segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Entrevista: Dave Kilminster


Dave Kilminster não pára! Depois de Scarlet – The Director’s Cut, de um álbum acústico em dueto com Murray Hockridge e de uma nova tournée com Roger Waters – The Wall Live – eis que o virtuoso guitarrista britânico está de regresso aos álbuns de originais com …And The Truth Will Set You Free. E nem um grave acidente de viação que o impediu de tocar guitarra durante alguns meses lhe retirou a vontade de continuar a trabalhar em prol da verdade. Aqui ficam os sentimentos e emoções de Dave Kilminster.

Olá Dave! Tudo bem desde a última vez que falamos? Novo álbum cá fora - o que nos podes dizer a este respeito?
Sim, a vida está, na maior parte, boa... Tive um acidente de carro em maio passado, o que se traduziu que não pude tocar guitarra durante muitos meses... Mas sabes como é - temos que manter o pensamento positivo - as coisas podem sempre ser piores!! Felizmente já tinha acabado de gravar as guitarras do meu novo álbum antes do acidente!! Quanto ao álbum em si, eu estou muito feliz!! Sinto que eu estou a desenvolver a minha própria "voz" musical e acho que a principal diferença de The Truth… são todas as harmonias vocais. Diverti-me muito a faze-las! Era algo que sempre tentei – cantei num Barbershop Quartet quando ainda andava na escola – pelo que esse som está na minha cabeça desde muito jovem. E os Queen foram a primeira banda rock com quem tomei contacto e sempre adorei totalmente as suas maravilhosas harmonias.

Seguiste o mesmo processo de trabalho de Scarlet…?
Bem, eu aprendi muito a trabalhar em Scarlet... e algumas das coisas que aprendi foi como 'não' fazer certas coisas!! Hahaha... Mas, sim, foi um processo semelhante, mas de forma geral mais simples e muito mais rápido!!! Além disso, todas as músicas foram escritas num prazo muito curto, o que ajudou na consistência geral...

Se Scarlet foi o reflexo de toda a música que ouviste, como definirias …And The Truth Will Set You Free…?
Bem, estou muito orgulhoso de Scarlet, mas senti que era talvez um pouco demasiado eclético... Eu ouço tantos estilos diferentes de música que, por isso, havia lá muitos e diferentes humores e texturas. Para The Truth… queria um álbum forte e mais conciso. Uma declaração mais definitiva. Portanto, desta vez deixei de lado os teclados e peguei nas coisas que eu pensei que funcionaram muito bem em Scarlet, focando-me em fazer esses elementos ainda melhores neste novo disco.

E existe algum significado particular para um título como este? Como surgiu?
É tão difícil encontrar a verdade em qualquer coisa hoje em dia... Há tantas mentiras agora - nas notícias, comunicação social e na internet... disfarces e conspirações... é quase impossível encontrar a verdade. Mesmo em fotos, hoje em dia raramente vês uma foto numa revista que não tenha sido drasticamente fotoshopped, alterada ou manipulada de alguma forma. E a música agora também, devido ao advento de tecnologia e dos computadores… Fico tão cansado de ouvir todo o lixo produzido por aqueles que tocam nas estações de rádio hoje... tudo samples. Loops de bateria, baixo programado, 'cordas' de teclado e vários ruídos estúpidos... Quantised, digitalizados, junk higienizados, com vocais que foram compactados e autotuned dentro de uma polegada das suas vidas miseráveis!!! Quero dizer, há mais personalidade numa máquina digital de resposta!! Ninguém está realmente a tocar nada nessas faixas. Não há coração, nem alma, nem emoção... É apenas barulho, ruídos bleepy informatizados para bêbados, idiotas desmiolados a saltar para cima e para baixo. Portanto, (pelo menos para mim), este álbum apresenta a "verdade" do ponto de vista musical... bateria verdadeira, baixo real, guitarra real... não há loops, nenhum autotune -  apenas três pessoas numa sala, a tocar música juntos! Até mesmo as imagens são intocadas... sem photoshop!!

A respeito dos músicos, decidiste manter a mesma equipa com Pete Riley e Phil Williams. Foi uma escolha natural?
Sim, totalmente.... Uma boa química numa banda é essencial, mas é tão difícil de encontrar... Acho que é por isso que existem tão poucas grandes bandas!! Mas, para mim, algo especial acontece quando nós os três tocamos juntos... Gostaria de fazer isso mais vezes!!

Voltaste a trabalhar com um ensemble de cordas, desta vez o Larkin Quartet. Foste tu, outra vez, quem fez os arranjos?
Sim, até os escrevi em papel manuscrito!! O quarteto comentou quando chegou que já há algum tempo que não via música escrita à mão. Hoje em dia a maioria das músicas é impressa usando algo como o Finale ou Sibelius... que, naturalmente, são absolutamente bons...  Mas para mim é apenas mais uma coisa para levar para longe da realidade - mais longe do que o simples ato físico de escrever as coisas. Quando é escrito à mão, há lá mais, não sei, personalidade... Queria voltar à maneira como Mozart, Debussy e Bach o fizeram!!

Antes deste álbum estiveste envolvido na The Wall Tour. De alguma forma essa longa tournée acabou por influenciar este trabalho?
Não acho que tenha influenciado diretamente, a não ser para me inspirar para gravar outro álbum com a minha própria música. Embora haja uma faixa no álbum (chamada Stardust), que tem uma influência muito Floydiana, mas é mais do período Shine On que ouvi quando era mais jovem. No meu crescimento, adorava o Wish You Were Here... E, na realidade, nunca tinha ouvido o The Wall até 2010!!!

Entre os teus dois álbuns tiveste uma experiência acústica com Murray Hockridge. O que sentiste com esse trabalho?
Amo esse álbum (Closer To Earth) e escolhemos propositadamente as músicas para apresentar uma experiência bonita, atmosférica para o ouvinte... Porém, quando tocamos juntos ao vivo, foi sempre muito mais louco, com muito mais improvisação, espontaneidade, uma coisa orgânica, com toneladas de energia... E, na verdade, após a loucura de tocar em estádios enormes com Roger Waters para 70.000 pessoas, havia algo realmente agradável em tocar para pequeno grupo de pessoas. É muito mais emocional... mais intensamente íntimo... ser capaz de ver e interagir com o público para sentir a energia e a atmosfera da sala... Adoraria fazer mais espetáculos desses, e, na verdade, tínhamos agendado uma tournée em outubro/novembro na Europa, mas infelizmente tivemos que cancelar – aquele acidente de carro confundiu todos os meus planos no ano passado...

Para além de tocares e trabalhares com Roger Waters, estás envolvido ou a colaborar com mais algum projeto?
Não... não tive possibilidade de tocar guitarra durante alguns meses. Aliás, apenas voltei a tocar nos últimos dias.

Já tens alguma tour planeada?
De momento, não. Acho que seria muito difícil fazer uma tournée em nome individual. Mesmo bandas bem estabelecidas estão a descobrir que é incrivelmente difícil fazer uma tournée financeiramente rentável hoje em dia. Mas fui recentemente convidado a tocar guitarra com Steven Wilson na sua tournée pelos EUA. Estou incrivelmente animado e feliz com isso!!! Gosto muito dos seus últimos álbuns... e, na realidade, não consigo pensar em mais ninguém de quem possa dizer o mesmo!!!

Mais uma vez Dave obrigado por este momento. Queres deixar alguma mensagem?
Sim... confiram o pequeno vídeo promocional do meu novo álbum!! Espero que gostem...

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