Entrevista: Terramorta

 


Depois de Chronophobia, um álbum profundamente marcado pela perda, os Terramorta regressam sem avisos, estratégias ou contagens decrescentes. The Fading Lumina’s Embrace surge de forma abrupta, instintiva, como um gesto de rutura com as expetativas da “indústria”. E, mais uma vez, este segundo capítulo volta a afirmar-se como um disco moldado pela dor e pela revolta. Nesta conversa com Carlos Ribeiro, revisitamos o percurso entre os dois álbuns e as circunstâncias pessoais que inevitavelmente os unem. Uma entrevista que ajuda a compreender não apenas o disco, mas o estado de espírito de uma banda.

 

Olá, Carlos, como estás? E como tens passado desde a última vez que conversámos?

Olá, está tudo bem, tem sido uma luta desde que falamos...

 

Este segundo álbum surgiu sem qualquer aviso prévio. Qual foi a motivação por trás desta decisão de lançar o disco de forma tão inesperada?

Bem, foi mesmo impulso... Já estamos fartos das regras que a “indústria” impõe. Toda a gente segue um padrão, estratégias estudadas (tal como nós fizemos com o Chronophobia). Desta vez, não quisemos ser mais do mesmo: nada de anúncios, tipo tira uma peça de roupa por semana até ficar tudo à vista... (risos) Acabei a master no dia 24 e lançamos no dia 26...

 

Comparando com Chronophobia, como descreverias a evolução sonora e conceptual dos Terramorta neste novo trabalho?

Este álbum marca uma era de transição, se evoluímos ou não cabe a quem nos ouve avaliar, uma das coisas que prezamos é não fazer música para agradar ao ouvido, se é que me faço entender, nós queremos ser ouvidos por quem se identifica e sente o que escrevemos...

 

A temática do álbum aborda o medo da morte, a injustiça e o desejo de rebelião. De que forma estas emoções influenciaram a composição das músicas?

Infelizmente a vida tem sido madrasta comigo, escrevi o Chronophobia quando perdi o meu pai, quando escrevi os temas para o novo álbum, tinha acabado de perder o meu único irmão (e mais novo) para um cancro. Foram a revolta, a dor, a impotência, os sentimentos predominantes na composição. Basta estarem atentos ao tema Baba Yaga... Num curto espaço de tempo perder pai, irmão e avós foi duro, a única maneira de deitar cá pra fora o que sentia foi esta, e a banda apoiou-me muito...

 

O álbum inclui convidados especiais, como Daniela Costa (Trabalhadores do Comércio) em Fog Of War e Derek Sherinian em Light Imprisoned. Como surgiram estas colaborações, especialmente com artistas menos esperados neste contexto?

Eu já fui para a faculdade “fora de prazo”, a Daniela Costa é praticamente da minha idade, foi minha professora de canto na Faculdade, tenho uma admiração e carinho enorme por ela, desde que a ouvi cantar pela primeira vez, pensava fazer algo com ela. O Derek Sherinian é sem dúvida a minha referência como teclista, foi o culminar de um sonho, ter algo gravado por ele, ouvir as pistas separadas foi uma coisa que não consigo explicar. Mas para responder à parte de serem artistas menos esperados, sim, era mesmo essa a ideia, eu como músico e produtor não posso estar preso apenas ao metal... Será que todas as bandas de metal precisam de ter convidados como o Fernando Ribeiro ou outros músicos do panorama metal, ou mesmo apenas músicos do género musical em questão? Penso que envolver músicos com outras linguagens musicais enriquece uma obra. Sem querer ofender ou desmerecer alguém, mas está tudo a tornar-se muito previsível, parece uma receita de culinária...

 

Também o tema Agent Of Change conta com Enrico Di Lorenzo do Hideous Divinity. Houve alguma liberdade criativa dada aos convidados, ou tudo foi cuidadosamente dirigido pelos Terramorta?

O Enrico foi ideia do Dan, eles já se conheciam, e que bela ideia ele teve por sinal. A letra foi o Dan que escreveu, mas o Enrico teve toda a liberdade para interpretar, tanto é que quando recebi a demo foi logo esse take que ficou no álbum... O Derek fez o que quis, a intro, a melodia das teclas eu apenas complementei com a orquestra... É que nem lhe dei referências, ele quando recebeu a demo só disse: “Man, this is heavy, I don’t know what to do but give me a couple of days.” Quando recebi a demo, foi só pedir as pistas, fez magia... A Daniela, bem, a Daniela, chegou ao estúdio e gravou tudo ao primeiro take, simplesmente magia, falamos um pouco e ela tau... o coro do tema Light Imprisoned é a Daniela sozinha... foi pena não termos tido tempo para trabalhar mais temas...

 

Mantendo a ligação com a tua entrevista anterior no Via Nocturna, onde mencionaste a forte componente pessoal e a dedicação extrema em Chronophobia, consegues traçar paralelos entre o processo criativo desses dois álbuns?

Como já referi anteriormente, sim, infelizmente foi a morte de alguém querido que deu vida a ambos os discos.

 

O som do álbum combina black, death e symphonic metal com atmosferas etéreas. Como foi o desafio de equilibrar brutalidade instrumental com elementos mais introspetivos e sinfónicos?

Foi espontâneo... muitas pessoas me questionam relativamente aos riffs pesados e orquestras bonitas (risos), não consigo exprimir-me de outra forma que não seja este tipo de composição...

 

Trabalhaste de forma intensa na produção, gravação, mistura e masterização no Pike Studios. Que experiências ou dificuldades marcaram este processo?

O álbum parecia embruxado, saiu com mais de meio ano de atraso... Não vou remexer muito no passado, mas foi uma luta intensa... A saída do Hélder levou-me a tomar a decisão de falar com o Robin, a partir daí foi sempre a bombar até estar pronto.

 

Visualmente, a arte do álbum foi novamente criada por ti. Que mensagem procuras transmitir com a estética de The Fading Lumina’s Embrace e como esta complementa a música?

Permite-me que corrija, no Chronophobia não fui eu o designer, mas sim o Oliver Jackson, neste álbum sim, fui eu, o que procuro transmitir é simplicidade. Eu e o resto da banda já estamos fartos de ver artwork a sobrepor-se à música, e principalmente de ver AI em todo lado, coisa que repudiamos.

 

Para além do álbum, que planos existem para a performance ao vivo? Podemos esperar um espetáculo tão imponente quanto a produção do disco promete?

Já existem os 2 concertos de apresentação, no RCA e no Route206, mas daremos novidades em breve...

 

Obrigado, Carlos! Queres acrescentar mais alguma coisa?

Obrigado, eu; só queria deixar um grande obrigado a toda a gente que nos tem apoiado.

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