segunda-feira, 21 de março de 2016

Entrevista: Micha Schellhaas



 

Musicalmente formado na Holanda, Micha Schellhaas desde sempre contactou com a cultura musical dos EUA, embora só há três anos se tenha mudado definitivamente para LA. O gosto pelo blues ficou-lhe de um concerto do saudoso BB King, por isso também uma homenagem ao grande mestre. Mas deste seu gosto pelo blues surgiu o seu primeiro longa-duração, Double Take, construído com uma base de grandes músicos. E foi, precisamente, devido a esse lançamento que fomos conhecer melhor a pessoa e o músico.

 

Olá Micha! Obrigado pela tua disponibilidade! Tendo a tua carreira começado na Europa, o que te fez mudar para Los Angeles?

Ola! Obrigado pela entrevista! Eu vivia em Amsterdão e há cerca de 8 anos atrás comecei a viajar para os EUA, e um dia, simplesmente, não voltei mais! Gostei da música e da cena musical europeia, mas artisticamente sempre me senti mais atraído pelos sons dos EUA. Passei muito tempo em Austin/Texas que tem uma cena muito ativa de blues e Indie Rock. Também visitei a Califórnia várias vezes até que finalmente me mudei para LA. A área é grande e há muita música aqui. LA tem uma grande cena de músicos e alguns estúdios de gravação lendários, e muitos negócios acontecem ou são planeados aqui. Consegui gravar com músicos de topo e agora encontrei dois músicos muito inspiradores para o meu trio que está a começar a sair. Acho que LA é simplesmente um dos melhores lugares para se ser músico, e consigo encontrar muita gente com o mesmo pensamento por aqui.

 

Como se desenvolveu a tua carreira na Europa?

Estudei guitarra no Conservatório de Arnhem, na Holanda. Isso foi um grande momento e deu-me a oportunidade de praticar bastante e construir uma rede que me viria a apoiar quando terminei. Depois mudei-me e toquei bastante em Amsterdão: com DJ’s, shows de jazz, festivais, também bastante pop e até mesmo música rock, mas nada de blues quando em comparação com os EUA. Também geria um estúdio de gravação com alguns parceiros e trabalhamos com uma variedade de clientes. Nessa altura aprendi algumas técnicas de engenharia e produção que acabariam por me beneficiar. Além disso, sempre guardamos um espaço interessante para os nossos próprios projetos e produções.

 

Há quanto tempo vives em Los Angeles? Como foi a adaptação a essa cidade?

Faz agora 3 anos! A cidade dita-te um certo estilo de vida que vais ter de aceitar - como ter que lidar com o trânsito! Mas esta cidade dá-te muitas oportunidades e permite-te conhecer muitas pessoas com a mesma forma de pensar. Fazer este mais recente disco Double Take e o EP Wings Of Fire em 2013 foi, definitivamente, uma experiência que me mostrou que vir para aqui foi a decisão certa. É uma cidade louca, mas ao mesmo tempo há muitos músicos, engenheiros, fotógrafos talentosos... há muita arte. Tive a sorte de ter feito alguns excelentes conhecimentos aqui nos primeiros anos.

 

De qualquer forma, Double Take é o teu primeiro álbum. O resultado final é o que antevias?

Sim, estou muito feliz com isso! Fui capaz de elevar as minhas composições e a minha forma de tocar a um nível elevado e gravei com verdadeiras lendas em estúdio. Carl Verheyen (o produtor) é um dos melhores guitarristas de Los Angeles que tem feito intermináveis horas de gravação nos estúdios mais lendários de toda a cidade. Tanta experiência ao teu lado ajuda muito. Senti que tive o melhor suporte possível e contei com músicos inspiradores como Chad Wackerman (bateria, Frank Zappa) me fez tocar ao meu melhor nível. A confiança e as circunstâncias reuniram-se para tornar isso possível e tenho certeza que nos próximos anos de estrada me irei manter a explorar este álbum. As músicas são fixes e a banda toca-as de forma bela. Nunca tive uma imagem clara de como um primeiro disco seria, mas este foi muito doce!

 

De facto, trabalhaste com grandes músicos. Como se proporcionou a sua entrada nesta gravação?

Foi o produtor Carl Verheyen quem os trouxe. Primeiro foi para o EP de 2013, e como correu muito bem mantive os contatos e tentámos ter todos de volta para as sessões de gravação de Double Take. Jim Cox teve de sair em tournée com Mark Knopfler e Chad Wackerman era suposto ainda estar na Europa, mas no fim, encontramos datas para as gravações que fizessem isso acontecer.

 

Podes falar um pouco sobre o processo de gravação? Houve muitas jams e improvisações?

Trabalhamos muito certinho. Trouxe pautas, música para todos lerem. Eu tocaria as peças principais para a banda na sala de controlo para todos tirarem as suas notas. Tocamos as músicas um par de vezes antes de começar a gravar. Foi ótimo poder observar que estes eram todos velhos amigos que tocam juntos. Todos vieram com a ideia de fazer tudo muito rápido. Todos trouxeram ideias para a mesa e fizemos, de forma espontânea, algumas grandes mudanças as músicas o que fez com que o álbum soasse realmente a “banda”. Durante a gravação, toquei as partes de guitarra para os guiar através da música e, mais tarde, viria a substituir a maioria dessas partes com novas camadas de guitarra. Toquei com guitarras diferentes para os ritmos e solos e marquei os sons com muito cuidado, juntamente com Carl. Todos os solos são improvisados, por isso cada novo take foi uma nova aventura. Depois, estive alguns dias com Carl a fazer overdubs e a gravar algumas guitarras acústicas, um bandolim, uma guitarra de 12 cordas… Também temos um verdadeiro Leslie rotating speaker de um órgão Hammond e gravamos as guitarras através dele. Montes de diversão!

 

O título Double Take é alguma brincadeira ou está, realmente, relacionado com as sessões de gravação? Gravaram em dois takes?

O termo double take também se aplica quando se vê uma pessoa bonita na rua. Essa pessoa passa e quase instintivamente tens tendência a virar a cabeça para veres melhor. Espero que a minha música seja um pouco assim e que inspire o ouvinte a procurar uma audição mais atenta. Também representa a jovialidade da vida penso eu, ou o facto de algo bom cruzar o teu caminho e tu teres de parar por um segundo para o verificares.

 

Suponho que a última canção seja uma homenagem a BB King. De que forma ele foi uma influência para ti?

Na verdade, o primeiro espetáculo que vi ao vivo foi um de BB King na Alemanha! Fiquei na frente e mal podia acreditar! Estava bom tempo para o ver tocar e ele era um grande performer de blues. Depois do concerto autografou o meu bilhete e deu-me a sua palheta. Foi nesse dia que entrei no blues! O bilhete e a palheta ainda estão expostos no meu estúdio. BB faleceu durante as gravações de Double Take e pensei que a gravação deste tributo no meu primeiro álbum faria um bom círculo completo.

 

Já que estamos a falar de canções, qual o significado de um título como 5 & 6?

Ha, essa é uma boa! O medidor da melodia é 5 e 6, o que significa que não tens que contar 1-2-3-4, mas começas no 5 e depois o 6 para entrar no ritmo. Isto é um bocado absurdo mas origina um título porreiro para uma música.

 

E quanto a apresentações ao vivo: será fácil gerires uma agenda dos teus companheiros de gravação, que deve ser muito preenchida, ou irás apresentar-te com outro line-up?

Para tocar ao vivo acabei de constituir o meu novo trio. Os músicos de estúdio têm o estatuto de lendas e quando se trata de tournées, as agendas são difíceis de conciliar e também não poderia oferecer a grandeza dos espectáculos a que estão habituados. Mas descobri dois inspiradores e assustadoramente bons músicos para o meu trio. Tocamos o material do disco e estou a ter uma grande prazer em tocar com eles. Eles também contam 5 e 6, portanto não há problemas! Agora a sério, estou muito feliz de os ter comigo a apoiar-me e estou ansioso para tocar mais ao vivo este ano.

 

Obrigado por esta entrevista Micha e dou-te a oportunidade de acrescentar algo mais…

Bem, mais uma vez obrigado por me entrevistares e pelo interesse na minha música! Espero que as pessoas vão ao meu site e me sigam no Instagram e Facebook. O trio será muito divertido e estou a postar regularmente novas gravações de vídeo e som. Rock on e cumprimentos desde a Califórnia!

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