O heavy metal sempre
encontrou na escuridão um solo fértil para a criação. Dos riffs
cortantes aos contos de feitiçaria e perdição, poucos estilos carregam tão bem
o peso do oculto. É exatamente nessa encruzilhada que surge Morax, a visão solo
de Remi A. Nygård, que decidiu dar voz a um heavy metal clássico com um
toque maléfico, evocando os espíritos de Mercyful Fate, Black Sabbath e Satan.
Do mini-álbum Rites and Curses ao mais recente The Amulet, Morax
assume a sua identidade num percurso de constante exploração sonora e
narrativa. Nesta conversa, o mentor revela as raízes do projeto, os desafios de
ser uma one-man-band e a transição do estúdio para o palco, enquanto os
feitiços musicais de The Amulet se espalham pelo underground.
Olá, Remi, obrigado pela disponibilidade. Antes de mais, podes
apresentar os Morax aos metalheads
portugueses?
Olá, Pedro! Agradeço o
teu contacto. Morax é uma banda norueguesa de heavy metal que
começou oficialmente em 2023. O objetivo sempre foi fazer heavy metal
clássico com um toque maléfico, tal como se pode encontrar em bandas como Mercyful
Fate, Black Sabbath e Satan.
O que te inspirou a criar Morax como um projeto a solo e como é
que as tuas experiências com Inculter influenciaram a decisão de criar um novo
projeto só para ti?
Há muito tempo que
ansiava por um estilo mais sombrio de heavy metal. Tentámos fazer mais
algumas canções deste estilo para os Inculter, mas não me senti bem. A
música Face The Reaper do EP, por exemplo, foi originalmente pensada
como uma música dos Inculter. Já devo ter dito isto muitas vezes, mas em
2022 ouvi a música 6669 dos Coven e isso deixou-me super
inspirado para tentar fazer um pouco de heavy metal sozinho. Fui ao
espaço de ensaio para gravar a bateria nessa mesma semana. Eu tinha duas
músicas que tinha feito anteriormente, e uma que foi feita no mesmo dia em que
eu gravei. Essas gravações acabaram por ser as três primeiras músicas do EP.
Senti-me bem a fazer as coisas espontaneamente por mim próprio, por isso pensei
em continuar a fazer isso.
Tendo feito parte de várias bandas, o que te motivou a assumir
todas as responsabilidades instrumentais e de composição nos Morax?
Como mencionei na resposta
anterior, senti-me bem por poder fazer o que quisesse, quando quisesse. Sem ter
de planear tanto as coisas. Eu não sou nenhum baterista profissional, mas eu
sabia que se me esforçasse o suficiente, seria capaz de gravar a bateria
sozinho, então por que não fazer dessa forma?
Quais foram alguns dos maiores desafios que enfrentaste ao
trabalhar como one-man-band e como os
ultrapassaste?
O maior desafio é
provavelmente gravar a bateria. Mas, felizmente, depois de passar horas e horas
a ensaiar e a tentar, acho bastante divertido e inspirador quando finalmente
apanho o jeito. Além disso, tenho
grandes problemas em terminar as canções. Normalmente, as canções não estão
acabadas antes de as ir gravar e tenho de inventar qualquer coisa na hora.
Até agora tem corrido bem, mas se, no futuro, for gravar num estúdio
profissional, sei que tenho de ter todas as canções prontas, para não esvaziar
toda a minha conta bancária.
Como é que o som
dos Morax evoluiu do mini-álbum Rites And Curses,
de 2023, para o teu primeiro álbum, The Amulet?
Parece que a evolução foi
muito natural. Eu entrei com a mesma abordagem para ambos os lançamentos,
exceto pelo óbvio tempo extra e trabalho detalhado que fiz para o álbum
completo. Para mim, The Amulet é um
passo à frente de Rites And Curses,
tudo é feito da mesma forma, mas é mais! Mais tempo passado a ensaiar, a
gravar, a misturar, a escrever canções, sim... mais de tudo, na verdade.
Podemos encontrar influências
que vão do rock dos anos 70 ao thrash
metal. Considerando o teu passado no lado
mais extremo do metal, como é que
esses artistas moldaram o som e os temas de The Amulet?
Quando comecei Morax, queria que ele fosse aberto a uma ampla gama de
inspirações. Trazer tudo de Camel a Aura Noir é permitido, desde que seja feito
com um sentido de propósito. Gosto de álbuns com todos os
tipos de tempos e moods diferentes, e
sinto que o género heavy metal permite
muitos estilos diferentes. O outro em Seven Pierced Hearts veio de eu querer fazer melodias de guitarra
bonitas como as de Camel, não acabou
a soar como Camel, mas essa foi a
inspiração inicial. Além disso, na música The
Snake, dá para ouvir que eu me inspirei muito no thrash e no black metal.
Lembro-me de ouvir Spirit Possession
e queria fazer um riff estranho e
louco como eles sempre fazem, esse riff
acabou por ser o riff da bridge para The Snake. Liricamente, tenho tendência para escolher temas mais
sombrios, porque é o que mais se adequa à música que faço. É provavelmente o
resultado do meu passado no metal
extremo. Cantar sobre miúdas, cerveja e motas não se enquadra no meu estilo
musical (risos)!
The Amulet
explora vários cantos do heavy metal com um toque sombrio. Podes falar
sobre os temas centrais ou histórias por detrás do álbum?
As letras do The
Amulet contêm histórias que giram em torno de diferentes reinos e seres do
além. Cada música tem seu próprio significado para mim, e espero que outros
possam encontrar seus próprios significados. Fora isso, só digo para lerem as
letras e interpretarem como quiserem.
Podes explicar-nos o teu processo típico de composição de
canções? Como é que abordas a composição e a gravação quando és tu que tratas
de todos os instrumentos e vozes?
As ideias iniciais das
músicas geralmente começam comigo a tocar com qualquer guitarra que esteja na
minha sala naquele dia. Algo como um riff de introdução, um refrão ou
uma pequena melodia de verso. Depois disso, tento construir algo à volta disso,
e tento fazer o que me parece intuitivo. Como já referi, normalmente não
consigo acabar a canção toda antes de ir para o estúdio gravar a bateria, mas
tenho sempre uma ideia bastante clara de como vai ser pelo menos os primeiros
80% da canção. Durante a gravação da bateria, ponho o meu computador e uma
placa de som em cima da mesa ao lado da bateria, carrego em gravar, paro e
repito mil vezes até acabar. O mesmo acontece com a guitarra, o baixo e a voz.
Na verdade, é muito simples.
The Descent
é a faixa mais longa e mais complexa do álbum. Qual foi a inspiração por trás
dessa música e o que esperas que os ouvintes retirem dela?
Não sei bem de onde veio
a inspiração inicial, acho que foi a primeira música que fiz para o álbum, por
isso já a escrevi há algum tempo. Mas esta é uma das poucas canções em que eu
tinha a música 100% pronta, toda feita em casa com a minha guitarra acústica.
Não me lembro de ter passado algum tempo a esforçar-me para escrever as
diferentes partes, por isso tenho a sensação de que a canção surgiu muito
naturalmente num curto espaço de tempo. Claro que espero que os ouvintes fiquem
aterrorizados e paralisados depois de a ouvirem no volume máximo.
Apesar de Morax ser um projeto a solo, montaste uma banda para
as atuações ao vivo. Como é que selecionaste os membros e como é que tem sido a
transição do estúdio para o palco?
Todos os membros ao vivo
são cuidadosamente selecionados através de mil concertos locais e roubando o
guitarrista, o baixista e o baterista mais fixes que consegui encontrar. Os
poucos concertos que fizemos foram muito fixes, tivemos o público certo e o ambiente
tem sido praticamente perfeito até agora.
Dito isto, quais são os teus planos futuros para os Morax em
termos de música nova ou digressões?
A seguir temos um
concerto em Oslo com a fantástica banda sueca de thrash metal Insane,
depois disso temos alguns festivais e concertos à espera, estamos também em
contacto com algumas agências de booking e festivais europeus, por isso
esperamos fazer alguns concertos no continente este ano também. Para além
disso, vou continuar a fazer música e começar a gravar sempre que me apetecer.
Talvez este ano, provavelmente não, mas quem sabe?
Mais uma vez, obrigado, Remi. Queres mandar alguma mensagem aos
teus fãs ou aos nossos leitores?
Obrigado e saúde, Pedro!
Dizem que a caneta é mais poderosa que a espada, eu digo que se lixe a caneta,
porque podes MORRER PELA ESPADA!
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