segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Entrevista: Blurred Vision

Começar uma carreira com o patrocínio de Roger Waters deve ser um sonho tornado realidade para qualquer músico. Aconteceu com os Blurred Vision que, curiosamente, só surgiram como banda após o lançamento de Another Brick In The Wall. Mas este trio composto por dois irmãos iranianos, que se formou no Canadá e agora está sedeado em Londres não se iludiu com essa bênção e trabalhou sério num álbum – Organized Insanity – de grande qualidade, como o demonstra as quatro nomeações para os Grammy’s. Sepp Osley, um dos irmãos, mostrou-nos como o rock pode servir para transmitir mensagens de paz e tentar unificar um mundo em permanente convulsão.

Olá Sepp! Obrigada por nos concederes esta entrevista! Importas-te de nos falar um pouco sobre a história dos Blurred Vision até agora?
O prazer é meu. Bem a história da banda é certamente rica em conteúdo, mas vou tentar condensar num resumo. Lançamo-nos em 2010 aquando do nosso remake do icónico Another Brick In The Wall 2 dos Pink Floyd que se tornou um hit viral, bem como um grito de guerra para a liberdade para a juventude do Irão. Chamamo-la de Hey Ayatollah Leave Those Children Alone em apoio à revolta da juventude que ocorreu em 2009/2010 naquele país, protestando contra a fraude das eleições da altura. O vídeo tornou-se global e, naturalmente, nós ganhamos a amizade e apoio de um de nossos grandes heróis Roger Waters. Essencialmente, foi assim que os Blurred Vision nasceram. Fomos empurrados para o centro de um grande movimento político e social, bem como nos tornamos uma nova banda Rock 'N' Roll com algo para dizer - com um propósito. O vídeo, realizado pelo aclamado cineasta Babak Payami, ganhou vários prémios e elogios em todo o mundo e foi nomeado um dos 100 melhores vídeos pop mais influentes de todos os tempos de pela The Art Of Pop Video da Televisor. Mais tarde, em 2010, conhecemos o nosso baterista Ben Riley e trabalhamos incansavelmente para chegar ao ponto em que estamos agora com o nosso álbum de estreia. Tivemos a sorte de estar presentes em alguns concertos e ocasiões históricas entre o momento do lançamento do nosso álbum de estreia, como sendo a única banda canadiana convidada para se apresentar no The Beatles 50th Anniversary Concert in New York City realizando no World Pride onde dois milhões de pessoas se reuniram, tornando-nos os embaixadores da associação de caridade sedeada em Nova Iorque WhyHunger, juntando-nos a ícones como Bruce Springsteen, Jackson Browne e Carlos Santana na luta contra a fome e a pobreza.

O que vos motivou a erguer esta banda?
O imenso poder e força do Rock 'N' Roll para mudar o mundo! Quero dizer, não foi só pelos clichês das festas, meninas e fama. Esse charme perde-se rapidamente e é melhor ter boas razões para te manter ativo, caso contrário vai-se queimar-te e desaparecer.

O facto de terem sido apoiados por Roger Waters no início da vossa carreira tornou o vosso caminho mais fácil ou com mais responsabilidade?
Bem, seguramente que contribui para uma boa maneira de quebrar o gelo. Mas nós não pensamos nisso como tendo posto mais pressão sobre nós. Acho que conseguimos fazer isto por nós próprios e não ser apenas mais uma banda de homogeneizada forma de pop. Desde o inicio que deixamos bem claro que estávamos aqui para dizer coisas que iam ser polémicas para alguns, mas unificantes para muitos outros, especialmente a nossa geração e os jovens do mundo que acho que têm sede de uma banda como a nossa.

Como aconteceu esse apoio?
Quando regravamos Another Brick... enviamo-la para Roger e recebemos a sua bênção! Essa foi a primeira parte que precisávamos porque não queríamos lançar nada sem o seu consentimento. Depois disso tivemos o seu apoio para o que estamos a tentar fazer e que continua até hoje. Ele sabe que nós somos da mesma têmpera daqueles que olham para cima e foram inspirados para usar a música como uma ferramenta para a Paz. Estamos incrivelmente agradecidos e motivados por termos Roger Waters a apoiar-nos nas nossas vidas e na nossa própria viagem musical, não só como uma inspiração musical mas também filosoficamente.

Porque a vossa saída de Toronto para Londres? Procuravam alguma coisa em particular?
Para ser honesto e num determinado sentido, Londres sempre foi a nossa casa longe de casa. Lançamo-nos em Londres em 2010 e essa cidade sempre foi muito querida para nós, pelo que evoca e encarna. Crescemos com a música e cultura britânicas de forma que vir para aqui fez todo o sentido para nós, especialmente com o lançamento do álbum de estreia e tudo o que se seguiu.

Organized Insanity é a vossa estreia, cinco anos após o nascimento como banda. Tempo suficiente para as músicas se desenvolverem e transformarem na verdadeira obra de arte que são. Suponho que nunca sentiram qualquer tipo de pressão…
Descobrimos muitas coisas neste intervalo de 5 anos, mas também temos estado bastante ocupados com o crescimento da banda. Nunca quisemos lançar o nosso álbum de estreia só por lançar. Queríamos ter certeza de que tudo estava pronto e - mais importante - que nós estávamos prontos. Para nós demorou tanto tempo a construir porque queríamos um nome que tivesse história e que os fãs pudessem absorver e envolver-se. Agora, por causa dessa decisão, o futuro vai mover-se a um ritmo muito rápido para o grupo mas estamos totalmente prontos para isso.

Podemos ouvir diferentes cenários na vossa música, mas, um dos mais intrigantes e emocionantes são as influências do Oriente Médio. Naturalmente, o facto de tu e o teu irmão serem iranianos acaba por influenciar. Representam memórias da vossa terra natal?
Se olhares para a música popular e particularmente a partir dos anos 60, os ritmos e melodias do médio oriente e indianos foram muitas vezes experimentadas. Os Beatles são um nome fácil de escolher, mas certamente a lista continua com Led Zeppelin, Pink Floyd e tantos outros. O Extremo Oriente é uma terra antiga, com sabedoria antiga e conhecimento e cultura que nos atrai a nós, ocidentais. É claro, esquecendo o estado louco dos dias de hoje com esses fanáticos religiosos a comandar. Mas debaixo dessa camada fina da superfície encontra-se um mundo de imensos prazeres místicos e míticos. A Pérsia é antiga, muito antiga, e ter nascido lá e ter essa ascendência a correr no nosso sangue, definitivamente dá-nos muito mais credibilidade para usar as melodias e ritmos antigos e essa mistura de dois mundos sai muito naturalmente em nós.

E uma canção como No More War está relacionada com os problemas associados ao teu país?
Não! No More War é exatamente isso, uma exigência que nós, como comunidade global, fazemos. Parar de bombardear e matar pessoas! Para ser muito franco, nós não somos do tipo de termos a nossa mão nos nossos corações onde nascemos, crescemos ou vivemos. Vemo-nos como cidadãos deste planeta, o grande conjunto azul, muito verde, e queremos usar a nossa música para unificar o mundo e derrubar os muros e fronteiras que nos separam uns dos outros.

Por que um título como Organized Insanity? Tem algum significado especial?
Organized Insanity foi escolhido porque é uma frase que representa perfeitamente o mundo em que vivemos. Num momento pode tudo desmoronar-se e ainda assim achamos que está tudo organizado e no seu devido lugar. Na realidade, o título não se aplica apenas ao mundo político/social em que vivemos, mas também às nossas vidas pessoais, a forma como tentamos equilibrar a loucura do nosso dia-a-dia. Seja no amor, na família ou nos empregos, tudo é caótico e nós de alguma forma tentamos manter isso "organizado".

Voltando ao single digital de 2010, Another Brick In The Wall onde fizeram referências ao Ayatollah. Como foi a sua aceitação? E tiveram alguns problemas ou não?
Bem, como já referi alguns detalhes desse lançamento nas perguntas anteriores, vou só dizer que a receção foi tão boa, que deu à luz esta banda e não, nunca tivemos quaisquer tipo de problemas.

Quanto a concertos, recentemente abriram para os Uriah Heep. Como foi essa experiência?
Foi fantástica! Não há nenhuma outra palavra para isso a não ser um monte de sinónimos. Vivemos um bom momento não só por tocar no mesmo palco dos Heep como também pelos seus fãs que são muito difíceis de agradar e é melhor estares ao teu melhor nível para os conquistar. Foi uma explosão fazer isso todas as noites e iríamos de cabeça para a estrada com os Heep a qualquer momento, em qualquer fase da nossa carreira o que pode significar que eles possam abrir para nós numa próxima vez!

Quais são os vossos projectos quer pessoais, quer para a banda para os próximos tempos?
Estamos a preparar uma longa tournée para promover o álbum de estreia. Deveremos fazer isso durante pelo menos mais 6-8 meses antes de entrar em estúdio para gravar o segundo álbum, coisa sobre a qual estamos muito animados!

Muito obrigado Sepp. Tudo de bom para vocês! Queres acrescentar mais alguma coisa?
Obrigado, muito obrigado pela entrevista e pelo tempo que despendeste connosco. Estamos ansiosos e esperançados de poder ir a Portugal em breve para tocar para os fantásticos fãs portugueses do rock. 

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