sexta-feira, 25 de março de 2016

Entrevista: Dona Elvira

Assim de repente somos assaltados por um estranho nome (para rock, naturalmente), totalmente desconhecido – Dona Elvira. Um conjunto de músicos experientes, oriundo dos mais diversos quadrantes juntou-se para criar a primeira grande sensação do rock nacional deste ano. Naturalmente, quisemos conhecer melhor as histórias e segredos que envolvem esta nova e excelente proposta nacional.

Olá, tudo bem? Quem são os Dona Elvira e como surgiram?
Está tudo ótimo, bem dentro do espírito Dona Elvira. Fazemos por estar sempre bem, é esse espírito que nos carateriza enquanto banda! Somos cinco músicos bem-dispostos com uma paixão pela música comum a todos mas que adquiriu um sentido especial quando nos juntámos os cinco para tocar, criou-se uma mística qualquer que se tornou muito forte. Decidimos chamar-lhe “o espírito Dona Elvira” e tem sido “a nossa frase” de explicação para tudo de bom que nos está a acontecer.  Surgimos em 2014 como banda de covers a convite do Francisco Durão (teclados). Fomos tocando aqui e ali mas interpretávamos os covers de tal forma que nos íamos afastando cada vez mais dos temas originais até que pouco tempo depois o Tiago Caldeira (guitarras) sugeriu passarmos para originais. O Paulo Lawson (vocalista), do nada, diz que já tinha pensado nisso e que já tinha trabalho adiantado apresentando um sem fim de letras! O António Oliveira (bateria) e o Sérgio Martins (baixo) fecharam a secção rítmica e nunca mais olhámos para trás. Foi compor até ao Verão de 2015 quando começámos a gravar.

Sendo que já todos tiveram diversas experiências, como se proporcionou esta junção?
Essa é a parte gira. Já todos andámos por estilos muito diferentes, da música tradicional portuguesa ao rock puro passando pelo punk, todos trazíamos uma bagagem totalmente diferente uns dos outros e a curiosidade de cada um por essas mesmas diferenças acabaram por nos juntar. E depois foram as composições. Começaram por ter ingredientes de muitos estilos e isso mexeu connosco. Não só era óbvio que iríamos tocar juntos como acabou por ser o elemento que distingue os Dona Elvira, tudo entrelaçado para atingir o que queríamos desde o início: fazer rock português e em português.

E porque um nome tão peculiar como Dona Elvira?
Foi o Francisco. Cada um começou a propor ideias para nomes, mas como cada ideia vinha fortemente influenciada pelas nossas raízes musicais individuais, nenhum nome estava a definir bem o que estávamos a criar. E nisto o Francisco sai-se com Dona Elvira. Todos gostámos. Todos visualizámos uma Dona Elvira qualquer e ficou. Há malandrices nas mentes de alguns, ou de todos!

Histórias e Segredos é nome do vosso trabalho de estreia. Que histórias e segredos, efetivamente, nos querem contar?
As histórias são como fotografias daquilo que toda a gente sente quando pensa que se apaixona e quando percebe que afinal não se apaixonou assim tanto, ou quando ama mas não é correspondido, ou quando sonha com qualquer coisa mas afinal não era bem o que ambicionava, ou quando o sonho se torna realidade e é muito mais do que se poderia imaginar… São alegrias e vitórias e uma ou outra derrota… são pessoas, somos todos nós, és tu também, é toda a gente porque todos nós de uma forma ou outra passamos pelas mesmas coisas e o que sentimos não é assim tão diferente do que as outras pessoas sentem. Os segredos são malandrices inocentes. São coisas que todos fazemos e que não contamos a ninguém mas que tantas vezes, do nada, saltam-nos à cabeça e automaticamente damos por nós a sorrir e só nós sabemos porquê, mais ninguém. E isso é bom!

E, na vossa opinião, a melhor forma de contar essas histórias e segredos é exclusivamente em português?
Sim, tem que ser em português. Isso ficou definido desde o início. A nossa língua é muito expressiva, transmite muito bem sentimentos. E nós todos também nos sentimos muito portugueses e quisemos que a nossa música também fosse muito portuguesa. Por isso é que fomos brincando sem preconceitos com as géneses do rock português e remexer tudo até conseguirmos a nossa sonoridade!  Achamos que a música e a língua juntas são um património cultural que é apreciado por cá mas não só; é importante manter.

E musicalmente não é um disco linear. Como se fundem os vossos diferentes backgrounds musicais no estilo Dona Elvira?
Pois! Lá está. Há um grande entrelaçar de estilos. Todos contribuímos com ideias quando estamos a compor. Invariavelmente, surgem imensas ideias influenciadas pela experiência musical de cada um, seja como músicos ou como ouvintes, e depois trabalhamo-las até se fundirem e soarem a algo que nos emociona e faz-nos passar para os pormenores e se torna vincadamente rock português. Se não emociona e se começa a soar a pouco português, vai para a gaveta. Por isso é que há temas que puxam mais para o Rock melódico, outros para o alternativo, e outras são de acentuado cariz folk punk, tudo debaixo do chapéu do rock. E a julgar pelo que está a ser trabalhado para o segundo disco, parece que assim se vai manter. E ao vivo funciona lindamente.

Um estilo assumidamente rock. E aquele rock que se convencionou chamar de rock português. Acaba por ser o que melhor vos identifica?
Sim, sem dúvida. Gostamos de brincar com “portuguesices” do passado e da atualidade. Neste disco há muitas pistas disso mesmo, a tal Elvira que veio do interior para Lisboa, a resposta ao saudosismo com o tema Recomeçar, a mensagem (dura) do Nada Muda Num Instante, a marota da Mondadeira… tudo englobado numa sonoridade rock, onde todos nos revemos. A conjugação destes elementos é sem dúvida o que melhor nos identifica.

Referiram numa entrevista recente que o rock está a voltar em força. Sentem mesmo isso? Pergunto isso, porque em Portugal continua-se a não se apostar nos valores sérios em detrimento de muito lixo. O que têm a dizer a este respeito?
Escolhemos o nosso caminho e mantivemo-nos sólidos. Começámos a tocar ao vivo fomo-nos dando a conhecer devagar, e aí começa a surpresa! Começámos a perceber que havia uma certa fome de rock, até de públicos de outros géneros que inesperadamente nos cumprimentavam precisamente por estarmos a tocar rock. Nós todos enquanto banda percebemos as modas, ora mais para aqui, ora mais para lá, agora uma cena a todo o vapor que depois desaparece e dá o lugar a outra, mas o rock é tão transversal… e está sempre presente. Dizemos com total convicção, neste nosso percurso percebemos que há muito espaço para o crescimento do rock em Portugal, as pessoas querem. Deve ser um dos poucos estilos que não rouba espaço a outros géneros, convive bem, os players da indústria não devem ter receios. E é giro quando as pessoas percebem que os Dona Elvira são mesmo aquilo que se imagina ser uma banda rock, 5 tipos a compor juntos fechados em estúdio, a passar por histórias inacreditáveis juntos, a viverem aventuras que as pessoas acham que é só nos filmes das bandas lendárias… Não é nada, isso existe, e nós fazemos parte dessa escola. O público gosta disso. Marca uma certa diferença face à atualidade. Sabes porquê? Porque é rock!

Já há novidades a respeito da apresentação deste álbum ao vivo?
Já começa a haver novidades. É o que dissemos antes, talvez contra algumas expetativas, o público quer rock e temos sido contactados por vários pontos do País. Mas não vamos perder a cabeça e deitar ao chão um estratégia que está bem definida. Lançámos o disco em versão digital, passadas duas semanas estávamos no TOP 50 nacional, pouco depois a nossa editora informou-nos que estamos no top do ranking do Spotify, o iTunes deu-nos um destaque inesperado… Portanto, a nossa música está a passar! Brevemente lançaremos o CD em formato físico, estamos bem acompanhados por profissionais que nos deixam muito confortáveis e chegámos àquele ponto que nos podemos dedicar a tocar e deixar esta gente maravilhosa que nos rodeia fazer o seu trabalho. Sem querer levantar muito o véu, em abril vamos começar a aparecer muito mais…

E para o futuro, que projetos estão previstos para os Dona Elvira?
Para já estamos muito concentrados no Histórias e Segredos e estamos a apreciar toda a máquina que entretanto se foi montando à nossa volta. Isto também foi giro, assim de repente percebemos que já não somos só cinco, a família Dona Elvira agora conta com imensas pessoas, cada uma com uma função específica e todas a trabalharem para objetivos comuns. Isto é mesmo giro, estamos mesmo a gostar de ter sempre pessoas à nossa volta, mas também sabe bem voltar ao estúdio, só os cinco, e tocar só por tocar e do nada um de nós gritar GRAVA, GRAVA, ESTE VAI PARA O PRÓXIMO DISCO!!! É táo bom!

Mais uma vez obrigado. Querem acrescentar mais alguma coisa?
Queremos sim. Queremos agradecer-te muito. Por esta entrevista mas por todas as entrevistas que fazes e por todos os reviews a todos os outros músicos. Há muito boa música em Portugal que merece ser apreciada e dada a conhecer. É cultura, é diversão, é um modo de vida, é música! É preciso ter consciência que sem quem escreva sobre o que há de bom por aí, há o risco de coisas boas não serem ouvidas. Portanto, o obrigado somos nós que te damos ti e à Via Nocturna.

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