sexta-feira, 5 de junho de 2015

Entrevista: Gazua

Assumidamente, os Gazua são a melhor banda nacional de rock da atualidade. Não pelo número de discos vendidos, nem pela exposição mediática, mas sim pela qualidade constante do material que criam e gravam. E ao fim de quase 10 anos de carreira e com 5 cinco álbuns de estúdio, essa qualidade já não pode passar despercebida e já nem se pode dizer que é fruto do acaso. É fruto do trabalho, perseverança, luta e, também, da criatividade, imaginação e sentimento. Fomos mais uma vez falar com João “Corrosão” Morais, na entrevista que se impunha após a edição do mais Sobrenatural álbum da sua carreira.

Olá João! Antes de mais, obrigado por este momento e parabéns por mais um excelente álbum. Mas, desta vez demoraram um pouco mais a por cá fora um trabalho. Ficou a dever-se a que?
A ideia era lançar o disco mais cedo, mas o acordo com a editora demorou um pouco mais do que esperávamos. A verdade é que não tínhamos pressa. Ficámos muito satisfeitos com o trabalho de estúdio e queríamos fazer as coisas bem, mesmo que isso levasse mais tempo. Gravámos em março e lançámos em março… um ano depois.

Este é já o vosso quinto álbum. É uma marca relevante para uma banda independente. Alguma vez pensaste, quando começaste esta caminhada, atingir esta marca?
Pensei sempre que isto seria possível mas talvez não num espaço de tempo tão curto. Os Gazua quando começaram foi para uma longa caminhada e não apenas para ver no que poderia dar. E nesta fase já começam a aparecer ideias para um próximo trabalho…

Como é ser músico em Portugal, tocando um estilo como o vosso, aguentar quase 10 anos e lançar cinco álbuns?
Estou dentro deste circuito há 27 anos e “aguentar” é a história da minha vida. Os Gazua são a nossa forma de expressar o que sentimos e ter isso é uma vantagem em relação a quem não tem como se expressar. É claro que é um pouco frustrante termos tão pouco espaço para dar a conhecer o nosso trabalho e as nossas mensagens mas temos consciência que este género de som será sempre o lado B da indústria.

Marca ainda mais relevante quando todos os vossos álbuns têm algo que os diferencia, algo que também marca uma evolução. Como analisas esse vosso trajeto evolutivo?
O que sentimos é sempre vontade de experimentar novas fórmulas. Tentamos não fazer a mesma música duas vezes. A música só pode ser arte quando desafia o músico e o ouvinte. Para mim a balança que equilibra o lado artístico e o lado comercial terá sempre de pender mais para o lado artístico.

Mas ainda manténs aquele sentimento de angústia que nos confidenciavas numa entrevista há três anos?
O sentimento de Angústia já faz parte do meu ADN. O País é pequeno demais e a maioria dos Portugueses está de costas voltadas para as questões essenciais. Temos de ser capazes de analisar e de escolher a forma como vivemos, mas isso pelos vistos dá muito trabalho. É mais fácil criticar tudo e acabar por comer o que nos é posto no prato. Isto é mesmo muito triste e espero que as letras dos Gazua possam servir para mostrar que há outros caminhos. Temos um país cheio de potencial mas tirando meia dúzia de “chico-espertos”, vivemos muito abaixo dessa potencialidade.

Este Sobrenatural é mesmo um disco sobrenatural na trajetória dos Gazua? Por quê?
Quando decidimos avançar para a composição deste disco havia muitas coisas que queríamos corrigir de discos anteriores. O que acho é que isso foi conseguido. É um disco que arranca como os outros mas onde a nossa maturidade e experiência mais se evidencia ao longo de todo o processo de composição e gravação.

Estreias aqui um novo baterista. De que forma essa substituição influenciou ou não o crescimento de Sobrenatural? O JP teve oportunidade para participar ativamente na escrita destas canções?
Acho que a chave deste disco foi exatamente a questão do baterista. O JP não só veio renovar a motivação da banda como se revelou um elemento decisivo na composição do disco. Não só pela sua criatividade como pelo seu empenho e profissionalismo. Até aqui não tínhamos o hábito de compor em conjunto pois o lugar do baterista nunca foi 100% preenchido. No Sobrenatural estivemos juntos desde os primeiros acordes e este disco é o espelho de uma banda.

Neste novo trabalho notam-se claramente aspetos verdadeiramente caraterísticos de Gazua mas volta a haver, como já falamos, inovação. Em termos técnicos este parece ser o mais evoluído disco de Gazua até agora. Concordas?
Como já disse, a maturidade teve um papel decisivo na composição deste disco. Um músico mais maduro consegue fazer muito com pouco e este disco está cheio de ideias simples mas fortes. Ao nível do trabalho de guitarra e voz, é um trabalho de fácil execução. Acho que os maiores desafios estão na secção rítmica.

E isso trouxe mais exigências em termos de execução técnica? Como lidaram com a situação?
Na música, ou nas artes em geral, a criatividade nasce contigo, mas a técnica é fruto de muito trabalho e empenho. Não há volta a dar.

Poderemos dizer que este álbum nunca poderia ter sido feito antes porque é o culminar de um processo de amadurecimento e crescimento?
Sem tirar nem pôr!

Agora mais detalhadamente centrados em Sobrenatural, como definirias este disco?
Acho que é um disco de Rock, criado com uma atitude Punk Rock. Conseguimos juntar num só trabalho a nossa melhor produção de som com o nosso melhor conjunto de temas e com o nosso melhor conjunto de letras. Tudo isto embrulhado num design elaborado, personalizado e pensado ao milímetro… Sou bom vendedor?

Voltam a apresentar um tema escondido. Bom, na verdade não chega a ser um tema. Como surgiu essa ideia e qual o seu significado?
A ideia inicial era o disco começar com esse trecho de piano com a intenção de criar uns segundos de estranheza antes de entrar a bateria do tema Envolve-me mas no fim das gravações achámos que tinha pouca atitude e passou para um momento escondido.  Em relação à Introdução e por o feedback ser sempre uma presença pouco desejada, decidimos dar-lhe um lugar de destaque no nosso disco e criar uma Sinfonia de Feedbacks! Dar voz aos oprimidos!

E em termos líricos? Manténs uma elevada bitola em termos de qualidade de letras, embora agora menos evidente aquela atitude de rebelião. Acalmaste ou simplesmente tornaste a tua escrita mais elaborada?
As letras são realmente uma parte importante dos nossos trabalhos. Nesse campo também tentei não repetir fórmulas. Achei que este disco merecia uma viagem por outros caminhos que não só o da intervenção. Ando tudo menos calmo em relação ao que se passa à minha volta, mas não me faltam músicas a falar disso. Se a seguir à Tempestade vem a Bonança, a seguir à Bonança volta a Tempestade e por isso o próximo disco poderá ser mais “afiado” no aspeto lírico.

Como decorreu o processo de gravação desta vez? Onde e com quem gravaram?
O processo de gravação numa palavra foi: “Limpinho”. Gravámos com o Wilson Silva (More Than a Thousand) no WRecords na Quinta do Conde e contámos ainda com a preciosa co-produção do António Côrte-real (UHF e União das Tribos). Formámos uma boa equipa! O Wilson tem um método de trabalho inovador, bons ouvidos e acima de tudo sabe tirar proveito do material que tem. Entrámos em estúdio de mente aberta e totalmente disponíveis para as ideias que pudessem surgir. Foi como ir a conduzir uma viatura e de repente passar o volante a outra pessoa. As músicas estavam feitas mas a nível de som queríamos um novo caminho e por isso teria mesmo que ser alguém de fora a tratar disso. Isto pode ser arriscado mas também pode ser muito motivante e surpreendente (como foi). 

E voltam a apresentar um fantástico grafismo/artwork neste álbum. Arrisco dizer que já ninguém faz o que vocês fazem… Ainda é importante trabalhar este aspeto numa era do digital?
É importante quando não somos fruto dessa era digital. Sou designer e o aspeto das coisas tem sempre importância para mim, para além de ter crescido a folhear livrinhos de letras dos Cds ou Vinis das minhas bandas favoritas. Sei que irei morrer sem abraçar a “Era Digital”. Ela é apenas uma ferramenta que utilizamos para atingir os nossos objetivos e vou sempre tentar contrariar essa tendência para o produto virtual. Não é a minha ”praia”.

Sobrenatural marca também a vossa estreia na Rastilho Records. Como aconteceu essa ligação?
Ao fim de 4 discos estávamos ainda longe de alguns objetivos que tínhamos traçado e por isso estava na hora de mudar algumas coisas. A Rastilho parecia-nos ser a evolução lógica por ser uma editora Independente mas com uma presença muito forte no mercado. Isto para além de ter um catálogo cheio de nomes que admiro. Curiosamente no primeiro contacto que fizemos o calendário de lançamentos não permitia a entrada de mais uma banda mas eu enviei o disco na mesma e foi muito bom termos tido um feedback positivo. Isto significa que foi realmente o disco que fez a diferença. O que posso dizer hoje é que a Rastilho foi também um elemento fortalecedor da banda pois também elevou a fasquia do que fazemos. É uma editora muito profissional e a banda tem um maior nível de exigência.

Recentemente estiveram no Festival ∑nergeia. Como correram as coisas?
Termos um festival que se dedica exclusivamente à promoção de bandas nacionais de pequena/média dimensão é de louvar. Estas iniciativas têm de ser apoiadas. Em termos de público ficou um pouco aquém das espetativas mas é na primeira edição que se testam métodos de trabalho e se aprendem coisas para corrigir em eventos seguintes. No que diz respeito à organização, esteve 5 estrelas e as bandas estiveram todas em excelente forma! Grande ambiente e parabéns ao RCA Club pelas condições.

E agora… até onde podem ir os Gazua num futuro próximo?
Para já vamos espalhar sobrenaturalidade por esse país fora e depois vamos ouvir o que a nossa vontade tem para nos dizer e seguir isso à risca! Vamos existir sem stresses sem receios sem preconceitos e com muito amor à música!

Quanto a apresentações ao vivo, o que têm em agenda para os próximos tempos?
Dia 19 de junho tocamos no Festival InLagos em Lagos e dia 20 fazemos um Showcase na Fnac da Guia no Algarve. Depois no dia 4 de julho tocamos no Punknic no Parque Municipal da Moita. Em setembro tocamos no Porto e temos mais umas coisas a confirmar a 100%.

Obrigado João – como sempre dou-te a oportunidade de acrescentares mais alguma coisa.
Acima de tudo que intervenham em tudo o que se cruza nas nossas vidas. Estamos cada vez mais rodeados de Lixo mascarado de “produto de qualidade” e isso acontece porque consumimos e não analisamos. Este conceito aplica-se à música, à televisão, à política, à educação, à imprensa, etc… Ah, … e apoiem a música nacional!

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