segunda-feira, 6 de julho de 2015

Entrevista: Anthropia


Os Anthropia são um dos mais geniais coletivos dentro do espectro do power metal progressivo no velho continente. Aliás, a presença de nomes como Arjen Anthony Lucassen e Edu Falaschi no novo trabalho dos franceses é revelador disso mesmo. Após cinco anos de trabalho (não em exclusivo) surge Non-Euclidean Spaces, um trabalho conceptual influenciado pelo universo Lovecraft e aqui perfeitamente escalpelizado pelo mentor Hugues Lefebvre.

Viva Hugues! Obrigado pela tua disponibilidade! Podemos começar por apresentar os Anthropia?
Viva! Sim, claro. Anthropia é uma banda de metal progressivo de Nice (França), com: Nathalie Olmi (vocal), Yann Mouhad (guitarras), Julien Negro (guitarra baixo), Damien Rainaud (bateria), e eu Hugues Lefebvre (guitarra, vocais). As nossas principais influências são bandas como Symphony X, Opeth, Pain Of Salvation, Megadeth, Ayreon...

Podes contar-nos um pouco da história da banda?
Os Anthropia foram criados em 2003, e o primeiro álbum The Ereyn Chronicles Part One foi lançado como um projeto solo em 2006 via Magna Carta Records (EUA). Tornou-se então uma banda completa e criamos o nosso próprio selo Adarca Records para lançar o nosso segundo álbum The Chain Reaction em 2009. Depois de um álbum ao vivo unplugged em 2010 (Acoustic Reactions), regressamos agora com o nosso novo bebé Non-Euclidean Spaces, um álbum conceptual sobre Cthulhu Mythos.

Podemos dizer que Anthropia é mais do que apenas música, não é verdade? Anthropia é também um conceito?
Sim, realmente gostaria de ver os Anthropia assim. Hoje em dia, a maioria das pessoas ouve música da mesma forma como comem fast food: ouvem sem ouvir. Com os Anthropia, não tentamos ser a banda mais popular do mundo, apenas tentamos fazer música interessante e os melhores álbuns possível. Por isso, às vezes isso resulta em canções longas, que parecem complicadas à primeira audição e onde precisas estar focado para entender o que queríamos fazer. Mas eu gosto de coisas complicadas, daí o nome Anthropia. Do ponto de vista semântico, a palavra Anthropia é inicialmente um trocadilho com Anthros (homem em grego) e entropia, uma noção científica que ilustra desordem criada ao nível microscópico. Pensei que era indicativo misturar essas duas palavras, para mostrar que a humanidade pode, às vezes, ser uma fonte de caos.

De que forma esse conceito se reflete em Non-Euclidean Spaces, o vosso nosso trabalho?
Cada álbum de Anthropia contém uma parte deste conceito: estamos, de alguma forma, a organizar a nossa própria decadência. A humanidade pode fazer muitas coisas grandes, mas também é capaz de fazer o pior. Em Non-Euclidean Spaces, algumas seitas de magia negra tentam despertar os antigos deuses para trazer o Armageddon para a Terra. E adivinhem, eles não são alienígenas ou monstros... eles são simplesmente seres humanos! (risos)

Esta é, também, uma homenagem a HP Lovecraft, certo? Por quê?
Devo dizer que todos nós nos Anthropia somos grandes fãs de Lovecraft. Quanto a mim, li todos os contos, romances, joguei todos os jogos de tabuleiro, jogos de cartas, jogos de vídeo. Adoro aquela atmosfera de 1920, cheia de mistérios, magia e antigas profecias. Era óbvio para mim fazer um dia um álbum sobre este universo. Bem, está feito!

Non-Euclidean Spaces é um álbum conceptual, portanto, podes falar-nos de que se trata este conceito?
Seguimos Randolph Carter, de 50 anos de idade (um personagem recorrente de HP Lovecraft), que está bastante deprimido porque perdeu há muito tempo a sua capacidade de sonhar e viajar através das dimensões como costumava fazer durante a infância. Para ele, os culpados são as pessoas que ele conheceu durante a sua vida: todos eles foram muito terra-a-terra, cartesianos, e esmagaram o seu espirito «sonhador». Odeia-os por isso que é a fonte da sua misantropia. De qualquer forma, depois de décadas, ele finalmente recebe de volta as suas habilidades e voa para longe através de outras dimensões. Nesse meio tempo, seitas secretas em todo o mundo começam a unir forças para trazer de volta à vida grandes velhos (como Cthulhu). Apenas Randolph poderá fazer algo a este respeito, mas no seu estado, ajudar a humanidade significaria sacrificar-se a si mesmo. E ele pergunta a si mesmo se realmente a humanidade merece ser salva...

De que forma o artwork se relaciona com todo o conceito?
O artwork foi criado por David Demaret, um grande designer francês que já trabalhou com Cthulhu Mythos. Nele é visível uma paisagem não-euclidiana com um homem no meio de estruturas estranhas. Podemos supor que é Randolph Carter durante uma das suas explorações fora-deste-mundo. Poderás notar uma grande quantidade de referências a Cthulhu Mythos neste trabalho artístico, começando, naturalmente, com tentáculos em todos os lugares e um «sinal mais velho» na parte de trás do herói. Este é realmente um álbum para os fãs de Lovecraft, musicalmente e visualmente falando!

A música em Non-Euclidean Spaces é muito complexa, embora perfeitamente percetível. Como se desenvolve o trabalho de composição?
Primeiro li os contos de Lovecraft, tentando desta vez capturar os principais temas da sua obra. Foi um trabalho grandiosos, mas muito útil para criar o conceito e o tema de cada canção. Tive também muitas ideias que gravava no meu computador: pequenas melodias, riffs, truques… e tentei ver que ideia se encaixaria com cada música. Após esta etapa, tinha quase 10 rascunhos de músicas e apenas tinha que as terminar. Isso era o mais fácil porque o universo de Lovecraft ainda estava fresco na minha mente, portanto limitei-me a deixar a minha inspiração falar, acho eu (risos).

Assim sendo, quanto tempo trabalharam neste álbum?
Apesar de termos começado a trabalhar neste álbum logo após The Chain Reaction, em 2010, não posso dizer que tenhamos trabalhado nele durante 5 anos completos. Todos nós tivemos vários outros projetos para tratar e foi por isso que demorou tanto tempo. Mas sabes, estou muito feliz: acho que o tempo é necessário para compor boas canções. E é benéfico teres a tua própria editora: o álbum é lançado quando está feito! E não levando em linha de conta considerações comerciais.

Presenças muito notadas são as de Arjen Lucassen e Edu Falaschi. Como conseguiste a sua colaboração? Foi fácil convencê-los?
Há muito tempo que sou um grande fã de Arjen, e por volta de 2009, já lhe tinha perguntado se estava interessado em fazer uma aparição no The Chain Reaction. Infelizmente, nessa altura, não foi possível devido à sua agenda. Ele é uma pessoa muito ocupada como se pode imaginar! Portanto, desta vez, entrei em contacto com ele com bastante antecedência e depois de ouvir a demo de The Melancholy Of RC, ele aceitou ser o narrador em todas as músicas do álbum. Ele realmente é uma pessoa fantástica, muito bom e muito profissional, é claro! É uma honra tê-lo no álbum. Quanto ao Edu, foi um pouco diferente. Damien, Yann e eu somos grandes fãs dos Angra e quando Damien me disse que iria produzir o novo álbum dos Almah, disse-lhe para convidar o Edu para Non-Euclidean Spaces. Ele ouviu The Snake Den, gostou e aceitou o trabalho. Um grande agradecimento a ele também, é muito bom ter uma voz como a dele no álbum.

Mas contam com mais convidados, certo? Podes apresentá-los?
Pascal Allaigre é um herói da guitarra de Nova Caledônia e faz um solo em The Snake Den. Laurent Tardy toca a parte de piano em The Part Of Them In Me. Os dois são grandes amigos de Damien. Ele agora vive em Los Angeles como engenheiro de som e têm grandes contactos de todos os lados porque trabalha muito bem. Trabalhou para o novo álbum dos Fear Factory e para o próximo DVD dos Dragonforce!

Há algumas hipóteses de termos Non-Euclidean Spaces ao vivo? Têm algo planeado nesse sentido?
Nada está planeado se falarmos de um ponto de vista de live. É bastante complicado porque em termos geográficos estamos todos separados. Mas nada é impossível, por isso vamos ver. Este fim de semana filmamos algumas cenas para o primeiro vídeo do álbum. Muito trabalho em perspetiva, mas claro que ficaríamos contentes em mostrar o novo material aos fãs!

Muito obrigado, Hugues. Queres acrescentar mais alguma coisa?
De nada e obrigado pela tua entrevista. Queremos agradecer profundamente aos nossos fãs, é importante para nós ver que o álbum tem recebido um bom feedback. Isso justifica todo este trabalho! Vocês podem obter os nossos álbuns nas principais lojas na web: Amazon, CDBaby, Bandcamp... e na nossa própria loja em www.adarca.com/store. Felicidades!

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