sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Entrevista: Ten


Vinte anos de carreira e onze álbuns de estúdio fazem dos Ten uma verdadeira instituição do hard rock britânico e mundial. Depois de deixarem a Frontiers assinaram pela Rocktopia Records, editora que se estreia logo com o brilhante Albion, primeiro de dois trabalhos dos britânicos. Profissional, carismático e muito simpático, o líder do colectivo Gary Hughes, escalpelizou o novo álbum e todas as mudanças que afectaram os Ten nos últimos tempos.

Olá Gary! Obrigado pela tua disponibilidade com Via Nocturna. Deixa-me dizer-te que é um prazer poder fazer esta entrevista! Ao longo dos últimos anos, os Ten têm sido sinónimo do melhor hard rock britânico. Portanto, como te sentes com este novo álbum?
Sim, estou muito satisfeito com ele. Tinha uma ideia muito clara sobre a forma como as coisas dariam certo desta vez. Comecei por desenvolver uma grande coleção de músicas de uma forma mais descontraída e sem os entraves dos últimos anos. Com este novo material senti que me foi permitido o tipo de liberdade de expressão artística que me foi conferida no meu início, nos tempos da Now And Then Records e foi emocionante sentir as músicas a desenvolverem-se de forma natural, mais uma vez. Ao longo dos anos, os Ten tornaram-se num grupo contratualmente obrigado a tipos específicos de produção, de acordo com as preocupações de ordem promocional das editoras, com contratos que especificavam os estilos e tipos de pistas necessários para a mistura do álbum. É difícil de funcionar sob essa pressão e acho que nós fomos surpreendentes para aguentar um período cada vez mais difícil em que muitas outras bandas simplesmente teriam caído no esquecimento. A nossa nova situação de multiálbum com a Rocktopia Records tem sido uma revelação a este respeito. Parece a antiga situação da Now And Then e acho que o fluxo e sensação natural de Albion confirma isso.

É, portanto, o início de uma nova era para os Ten? Mudança de editora e novos guitarristas…
Sim, temos dois novos guitarristas. Sempre senti que havia espaço nos Ten para outro guitarrista, que nos permitisse tocar mais das camadas quer em estúdio quer ao vivo. Dann Rosingana e Steve Grocott complementam-se perfeitamente. Ambos são músicos muito melódicos e técnicos e é muito interessante a forma como o som dos Ten se tem desenvolvido desde a sua chegada. Agora temos os leads harmónicos da twin guitar que sempre estiveram em falta e o som da banda é mais completo e integral. Sem dúvida isso amplia o som para qualquer banda. Bandas como os Iron Maiden fizeram-no em situações em que as três guitarras estão todas a tocar, essencialmente o mesmo riff. Funcionou bem com eles. Nos Ten é mais orquestral. Os nossos três guitarristas tocam diferentes camadas, num registo melódico. Acho que funciona. Adiciona um certo valor sinfónico à paisagem sonora.

Começando pela mudança de editora - quantos anos trabalhaste com a Frontiers Records? Porque esta mudança?
Estive com a Frontiers desde o nosso álbum ao vivo Never Say Goodbye de 1997. Tive uma relação muito produtiva com Serafino, Mario e toda a equipa da Frontiers. No entanto, como todas as coisas boas, chegou ao fim. Já não podia dar-me ao luxo de fazer álbuns com os orçamentos que estavam a ser oferecidos, por isso tive que procurar outro lugar para um novo começo para os Ten. Com a Rocktopia sinto-me como nos tempos da Now And Then Records. Proporcionaram-me total controlo criativo e o orçamento para os Ten desta vez fez todas as coisas possíveis. Penso que esta é a razão de ter sido tão produtivo desta vez. A Frontiers é uma grande editora, mas tínhamos deixado de ser uma banda prioritária para eles, por isso estava na altura de saltar fora. E mais uma vez os Ten encontraram-se a ser o primeiro lançamento doutra editora. Se se mantiver a sua declaração de ethos e missão atual, tenho a certeza de que a Rocktopia Records será uma opção viável para as bandas europeias nos próximos anos.

Albion é o primeiro de dois álbuns para a Rocktopia. O segundo está agendado para 2015. Será como uma continuação?
Sim, mais ou menos. O que aconteceu foi que me encontrei numa situação não muito diferente daquela no início dos Ten, onde 24 músicas se tornaram Ten e Name Of The Rose. Desta vez, gravamos 22 faixas e fomos incapazes de escolher, por isso simplesmente decidimos (como fizemos na altura) dividi-las em duas versões separadas. As músicas em Albion foram escolhidas, não porque sejam mais fortes do que as outras, mas porque ficavam bem juntas como uma coleção. A segunda metade deste lote específico é tão forte e promete ser um acompanhamento digno de Albion.

Albion também é visto como um regresso às origens dos Ten. Foi tua intenção ou simplesmente aconteceu?
É realmente um retorno às essências puras dos Ten. Na realidade, simplesmente desenvolvemos cada canção sem preconcepção de estilo ou profundidade. Acredita em mim, se para uma destas canções fosse necessário um tom sinfónico teria. Esta coleção de canções aguenta-se apenas em guitarra acústica e voz. Isso para mim é a verdadeira marca de uma boa música.

Quando sentiste necessidade de incluir um terceiro guitarrista?
A situação surgiu porque não conseguia escolher entre Dan e Steve durante as audições. Realmente gostei de elementos de ambos e gostava de poder contar com ambos os estilos para fazer novos registos mais dinâmicos. Além disso, a música dos Ten tem muitas camadas e texturas que, quando tocamos ao vivo, temos de deixar de fora alguma coisa. Com três guitarristas podemos fazer muito mais particularmente nas partes harmónicas, mantendo uma seção rítmica com energia. É cedo ainda, mas a julgar pela forma como correram as coisas no Firefest, as coisas estão a funcionar bastante bem.

Achas que este é o teu melhor álbum até agora?
Essa é uma pergunta muito difícil de responder, logo após terminar um projeto. Sei que Albion é um disco muito forte e estou imensamente orgulhoso de todos os nossos esforços. O que posso dizer é que tenho escutado os fãs ao longo dos últimos dois anos. Eles estão muito próximos sobre o que gostam no som Ten e o que eles gostariam de ouvir de nós. Com esta coleção de material sinto que realmente tentei atender aos seus desejos.

Qual é o significado do título Albion?
Albion é o mais antigo nome registado das Ilhas Britânicas, que remonta ao tempo da Rainha Boadicia. O Guerreiro Cheiftan é famoso por lutar contra os romanos. A canção narra a véspera dessa batalha. Os pensamentos dos homens ao redor das fogueiras e as suas orações de guerra aos seus deuses pagãos.

As reviews têm-vos atribuído altas pontuações. Parabéns. Os objetivos para este álbum foram totalmente alcançados?
Estou muito satisfeito com o álbum e com as reações iniciais que têm sido muito positivas. É sempre difícil quando preparo um novo conjunto de material para um lançamento. É um pouco como ter um protótipo de um carro na oficina. Nunca tenho certeza do que vai acontecer quando ligar a ignição.

Tens duas canções baseadas em livros. Como surge essa ligação entre a música e a literatura?
Alone In The Tonight Dark é baseado no livro de Emily Bronte Wuthering Heights. A ideia é de um personagem estilo Heathcliff, que percorre o jardim do cemitério dos mortos-vivos durante séculos lamentando o seu amor perdido. A Smuggler’s Tale é exatamente isso. Baseado no livro de Daphne Du Maurier, Jamaica Inn. Narra a história de um navio que naufraga nas rochas durante uma tempestade. Os contrabandistas solicitam a sua generosidade e concussão para os sobreviventes.

E uma balada (belíssima, deixa-me dizer-te!) com algumas partes cantadas em italiano. Como surgiu esta ideia? Quem trabalhou a língua italiana?
Cada vez que escrevo uma música procuro sempre um ângulo diferente. Nenhum compositor se quer repetir e, numa balada, é muito mais difícil. Uma canção de amor é uma canção de amor. No início deste ano apanhei um concerto Boccelli na TV e lembro-me ter pensado quão bem soa o italiano como língua! É universalmente reconhecida como a linguagem do amor e pensei que seria bom fazer uma canção com um coro universal, cantada num idioma diferente. Gostei da experiência. Sei que, da minha parte, o italiano não parece totalmente natural, mas espero que se tenha feito alguma justiça.

Estão a trabalhar em alguma tour ou aparições em festivais?
Sim, de fato. Esperamos tocar extensivamente na Europa, visitando tantos lugares quanto pudermos com este novo line-up. Também planeamos regressar, finalmente, ao Japão para tocar neste país pela primeira vez desde 2003. Estaremos em tournée com o novo material, mas também com uma seleção de aniversário de canções que abrangem a história da banda. Há também conversas no sentido dos Ten fazerem alguns shows específicos tocando a totalidade de álbuns seleccionados para celebrar este marco de 20 anos. Estejam atentos…

Obrigado Gary! Foi um prazer poder fazer esta entrevista. Queres acrescentar mais alguma coisa?
O prazer foi meu, como sempre! Os teus leitores e fãs devem lembrar-se de que eles são o mais importante em tudo isto. Albion é um álbum para os fãs e espero que eles gostam da nossa humilde oferta. Estou ansioso por ver muitos de vocês na próxima tournée para o ano. Até lá fiquem bem! Tudo de bom!

Sem comentários: