Passados alguns meses desde o lançamento de A Catarse Não é o Fim, estivemos à conversa com Bruno Celta para
revisitar um disco que marcou uma viragem clara no seu percurso artístico. Mais
emocional, mais exposto e assumidamente fora da zona de conforto, este trabalho
revelou um autor disposto a trocar o comentário exterior pela introspeção, sem
abdicar da força melódica e do peso que sempre o acompanharam. Esta entrevista
percorre o processo desse álbum, abrindo também espaço para refletir sobre os
passos mais recentes e o caminho que começa agora a desenhar-se rumo ao futuro.
Olá, Bruno, tudo bem? Já lá vai um tempinho desde que lançaste A Catarse Não é o Fim, mas penso que podemos começar
precisamente por esse trabalho. Em que momento da tua vida começou a tomar
forma este álbum? Houve um ponto de rutura que o desencadeou?
Olá, Pedro. Obrigado
pela entrevista. Este álbum começou a tomar forma em 2018, com algumas canções
na gaveta (Ártemis e Segredos e um pouco mais tarde a Uma
Noite). Depois de Common Fluid e Medusa senti-me muito mais
inspirado para escrever um álbum mais emocional, menos político e menos grunge.
Não houve propriamente um ponto de rutura, houve um desejo de fazer algo
diferente e sair da zona de conforto a que estava habituado.
As letras são muito diretas e emocionais. Houve temas que tenhas
hesitado em incluir por serem demasiado íntimos?
Acho que em primeiro
lugar devo ser fiel ao que sinto enquanto escrevo, só assim consigo cantar com
a entrega necessária de forma a ter interpretações emotivas e honestas, nada
fingido. Por isso não hesitei, tudo fez sentido e ao vivo isso sai do palco
para o público, essa entrega, essa emoção.
Sentes que esse disco representou uma mudança em relação aos
teus trabalhos anteriores ou antes uma consolidação da tua identidade
artística?
É ambos uma mudança e
um consolidar da minha identidade artística. Isto porque encaro a criação como
evolução. Não gosto de estagnar, de fazer as mesmas músicas com arranjos
diferentes, uma fórmula que seja de fácil composição. Por isso, apesar de ser
muito diferente dos trabalhos anteriores, é um consolidar daquilo que pretendo
enquanto artista, ser eclético, mas sem nunca esquecer a parte fundamental na
música, a melodia.
A sonoridade cruza emo,
pop rock e alternativas mais pesadas. Esse equilíbrio foi intuitivo ou
pensado desde o início?
Foi intuitivo, no
sentido em que compus sempre com a inspiração da altura. O que foi pensado desde a génese foi a
produção, a sonoridade geral do álbum. A mistura faz com que, apesar de ser eclético,
haja um fio sonoro condutor que leva o ouvinte nessa viagem sonora sem se
aperceber que há temas bem rasgados e temas mais bluesy.
Assumiste múltiplos papéis neste álbum (composição,
interpretação, produção). O que foi mais desafiante nesse processo?
Talvez conciliar
todos e manter-me alerta. Eu sou extremamente focado quando começo um trabalho.
Estou atento a todos os detalhes, posso passar horas de volta dum compasso que
me pareça estranho. Isso faz com que também quebre o ânimo por vezes. Esse é
talvez o maior desafio. Passar 4 horas de volta dum riff e no dia a
seguir apagar e voltar a gravar.
Trabalhar de forma tão solitária dá-te mais liberdade ou aumenta
a pressão criativa?
Ambos. Gosto da
liberdade de criar sozinho. Adoro misturar. Para mim a fase de mistura é um
processo de criação em si mesmo. É onde as canções ganham forma, se transformam
na banda sonora da minha vida e da vida de quem vai ouvir. Ao mesmo tempo, a
pressão de criar algo sempre diferente sem me copiar a mim próprio é grande.
Mas tenho um grupo de pessoas reduzido (MARLA, Peter Strange, João
Campos Solitário), em quem confio muito, às quais mostro os temas nas mais
variadas fases de composição e peço-lhes a opinião. Às vezes as opiniões estão
na mesma linha, outras não. Mas ajudam sempre a saber para onde ir ou para onde
não ir.
Em 2025 apostaste fortemente no lado visual, com vários
videoclipes. O que te atrai nessa extensão da música para a imagem?
Tenho uma paixão pelo
visual aliado à música. Aliás, tenho uma paixão pela simbiose entre Artes. Mas
filmar e realizar é o que me dá mais prazer além da música. Sempre que tenho o single
definido, imagino imediatamente o filme na minha cabeça. Para mim é fácil criar
cenários, enquadramentos, storyboards. Por isso pego na equipa e digo
“Tenho esta ideia, quero mesmo fazer isto acontecer!” A maior parte das vezes
eles olham para mim com aquele olhar de “Isto vai ser complicado…” Mas até
agora tenho conseguido fazer os videoclipes que imaginei. Não só os meus, mas
os de outros artistas também, como foi o caso dos videoclipes de MARLA.
Até que ponto os vídeos ajudam a completar a mensagem do álbum?
Eu encaro os vídeos
como uma arte em si. Podem ou não passar a mensagem do tema em questão. Para
mim devem ser independentes e ter uma vida própria sem ter que representar a
letra. Podem ser uma mescla de imagens visualmente fortes, belas
ou chocantes, que levem o espectador numa viagem com a música como pano de
fundo e não o oposto.
E quanto ao novo single lançado em 2025, Queen Of Hearts, marca continuidade com A Catarse Não é o
Fim, podendo ser visto como um epílogo do disco ou antes, é já um prenúncio
do próximo trabalho?
Nem uma nem outra.
Foi um standalone single que está fora da narrativa da Catarse… e
que também não vai ser repetido no futuro. É a minha versão do que poderia ter
sido o tema título de qualquer 007. Sendo eu um fã de cinema e tendo a canção
na gaveta, queria mesmo lançá-la.
E por que a escolha da língua inglesa para este tema?
Como disse na
pergunta anterior, é um tema que imaginei para um 007 fictício. Não faria
sentido escrevê-la em português, e como sabes, em Common Fluid eu
escrevia inteiramente em inglês. Soube bem voltar por momentos ao poema anglo-saxónico.
Que evolução sonora ou temática sentes que poderás assumir no
próximo álbum em relação ao que fizeste até agora?
Estou a escrever um
novo álbum de momento e o que posso dizer é que instrumentalmente está mais
pesado que a Catarse…. Sou fã de peso, guitarras pesadas, aliás, a
guitarra é o meu instrumento de eleição para tudo. A Catarse… demonstra
bem isso. Tinha umas ideias nos memos do telemóvel e surpreendentemente
eram só riffs pesados. Comecei a gravá-los e completei um tema. Decidi
gravar novo álbum para sair no fim de 2026, onde também celebro 15 anos de
carreira.
Obrigado, Bruno. Queres acrescentar mais alguma coisa?
Muito obrigado pela
entrevista e pelas perguntas inteligentes. Em 2026 tenho para já quatro datas a serem
anunciadas em breve, por isso mantenham-se atentos, que vou levar a Catarse…
na íntegra para a estrada pela última vez em 2026.




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