quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Entrevista: Marco Antonio Blues Abuse

A sua alma está envolta numa áurea de blues. Mas nem sempre o blues o tem acompanhado nos mais diversos projetos por onde tem passado. Agora chegou a altura de soltar toda essa magia e deixar que a sua alma falasse por ele. Falamos de Marco António, atualmente nos punk rockers Chapa Zero e que ao mesmo tempo abraça o seu mais pessoal projeto até à data: Marco Antonio Blues Abuse, onde, como o nome deixa bem evidente, se envolve nos blues até às entranhas. 

Olá Marco! Tudo bem? Para começar podes falar um pouco do teu percurso musical até agora, sendo que, no global, é substancialmente diferente do que apresentas agora…
Olá Pedro. Antes de mais, obrigado pela oportunidade de conversarmos um pouco sobre este "monstrinho". O meu percurso musical enquanto "praticante do ofício" inicia-se nos princípios dos anos 90 com dois amigos (o Filipe e o Sérgio) numa banda chamada Speeds Of Ineck. Foi com essa banda que tive o meu "baptismo de fogo", i.e. o primeiro concerto, tinha eu 15 anos. Tocávamos (dizíamos nós) Heavy Blues, e já nessa altura havia a ânsia de fazer "este" som, ou algo parecido. Numa entrevista para um jornal da escola afirmámos que a nossa intenção era "misturar B.B. King com Megadeth". Só mais tarde caminhámos para o lado mais Heavy e "alternativo" e os Blues foram ficando um bocado para trás nas bandas onde fiz a minha aprendizagem. E foram muitas, mas por alguma razão, havia sempre qualquer coisa que falhava para se dar o salto: dinheiro, vontade, trabalho, essas coisas; e a dada altura dediquei-me também a um projeto totalmente diferente - uma tuna académica, neste caso a Inoportuna, com a qual escrevi e gravei um álbum e onde verdadeiramente  ganhei a minha "rodagem" em palco. Depois disso, andei um pouco à deriva até decidir fundar os Hëllfyre em 2008 - com o Filipe e mais dois amigos, o Luís e o André. E depois vieram os Uncle Albert (que até hoje não percebo porque é que terminaram) que me trouxeram até aos Chapa Zero. É basicamente isso.

Por via disso, quando decidiste que querias fazer um disco desta natureza?
Pela resposta anterior podem deduzir que os Blues são uma paixão de miúdo; apesar de gostar de diferentes géneros (não muitos...) de música, os Blues - elétricos ou acústicos - fazem parte do meu ADN musical, por assim dizer. Sempre tive o desejo de tocar este género de música e mesmo nos meus projetos anteriores a influência é inegável, se prestarem atenção. Decidi avançar com este trabalho quando os Chapa Zero se encontravam numa fase de adaptação, pois tinha entrado um novo (E EXCELENTE) baterista, o Nuno Amaro. Após poucas semanas de ensaio, decidi convidar o Nuno para fazer isto comigo pois precisava de um baterista "para ontem" e queria gravar o mais depressa possível; as respostas à gravação de um simples ensaio foram muito além das minhas expetativas e o que começou por ser uma sessão de estúdio apenas para eu ver como é que me saía a tocar e a cantar isto, acabou como um EP (Gunslinger Blues) produzido e mixado pelo Senhor Emanuel Ramalho.

E já que falamos desta natureza, convém esclarecer os nossos leitores a que “natureza” nos referimos. Como descreves este teu EP?
É um disco que tenta homenagear este género de música, não imitando o que veio antes. Os meus Blues não são os do Skip, do Son, do BB ou do Muddy. São os meus Blues. Penso no disco como uma gravação que podia ter sido feita nos anos 20, 30 ou 40, mas com acesso às tecnologias mais modernas. E com modernas quero dizer guitarras elétricas, amplificadores e pedais de efeitos. E claro, como é óbvio, tenho outras influências fora dos Blues- Sabbath, Hendrix, MC5, Motörhead, Ramones, Sleep, etc, etc. Gostem ou ponham de lado. Há espaço para tudo.

Este é um disco feito totalmente em solitário ou não?
No que toca à autoria dos temas, sim, sou o autor ´"solitário" das músicas e letras. Mas cada um dos bateristas que gravou comigo trouxe o seu "estilo" e isso fica marcado em cada canção.

O Emanuel Ramalho participa na bateria em dois temas. Porque apenas em dois temas?
O Nuno foi a primeira pessoa com quem falei para gravar, só depois de os 3 primeiros temas estarem "arrumadinhos" é que surgiu a oportunidade de gravar mais. Daí a ter convidado o Emanuel foi um salto. É uma Honra Enorme estar num disco com este cavalheiro. Não me canso de o repetir.

E pode ser considerado como o teu projeto mais pessoal até agora?
Sem sombra de dúvida. Isto sou "Eu em versão CD".

Como foi todo o processo de composição e gravação?
Muito rápido e fácil. As 3 primeiras músicas apareceram "do nada" numa semana e o resto já eram coisas com as quais eu andava a "brincar" há anos. Quando o "processo exterior à música" se demorou mais um pouco e surgiu a oportunidade de gravar mais 3 temas, foi tudo muito rápido, novamente.   

A capa do EP está espetacular. Parabéns! Quem foi o autor? Conseguiu captar toda a envolvência do disco…
O nome dele é Josh Deck (@grendeljd), um amigo canadiano. A ideia vinha de um conceito (o MAC-77) que eu tinha para uma BD "a escrever um dia", e ele genialmente transformou isso naquilo que podem ver. Acho que está absolutamente brutal, mas se calhar sou suspeito...

E agora, Marco… O que se segue quer em termos de MABA quer de Chapa Zero?
Os Chapa Zero encontram-se de momento a acabar o segundo disco, que está praticamente escrito. É uma questão de aguardarem. Pelas reações que vamos tendo estamos a escrever os nossos melhores temas, por isso esperem só mais um pouco. Nós não desistimos. Quanto aos Blues Abuse ou MABA (conforme preferirem) tenho muito material "à espera" para ser escrito, e os próximos tempos ditarão o andar da carruagem. Por enquanto, não posso dizer mais.

Mais uma vez obrigado! Queres acrescentar mais alguma coisa?
Aos leitores do Via Nocturna: Obrigado por me emprestarem a vossa atenção e os vossos ouvidos. Ouçam Blues a sério e descubram a magia de senhores como Robert Johnson, Albert King, Willie Dixon, Charlie Patton, Big Bill Broonzy, Blind Willie Johnson, Son House, Skip James, Freddy King, Muddy Waters, Bukka White, Howlin' Wolf, John Lee Hooker, Lightnin' Hopkins, BB King, etc, etc, etc. E respeitem-se uns aos outros. 

1 comentário:

Paulo Martins disse...

Grande feeling presente no que eu conheço desse trabalho. Sucesso é o que eu desejo ao Marco e aguardo ansioso por "ouver" isso em palco.
Felicidades para os fazedores do "Via Nocturna"... serão sempre poucos todos os que de alguma maneira apoiam a música nacional alternativa.