acompanhados pela nossa The Great Moonshiners Band. Foram dois dias muito especiais em que pudemos partilhar essas 30 canções com quem nos tem seguido de tão perto e ainda mais por ter sido na nossa cidade em Coimbra.

Mais uma vez obrigado! Queres deixar alguma mensagem?
Como estamos em final de ano, ficam os nossos votos de boas entradas com muito boa música e bons livros para todos. Abraços e beijos dos a Jigsaw.

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