Depois
do EP Hers, Dan Riverman chega ao seu primeiro
longa-duração com um álbum homónimo que assume claramente um ponto de afirmação
e reencontro consigo próprio. Mais consciente na escrita, mais coeso na
abordagem e fiel a um processo orgânico de criação, este disco reflete o amadurecimento
natural de um percurso feito de tempo, escuta interior e confiança nos
instintos. Uma abordagem criativa dissecada pelo artista nesta conversa.
Olá, Dan, obrigado pela
disponibilidade. O que te motivou a escolher um álbum homónimo para este
projeto? O que Dan Riverman representa neste momento da tua vida e carreira?
Antes de mais, muito obrigado pelo
convite e pelo destaque ao meu trabalho, é sempre especial poder falar sobre
este disco. A escolha de um álbum homónimo está diretamente ligada ao facto de
ser o meu primeiro longa duração. Senti que fazia sentido apresentar este
trabalho quase como um ponto de partida, ou até de recomeço. O Dan Riverman,
o LP, representa um momento de afirmação e descoberta na minha vida e na minha
carreira. É um retrato honesto do ponto onde me encontro agora, tanto a nível
pessoal como artístico, e acaba por revelar a minha identidade na forma como
quero continuar a desenvolver as minhas composições.
Como descreves a
evolução da tua música desde o EP Hers até este novo álbum? Que
mudanças sentes, em termos de estilo ou abordagem?
Desde o EP Hers até este álbum
houve um processo natural de amadurecimento. O Hers foi um trabalho
muito intuitivo e espontâneo, feito num momento de experimentação e de
descoberta, tanto a nível sonoro como pessoal. Representa uma fase em que ainda
estava muito focado em perceber quem era enquanto compositor e intérprete.
Neste novo álbum sinto uma abordagem mais consciente e estruturada. Há uma
maior clareza nas intenções, tanto na escrita como nos arranjos, e uma maior
preocupação em construir um corpo de canções coeso. Em termos de estilo,
mantêm-se algumas referências, mas há uma exploração mais profunda de
dinâmicas, texturas e narrativas, refletindo uma evolução natural e uma maior
confiança na minha identidade musical.
O disco foi gravado ao
longo do último ano. Podes partilhar connosco como foi esse processo de criação
e gravação?
A escrita das canções é, sem dúvida,
a parte do processo com que mais me identifico e abordo-a de forma
essencialmente intuitiva. Criar histórias e transformá-las em músicas não
acontece do nada. Sentar-me todos os dias com a guitarra à espera de “apanhar
frequências” simplesmente não funciona para mim. As histórias têm de ser
vividas, tenho de as sentir. Talvez seja por isso que o processo criativo leve
mais tempo, mas, em troca, surge algo profundamente pessoal. Para mim,
apresentar música original só faz sentido se vier desse lugar. Diria que o
maior crescimento veio de aprender a confiar mais nos meus instintos e de dar
espaço à experimentação. Algumas músicas demoraram bastante tempo a encontrar a
sua forma final. Na gravação, trabalhei em vários estúdios diferentes, mas foi
com o Bruno Fer, o produtor deste disco, que decidiu substituir as
gravações por faixas e gravar tudo de novo, ao vivo com a banda completa,
usando instrumentos reais tocados por pessoas reais, numa tentativa de captar a
verdadeira essência das canções. E, felizmente, resultou.
Another Life (com
Rita Redshoes) foi o primeiro avanço; depois veio Tell Me Stories. Por
que escolheste estas duas canções como singles? O que representam dentro
do álbum?
Escolhi Another Life, com a Rita
Redshoes, como primeiro single porque representa de forma muito
clara a energia que quis trazer para este álbum. É uma canção que nasceu de um
lugar muito honesto. A presença da Rita foi um verdadeiro privilégio e uma
experiência única, acrescentando uma camada emocional que quis destacar desde o
início. Já Tell Me Stories surgiu como segundo single porque vai
mais ao encontro da “receita de single” e sintetiza o universo narrativo
do disco de uma forma mais leve e mainstream. Dentro do álbum, estas
duas canções funcionam como pontos de entrada distintos e, juntas, dão uma boa
imagem do que o disco representa no seu todo.
E como se proporcionou
essa colaboração com a Rita?
Curiosamente, esta ideia nasceu
durante as gravações do Hers, em 2015. Já admirava o trabalho da Rita há
muito tempo e sentia que a voz e a sensibilidade dela encaixavam perfeitamente
no universo de uma das músicas que queria incluir no EP. Enviei-lhe um email
e ela mostrou interesse na colaboração, mas acabei por não gravar a música em
questão e tudo ficou em suspenso. Mais tarde, em 2019, encontrei a Rita no
Festival da Canção e, a partir daí, retomámos as “conversas”. Apresentei-lhe
alguns temas, e ela gostou muito da Another Life. É um enorme orgulho
contar com a Rita, que trouxe encanto com a sua voz, mas também uma leitura
emocional muito própria, que elevou a canção e lhe deu uma profundidade única.
Olhando para a tua
trajetória, em que medida sentes que encontraste a tua voz artística? Quais são
as marcas que identificam hoje o teu som?
Olhando para a minha trajetória,
sinto que fui construindo a minha voz artística de forma muito natural. Não
houve um momento exato em que senti que “encontrei a minha voz”, mas sim uma
evolução constante, em que experiências, referências e colaborações foram
moldando o meu som e a forma como escrevo canções. Hoje, julgo que o meu som
continua a ser caraterístico e a revelar uma identidade própria. As canções
são minhas, escrevo-as para mim quando tenho de escrever, sem pressões. Com
sorte, alguém vai ouvir e identificar-se com o que fiz. Acho que isso se
reflete tanto nas letras como nos arranjos e que, acredito, ajuda a tornar o
meu trabalho acessível e genuíno ao mesmo tempo.
Depois de um trabalho
tão pessoal e intenso, que tipo de resposta esperas do público? O que significa
para ti chegar ao ouvinte com este álbum?
É um pouco da minha resposta
anterior. As canções são fruto do meu percurso e do que sinto no momento em que
as escrevo. Escrevo primeiro para mim, sem pressões, e se alguém se identificar
com o que partilho, é um enorme privilégio. Acredito que essa autenticidade se
nota e que seja isso que torna o meu trabalho ao mesmo tempo próximo e
verdadeiro.
Tens planos para tours, novas
colaborações ou mesmo outros projetos?
Sim, tenho algumas ideias em cima da
mesa. No que toca a tours, estou muito entusiasmado com a possibilidade
de apresentar o álbum ao vivo, por todo o país e, quem sabe, lá fora também.
Quanto a novas colaborações, estou sempre disponível. Adoro trabalhar com
outros artistas e acredito que isso traz sempre algo inesperado e inspirador
para o meu trabalho. Para além disso, já estou a desenvolver ideias para novas
canções e para um próximo disco, quem sabe.
Obrigado! Há mais
alguma coisa que queiras acrescentar?
Muito obrigado a toda a equipa Via
Nocturna 2000 por dedicarem tempo a fazer esta entrevista. O trabalho que
estão a fazer é realmente importante, e músicos como eu só podem sentir uma
genuína gratidão pelo vosso apoio. É este tipo de incentivo que faz toda a
diferença e nos mantém motivados a continuar.
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