sexta-feira, 3 de junho de 2016

Entrevista: La Chanson Noire

Quarto álbum de originais para um dos mais geniais projetos nacionais, os La Chanson Noire. Charles Sangnoir, mentor do projeto, chegou a considerar a hipótese do seu fim, mas felizmente isso não aconteceu e Evergloom pode ser considerado o seu disco mais intenso. Já não conversávamos com Charles desde o álbum de estreia, Música para os Mortos, pelo que havia muitos temas a abordar. Aqui fica.

Olá Charles, tudo bem? Curiosamente, a última vez que tive oportunidade de te entrevistar foi, precisamente, no teu álbum de estreia com La Chanson Noire. Já estás no quarto. E pelo meio a notícia que La Chanson Noire terminaria. O que te fez mudar de opinião?
Olá Pedro, é sempre um prazer poder trocar algumas palavras contigo! Houve uma conjugação de fatores, tanto para eu considerar dissolver o projeto como para, mais tarde, decidir não acabar com Chanson. Na verdade, o projeto esteve parado durante seis meses e sem intenção de retorno; são essencialmente questões de ordem motivacional. Todos os artistas, em determinado ponto, querem mudar de rumo e experimentar coisas novas e foi o que me aconteceu, mas a certa altura o chamamento foi demasiado grande e tive que voltar aos discos de Chanson. É uma coisa maior do que eu, tem vida própria, e esse pequeno monstro pediu para voltar a abrir as asas, felizmente.

Quanto a este álbum, como o analisas numa forma evolutiva do teu processo criativo?
Acho que é uma mostra do meu percurso enquanto músico e enquanto compositor - penso que é um disco mais limado, mais refinado, mas também um disco mais intenso e amadurecido.

Em termos instrumentais, voltas a assumir praticamente tudo que é instrumento com exceção da bateria…
É de resto habitual: tenho o meu próprio estúdio e sei como quero que as coisas soem, por isso, tendo um nível de execução decente em vários instrumentos é normal que acabe por gravar tudo e depois ir em busca de outros artistas que possam dar outro colorido aquilo que está já feito...

E esses acabam por ser elementos que, realmente, acrescentam algo de novo ao disco…
Exacto. Neste disco conto com a colaboração das vozes da Ana Ferrão e da Patrícia Andrade (Sinistro) e com as guitarras de Phil Mendrix e M-pex, para além do Diogo Beleza e do Ramon Galarza na bateria. É como falávamos há pouco: são artistas que respeito e cujo contributo valorizo imenso, para além de termos uma relação pessoal que torna todo o processo de gravação muito mais íntimo e inspirador.

No entanto, parece-me haver um cuidado mais apurado na criação de harmonias e melodias. Acho que estás com uma musicalidade mais apurada. Ainda assim, uma musicalidade cada vez mais negra. Concordas?
Sim, concordo - neste disco não houve necessariamente uma busca nesse sentido, mas todo um conjunto de experiências que ajudaram a construir esta sonoridade: foi como um exorcismo, digamos. Fiz essencialmente aquilo que senti que tinha que fazer e expulsei os demónios que tive que expulsar. O resultado nem sempre é o mais coerente ou simpático mas é sem dúvida o mais autêntico.

Em termos líricos, continuas a ser o mesmo politicamente incorreto?
Nunca fui de meias palavras e quando tenho algo para dizer, faço-o, seja em canções ou não. Não é por necessidade de chocar ou ser politicamente incorrecto, é mesmo por uma questão de honestidade para comigo e com o meu público...

Mas, a portugalidade também aqui está presente. Como te surgiu a ideia de incluir guitarra portuguesa num tema como Marinheiro de Aguardente?
A guitarra portuguesa tem surgido em quase todos os discos de Chanson, faz parte do meu imaginário, embora neste tema pedisse para ser a principal protagonista; na altura em que estava a trabalhar no tema tive a ocasião de conhecer o M-Pex e a química que se gerou tornou óbvia a escolha!

Já agora há algum tipo de ligação entre os conceitos temáticos abordados nos diferentes temas?
Há uma série de pequenas ligações esotéricas entre os temas, mas gostaria de deixar essa descoberta aos ouvintes mais atentos ou dados a esses assuntos, mas posso adiantar um pequeno detalhe: cada tema do disco corresponde a um signo do zodíaco.

O disco está fantástico a todos os níveis, mas daí a ideia genial da inclusão de um baralho de tarot. Como surgiu essa ideia?
Bom a verdade é que estudo ciências esotéricas há muitos anos, e quem me é mais próximo sabe que dou consultas de astrologia e tarot. Inclusive, tive já a oportunidade, aqui há uns anos, de fazer uma exposição de pintura relacionada com o tarot. Eu até tinha ideia de lançar o disco num formato mais comedido, embora goste sempre que os meus discos sejam editados em formatos diferentes. A ideia do tarot surgiu do meu editor, o Daniel Makosch, que puxa sempre por mim e me inspira a fazer coisas mais bonitas e complicadas.

Explica-nos aquela ideia da inclusão de um tema escondido lá para trás, depois de uma vintena de faixas de silêncio?
É uma faixa que adoro, uma música que para além de extremamente bela, teve um impacto sociocultural bastante importante, pois foi gravada numa altura de tensão racial nos Estados Unidos, e ajudou de certa forma a levantar a bandeira dos direitos humanos. Está como faixa escondida pois não fazia parte diretamente do conceito do disco - é como um pequeno bónus, um pequeno tesouro escondido.

A teatralidade e a fantasia continuam muito presentes, embora me pareça que o grotesco esteja mais esbatido. Percebi bem?
A essência continua a mesma, talvez um pouco mais polida e elegante.

Este disco foi gravado entre Lisboa, Copenhaga e Marraquexe. Foi uma logística pesada, não?
Na verdade o disco foi gravado apenas em Lisboa - foi, sim, composto entre Portugal, Dinamarca e Marrocos - tenho tido oportunidade de viajar bastante e tiro sempre tempo para compor e escrever quando viajo, para tentar de certa forma absorver tudo aquilo que me rodeia.

De todos estes sítios recebeste inspirações diferenciadas que transportaste para o disco?
No caso de Copenhaga serviu muito como inspiração literária e no caso de Marraquexe tive oportunidade de me evolver em toda uma ambiência rítmica e musical que quase tinha esquecido. Viajar faz bem à alma: toda a gente devia sair de casa de vez em quando.

As reações primárias têm-te deixado orgulhoso, suponho. Gente como Gimba, Fernando Alvim, Sónia Tavares, Nuno Calado ou José Luís Peixoto já elogiaram o teu trabalho. Isso arrepia-te ou pressiona-te, ou nem uma coisa nem outra?
Acima de tudo deixa-me feliz, acho que qualquer artista gosta de sentir o seu trabalho reconhecido e acaba por ser como que uma motivação adicional. Quando era mais puto talvez pudesse sentir esse tipo de reações como uma pressão, mas neste momento sinto acima de tudo como um incentivo.

Em termos de palco, como está a tua agenda?
Depois do lançamento em Lisboa e do concerto em Paris, que correram lindamente, vamos seguir para Londres e depois para um conjunto de 10 ou 12 datas em Portugal. Ainda estão algumas surpresas na forja, pelo que o ideal será estar atento ao facebook de La Chanson Noire.

Muito obrigado! Queres acrescentar mais alguma coisa?
Eu é que agradeço - sinto-me muito feliz por estar a partilhar este novo disco e por sentir o calor e o interesse das pessoas! Muito obrigado!

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