Nascido
no Algarve, amadurecido no Porto e esteticamente moldado pela paisagem
parisiense, Falso Infinito
apresenta finalmente o projeto Passo Real em formato longo. Este é um registo que reflete o trajeto
pessoal e geográfico e que se traduz num conjunto de canções com sonoridade
coesa que agora já pode ser defendido enquanto corpo uno, em disco e em palco.
Hugo Formiga, o mentor do projeto, explica-nos como.
Olá, Hugo, como estás? Falso Infinito surge
como o primeiro registo longo de Passo Real. Em que momento sentiste que este
conjunto de canções precisava de existir como álbum, e não apenas como uma
continuação de singles?
Desde sempre. O destino final das canções sempre foi
fazerem parte deste álbum, serem lançadas como singles com tanto tempo
de intervalo entre elas foi simplesmente uma consequência do trabalho demorado
que foi trazê-las ao mundo. Sou muito adepto do formato de álbum na música que
oiço, da maneira como consegue encapsular tão bem uma determinada fase da vida dos
músicos, por isso para mim sempre foi óbvio que era assim que ia apresentar a
música que eu fizesse.
O nome do projeto e o
próprio título do disco sugerem movimento, deslocação e alguma inquietação
interior. Que ideias ou experiências pessoais estão na base deste Falso Infinito?
As canções do álbum retratam o experienciar de toda
uma variedade de sensações menos felizes, que quando sentidas muito
intensamente, parecem inescapáveis e eternas. Falso Infinito vem de uma
vontade de me relembrar que não o são. Acho que há um certo desespero comum à
maior parte das letras, e quis contrastá-lo com um título que, para mim, é
bastante otimista. Passo Real é só um nome que me soou bem. Mas vou usar
essa ligação numa próxima.
Passo Real nasce no
Algarve, mas desenvolve-se já no Porto. De que forma essa mudança geográfica
influenciou a escrita, a sonoridade e até o estado emocional do álbum?
A mudança já foi há uns anos, e o Porto para mim já é
casa. Ainda não lhe escrevi as canções que bem merece. Grande parte deste álbum
retrata uma fase que coincidiu com uma outra mudança, neste caso para Paris.
Foi dessa cidade, absurdamente inspiradora, que vieram as ideias para a
estética do álbum e do projeto no geral.
As canções equilibram riffs melancólicos,
refrões marcados e momentos de maior agressividade. Esse contraste foi algo
pensado desde o início ou resultou naturalmente do processo de composição?
Gosto de momentos bem distintos nas canções, e não
sinto que os procuro ou que os forço ao escrever, acho que já fazem parte da
maneira como abordo uma ideia. Gosto que a canção seja uma viagem, e que
nunca tenhamos bem a certeza para onde é que nos vai levar a seguir.
As influências
assumidas são bastante distintas entre si. Como foi o desafio de as integrar
sem perder uma identidade própria?
Eu não me esforço para tentar integrar nada, só
escrevo o que me sai e que me soa bem. Posteriormente é que há algumas
referências que se notam de forma mais berrante que outras. Mas no processo de
escrita, elas já estão incorporadas em mim, não há como fugir. Acho que somos
todos um produto das nossas influências.
Sendo este um projeto
muito pessoal, como foi para ti expor estes “devaneios e desabafos” num formato
tão direto e, por vezes, cru?
Sempre usei a música e a escrita como um processo
terapêutico, que organiza em canções a confusão que vai cá dentro. Para mim é
inevitável que o resultado seja uma coisa crua, mas não o quereria de nenhuma
outra maneira. São essas as letras que mais gosto de ouvir, que soam a
desabafos de diário, vindos de um sítio muito genuíno.
O álbum soa coeso, mas
evita a linearidade emocional. Houve uma preocupação em construir uma narrativa
ao longo das faixas ou cada tema funciona como um fragmento autónomo?
Houve sem dúvida uma preocupação com a narrativa, mas
mais numa perspetiva de gerir intensidades. Sabia onde queria começar
(acendalha) e onde queria chegar (cansado), o desafio foi gerir a viagem até
lá. Queria que tivesse os seus altos e baixos nos momentos certos, de modo a
conseguir mimetizar um pouco da minha própria demanda com as músicas, tanto
pelas letras como pelos instrumentais.
Depois de algum
percurso em palco com os singles, que diferenças sentes entre
apresentar estas canções isoladamente e agora defendê-las enquanto corpo de um
álbum de estreia?
Estou muito ansioso para tocar para um público que
tenha ouvido o álbum. Sempre tocamos quase todas as que foram agora lançadas,
mas sempre a olhar para caras meio curiosas, a experienciar as músicas pela
primeira vez. Acho que vai ser bonito sentir o reconhecimento de quem já ouviu
tudo, quem sabe várias vezes, e perceber se a transposição para a performance
ao vivo funciona tão bem como imagino.
Com Falso Infinito agora
cá fora, Passo Real representa um ponto de chegada ou, pelo contrário, um ponto
de partida para novas explorações sonoras e conceptuais?
Talvez a chegada de um projeto que se propõe a
desbravar explorações sonoras e conceptuais, cheias de honestidade emocional,
carregadas de amor ao que se faz e com muita vontade de se fazer ouvir.
Quanto a palco, o que
tens previsto?
Para já, temos uma data em Braga, com os Motel
Plaza no Panic! at Mavy, uma emo party no Mavy Café
Concerto. Dia 14 de março, pelas 23h.
Obrigado, Hugo. Queres
deixar alguma mensagem?
Um
agradecimento muito grande à Via Nocturna e a quem leu até aqui. Espero
que gostem do álbum. Eu gostei muito de o fazer.



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