quarta-feira, 8 de abril de 2015

Entrevista: Theo


Jim Alfredson é um famoso teclista associado ao movimento jazz que resolveu iniciar um novo projeto a solo mais orientado para o rock progressivo. Theo, inspirado pelos Yes, ELP, King Crimson, Pink Floyd e Genesis deu a conhecer o lado progressivo do maior executante de Hammond da atualidade. The Game Of Ouroboros demorou três anos a ficar completo mas valeu bem a pena. Jim Alfredson explica a génese desta nova banda e o seu lento desenvolvimento entre uma enorme quantidade de outros projetos em ação.

Olá Jim! Em primeiro lugar, obrigado pela tua disponibilidade. Em segundo lugar, quando surgiu esta ideia de gravar um álbum de rock progressivo?
Tudo começou de forma muito orgânica como uma extensão da música ambiente/eletrónica que estava a escrever. Depois do falecimento do meu pai em 2008, revisitei alguma música com a qual cresci, incluindo os primórdios da música eletrónica (Tangerine Dream, Wendy Carlos, Tomita, Vangelis, etc.) e as grandes bandas progressivas dos anos 70 (Genesis, ELP, Yes, Gentle Giant, King Crimson, Pink Floyd, etc.). Ouvir de novo essa música inspirou-me a afastar-me do jazz, que tinha consumido a minha vida musical, nos últimos 16 anos e a procurar outras formas de música. Lancei um álbum de música eletrónica dedicado ao meu pai e à minha falecida mãe (que morreu em 1997) chamado In Memorandom em 2009. Como já tinha começado a trabalhar num novo álbum desse tipo de música, comecei a escrever letras e a música rapidamente tornou-se mais e mais progressiva. A outra inspiração surgiu do trabalho que estava a fazer com o baixista Gary Davenport nos Janiva Magness. Ele é um grande fã de prog e tocou nos 805 Band, um grupo muito popular na Costa Leste no final de 1980/início de 1990 que tocavam Genesis e também fizeram a sua própria música progressiva. Como toquei com ele alguns fragmentos do que estava a trabalhar, a sua excitação incentivou-me a continuar.

Demoraste três anos até o álbum ficar completo. O facto de teres andado em tournée com Janiva Magness foi a causa principal?
Sim, essa foi a principal razão porque demorou tanto tempo para ser concluído. Andei em tournée com a banda durante quatro anos o que me levou para bem longe de casa durante meses a fio em cada ano. Quando regressava a casa, teria que voltar à afinação de pianos (a minha outra principal fonte de rendimentos) e espetáculos locais com artistas de Jazz e Blues, incluindo a minha própria banda, Organissimo. E também tinha as obrigações familiares com três filhas e uma esposa para cuidar e poder estar algum tempo com elas. Durante algum tempo, também não soube exatamente aonde queria ir com a música. Por isso demorou algum tempo para desenvolver os temas líricos.

Mas, tiveste tempo suficiente para trabalhar em todos os detalhes, certo?
Certamente, apesar de muitos detalhes de conexão, como a voz de telefone e efeitos sonoros, terem sido adicionados apenas no final do processo depois de ouvir o álbum como um todo e perceber que precisava de alguma continuidade.

Definitivamente não páras! Ao mesmo tempo também um disco com outra banda tua, os Dirty Fingers. Todos os projetos são diferentes, mas pergunto-te se são compatíveis no que diz respeito ao tempo e agenda?
A base para os Dirty Fingers foi o meu desejo de tocar e gravar com o baterista Randy Gelispie. Randy é um dos melhores bateristas de jazz vivo e a sua carreira dura há cinco décadas. Ele tocou com alguns dos mestres do Hammond do jazz. Na realidade, era apenas um projeto para mim, uma desculpa para contratar Randy. Fizemos toda a gravação em três dias. Foi uma das sessões mais divertidas que já tive o prazer de fazer. Na mesma altura, também gravei e lancei um álbum com os Organissimo (Dedicated) e estive envolvido no processo de gravação, produção e escrita para o terceiro álbum de Greg Nagy (Stranded). Por isso, foi um desafio arranjar tempo para trabalhar em THEO.

Concentremo-nos agora em The Game Of Ouroboros. Qual o significado deste título?
Os ouroboros são uma serpente que come a própria cauda. Normalmente é representado como um símbolo do renascimento, mas estou a usá-lo como um símbolo de insustentabilidade. Acho que o curso atual da civilização ocidental não é viável a longo prazo, a menos que mudanças drásticas sejam feitas no nosso sistema económico e na maneira como tratamos o meio ambiente, os nossos recursos naturais e uns aos outros. Parece-me que a maior parte dos políticos e líderes mundiais são surdos e contentam-se em apenas em continuar "o jogo".

Assim sendo, parece haver uma linha condutora através de todo o álbum. É verdade? Trata-se de um álbum conceitual?
Sim e não. As três primeiras músicas são uma suíte e têm, definitivamente, a intenção de ter um único conceito. As três últimas não estão diretamente ligados, mas existem tópicos líricos indiretos. Embora a última canção, Exile, possa ser considerada como parte da suíte.

És conhecido como um dos melhores executantes de Hammond da atualidade. É por isso que este álbum tem um grande input de órgão?
Inicialmente queria ficar longe do órgão neste disco, mas tem um som tão grande e uma história tão célebre na música progressiva que não poderia ficar longe dele! Absolutamente amo o som de órgão de Tony Kaye no álbum The Yes e a forma como Tony Banks usou o órgão para preencher os espaços nos Genesis. Essas foram as minhas duas maiores inspirações para este álbum.

No entanto, para além desses sons analógicos, incluis também algumas tecnologias modernas. Como fizeste para conseguir esse equilíbrio?
Eu não queria que o álbum fosse um total retrocesso até à década de 1970, em termos de instrumentação. Logo no início tomei a decisão de não usar o som do Mellotron, por exemplo... Embora esteja lá um pouco, misturado nas camadas de cordas e coros. Gosto muito de conduzir sons analógicos, mas muitos dos leads também estão em camadas com modernos sintetizadores plug-in (como Steinberg’s Retrologue), para obter o melhor dos dois mundos - a lisura do analógico e do poder de corte do digital. Os sintetizadores digitais tornaram-se tão incrivelmente poderosos nos últimos anos, especialmente os sintetizadores de software, que realmente podes fazer o que quiseres. O sintetizador de hardware mais prevalente no álbum é a minha Alesis Andromeda A6 que é um sintetizador analógico de 16 vozes. É um som enorme, grosso e bonito. O sintetizador de software mais prevalente é o Camel Audio’s Alchemy, que é puro, limpo e cheio. Os dois trabalham muito bem juntos.

Quem toca contigo neste álbum? Já tinhas trabalhado com eles antes?
Como já referi, Gary Davenport é o baixista nos Janiva Magness, por isso conhecemo-nos muito bem depois de estarmos presos numa carrinha ao longo de todos os EUA durante quatro anos. Trabalhei e gravei com o baterista Kevin Depree anteriormente na banda de Greg Nagy. E o guitarrista Jake Reichbart é um guitarrista de jazz muito conhecido em Michigan e já tínhamos feito alguns shows juntos no passado. O guitarrista convidado, Zach Zunis, também das bandas de Janiva Magness e Greg Nagy é um querido amigo que estava nos Root Doctor comigo e agora tem a sua própria carreira a solo.

E agora, falando do futuro o que tens em mente para os próximos tempos? Algum outro projeto diferente?
Atualmente estou a trabalhar num outro álbum de electrónica/ambient que será oferecido num CD normal, bem como num DVD ou Blu-Ray 5.1 surround. Estamos também em fase de pré-produção de um novo álbum de Organissimo com o nosso novo guitarrista Lawrence Barris. E já estou a juntar motivos musicais e ideias para o próximo THEO. Agora tenho que decidir sobre que tema haverei de escrever.

Muito obrigado Jim. Foi um prazer fazer esta entrevista. Queres acrescentar mais alguma coisa?
Obrigado! Estou encantado e humilhado pela resposta que THEO gerou entre os fãs de rock progressivo. Isso inspirou-me a continuar, para continuar a crescer e tentar outro!

Photo credits:
Jim's Photo 1 – Corrina Van Hamlin
Jim's Photo 2 – Jessica D. Cowles

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