Entrevista: Tracy Vandal & John Mercy

 

Depois de um primeiro capítulo marcado por versões reinterpretadas com identidade própria, Tracy Vandal e John Mercy apresentam Ivory Razors, o seu novo trabalho que representa um passo decisivo: as suas próprias composições! Mais uma vez estivemos à conversa com John Mercy, aka João Rui, onde abordamos temas como a génese deste álbum, a evolução natural da colaboração com Tracy Vandal, os processos de escrita e produção e o impacto das participações especiais.

 

Olá, João, como vais? Tudo bem? Mais uma vez obrigado pelo teu tempo para conversares um pouco connosco. Sobre Ivory Razors e a colaboração com Tracy Vandal, como surgiu a ideia de criar um álbum de originais após o trabalho de versões em Midnight Presents?

Olá, Pedro. É sempre um prazer e, de facto, um privilégio poder falar um pouco sobre este novo álbum. Ora, em relação a esta ideia de criar um álbum de originais suponho que tenha estado sempre na nossa mira desde o momento em que o primeiro álbum começou a tomar uma forma mais “final”. Isto porque inicialmente quando começamos as gravações do primeiro (Midnight Presents) a ideia da Tracy era de gravarmos umas duas ou três músicas até num formato mais acústico/despido para tornar o processo mais rápido porque seria apenas para apresentar à Lux Records como ideia do que se poderia criar para um álbum. Mas ali algures a meio da gravação da primeira eu perguntei à Tracy o quanto eu poderia alterar a versão original e ela deu-me liberdade total. E assim começou o processo do primeiro álbum e fomos estendendo o número de canções até ter o suficiente para inclusive termos deixado canções de fora. E quando terminamos de fazer o álbum, compreendemos que o passo seguinte seria um álbum de originais, que, naturalmente, iria demorar muito mais tempo a criar, até porque concordamos logo que seria um álbum conceptual e como tal, exigiria um pouco mais de tempo. Uma das “vantagens” de gravar um álbum de versões é eliminar um dos passos mais morosos da canção que é a parte da sua escrita. Ainda que uma versão envolva muito trabalho, naturalmente, salta-se ali a etapa de ter que pensar sequer em qual a razão de ser da música; do que trata, qual o espaço dela dentro do espaço global do disco. Para um álbum de versões, não se tem que investir tempo nesse processo, que para mim é o mais moroso. Sabendo de antemão da estrutura é uma questão de trabalho e dedicação. Suponho que seja a diferença entre desenhar uma casa do zero e construir a casa quando já temos as plantas na mão. Na parte do desenho temos que pensar e meditar sobre o que queremos dizer com a canção, a intenção, etc. E na parte da construção isso já se passou à frente. De tal modo que, como eu e a Tracy gostamos tanto de trabalhar no Midnight Presents, decidimos avançar para um de originais, que sabíamos de antemão que nos ia dar muito mais trabalho.

 

Quais foram as principais diferenças no processo de escrita e produção entre este álbum de originais e os projetos anteriores que fizeste com a Tracy? Quais são as forças complementares que cada um de vocês traz para o projeto?

Esta acaba por ser uma continuação do que falava acerca da decisão de criar um álbum de originais em que sabíamos que iria dar mais trabalho, mas também porque nos obrigava a trabalhar juntos na tal parte da razão da música antes de atacar na parte estética da canção. E essa foi a principal diferença, porque em nenhum outro momento eu incluía a Tracy nessa parte, porque eram ou canções apenas em meu nome (John Mercy) ou para os a Jigsaw. E mesmo que já soubesse que estava a criar a canção com a voz da Tracy em mente, ela não estava presente nesse momento. E também estava ausente do processo da estética geral da música, claro, até porque na maioria dos casos só tinha acesso à música em que iria participar. Mas neste foi completamente diferente porque fomos trabalhando em parceria nas músicas. Quando eu tinha alguma ideia, às vezes gravava rapidamente um esboço e enviava para aprovação da Tracy para ela começar a trabalhar na melodia proposta, para sabermos se estávamos sequer no tom correto para a voz dela. E se no meu processo de escrita das letras por regra penso na personagem e nas razões da personagem e da narrativa, neste álbum, para além disso, tinha que o imaginar através da perspetiva da Tracy. Como nos conhecemos tão bem, talvez nos seja mais simples imaginar esta troca de sapatos e perceber o olhar sobre determinadas coisas e isso ajudou nesta parte do processo. Íamos falando da razão subjacente às personagens e fomos construindo assim o álbum.

 

De que forma esta colaboração com Tracy tem evoluído ao longo dos anos, desde a primeira vez que trabalharam juntos até Ivory Razors?

A primeira vez que trabalhamos juntos foi numa canção que escrevi para ela chamada Lovely Vessel para o álbum Drunken Sailors & Happy Pirates. Eu tinha ouvido a canção dela Lost Words dos Tiguana Bibles e de imediato apaixonei-me pela voz da Tracy. Claro que muita coisa foi alterando desde que começamos a trabalhar juntos, mas imagino que o que mais tem evoluído seja uma crescente cumplicidade na forma de abordar uma canção. Temos sorte de termos “evoluído” para o mesmo lado e como tal partilhamos muitos gostos e inspirações musicais e somos movidos por iguais razões. Conhecemo-nos um ao outro melhor. Suponho que seja isso o que tem sido mais constante nesta parceria.

 

Quais são os temas centrais que exploram nas letras e sonoridades? 

A “perda” será um dos temas centrais, ou talvez o saber que é tarde demais para se alterar o caminho para uma perda que já se sofreu. A sonoridade depois acompanha a forma como nos vamos aproximando e afastando do cerne da narrativa. Seja de forma mais contemplativa ou mais agressiva na confrontação com essa inevitabilidade. A dado momento uma das personagens do álbum adormece para sonhar que seria melhor do que era.

 

Como foi a decisão de incluir personalidades como Alex Kapranos no single To Remember Who You Were? Qual foi o impacto dessa colaboração na narrativa do disco?

No caso específico do Alex, a música que ele veio cantar é a segunda parte da narrativa iniciada na canção Let Me Go Or Let It Burn. E se nessa canção a personagem masculina estava do lado de fora, nesta, ele entra na narrativa e leva-a consigo para tentar resgatar a outra personagem. Ainda que eu faça muitas vozes neste álbum, esta seria a única canção que teria que ser eu a “carregar” a música a dado momento para acentuar a sua narrativa. E foi aqui que nos lembramos de convidar o Alex para o fazer. A Tracy falou com ele e ele adorou a canção. Na altura creio que ele estava em tour com os Franz Ferdinand no Japão e só conseguiu gravar a voz quando chegou a Paris. Demorou ainda algum tempo, mas chegou a bom porto.

 

Mas há outros convidados, não há? Queres apresentá-los e explicar como se juntaram ao processo?

Sim, de facto tivemos diversos convidados no disco. Sempre que possível e até certo ponto, gosto de convidar outros músicos para trabalhar nas minhas canções e a Tracy partilha a ideia comigo. E como conhecemos tantos e bons músicos, é apenas a questão de saber quem convidar para fazer o que e por que razão os estamos a convidar. Por exemplo temos no álbum dois músicos que fazem parte da banda com que tocamos ao vivo, que é o Pedro Antunes (Wipeout Beat/Bunny Ranch) no baixo e o Luis Formiga na bateria e são dois músicos que são constantes no naipe de músicos a quem volta e meio chamo para gravar quando me falta algo que sei que eles vão acertar em cheio. Depois tivemos colaborações novas tais como o Filipe Fidalgo no sax, com quem eu já tinha trabalhado quando fiz as misturas do álbum Vitor Torpedo & The Pop Kids e que trouxe a magia que faltava à canção It’s Too Late. Tivemos o André na percussão de uma das primeiras músicas que escrevemos para o álbum. A Bonnie veio fazer umas segundas vozes mais etéreas à semelhança do que já tinha feito no Midnight Presents. O Gonçalo Parreirão foi também fruto de uma ideia que tive a meio da escrita da música The Werewolf – como admiro imenso o trabalho dele e a forma como ele aborda por exemplo o musicar de filmes, achei que seria a pessoa exata a quem entregar a canção para a levar consigo – e à semelhança do que esperamos (e confiamos) que aconteça com estas participações porque os conhecemos bem e a sua forma de dialogar com as canções foi para nós um sucesso.

 

O álbum foi completamente produzido, gravado, misturado e masterizado por ti nos estúdios Blue House. Como é que tal influenciou o resultado final?

Não influenciou mais do que noutros projetos porque já há anos que o faço. Mas em relação a esse processo em si, então a influência é total porque encaro a parte da gravação e mistura como parte integrante da composição em si. Há elementos durante a parte da escrita que são influenciados pela forma como sei que o vou gravar. Se, por exemplo, sei que vou misturar o baixo com um hard pan para um dos lados, então já sei que na parte da sua composição tenho muito mais liberdade do que se o deixasse no centro, por exemplo. E sei bem que é uma relação completamente diferente do que se estivesse a compor a música e depois chegasse ao estúdio e tivesse que acrescentar uma outra pessoa ao processo para me ajudar a chegar a uma visão que tenho bem definida para a música desde a sua conceção. Não que isso não possa ser também positivo para levar as coisas para outro lado. Mas por ora não sinto vontade de o fazer, até porque o fiz ainda com alguns álbuns e prefiro ter eu as mãos em todos os detalhes do processo do que ter que me “contentar” com um produtor ou técnico a dizer “ah, mas isso não dá”, quando já tenho a técnica para o fazer e sei ser possível.  E de qualquer forma acho que é um passo lógico para quem está na música há tanto tempo e que coloque muita atenção na forma tal como no conteúdo, querer utilizar todas as ferramentas disponíveis para levar a canção até onde ela pode chegar.

 

Que texturas ou elementos sonoros tentaste priorizar para criar aquela atmosfera folk/American gothic que tem sido associada ao duo?

De certo modo continuamos onde paramos no Midnight Presents. Simplesmente as canções são diferentes. É uma estética sonora que, aliás, boa parte do Midnight Presents foi precisamente o apurar dessa estética e ir percebendo do que gostávamos mais ou menos. Mas sim, há como dizes elementos que tiveram mais destaque e que operam da mesma forma que elementos dentro da narrativa. À medida que vamos progredindo na escrita do álbum, há elementos da história que passam para outras canções e que são revividos noutras e sobre os quais se vai construindo até chegar ao quadro final do álbum em si. O mesmo se passa a nível sonoro. Há, por exemplo, um mellotron que estou a usar em diversas músicas e que passa por uma fita antiga para o tornar mais sujo e imprevisível que usei na Twice The Killer e que a Tracy adorou e como tal foi um dos elementos que passaram a estar mais presentes e que vão surgir noutras canções. Fiz também algumas experiências com a afinação de Nashville, por exemplo, na Let It Go Or Let It Burn e que depois ainda usei em mais algumas músicas. E apesar de, por exemplo, ter usado um arp omni na Gone como referenciaste, esse é talvez o teclado mais “avançado” ou, vá, moderno que permiti neste álbum, que era usado pelos Joy Division. Eletrónica até ao Low ou Heroes (Bowie), tudo bem. Mais recente que isso, pelo menos para este álbum, já não permitiria (risos).

 

Em termos de arranjos e instrumentos, há algum integrante ou detalhe que consideras fundamental para definir o caráter de Ivory Razors?

Suponho que a guitarra mais western com tremolo será definidora do som, mas isso também o é nos meus outros álbuns. Mas o que o define essencialmente é a voz da Tracy. As músicas tais como as componho e depois a Tracy as canta, levam ali umas voltas da minha versão vocal para a da Tracy, as transforma e as torna no que são.

 

Já tens planos para concertos ou tournée após este lançamento? Como encaras a transposição deste disco para o palco?

Como já tínhamos feito a transposição do anterior para o palco, este foi muito mais simples nesse sentido porque já tínhamos a banda construída: Luis Formiga na bateria, Pedro Antunes no baixo, Miguel Cordeiro nas teclas e guitarra – e agora sempre que possível o Filipe Fidalgo no sax e teclas. Já fizemos um concerto com este ensemble e creio que correu muito bem a passagem do estúdio para o vivo. Há elementos âncora que têm que ser respeitados dentro da música e outros mais livres que tornam as coisas igualmente interessantes. Ainda que prefira toda a liberdade que me permite o estúdio em termos de poder estar a gravar 20 instrumentos numa música, também me agrada bastante o desafio de os entregar e quedar-me apenas com um ou dois a vivo porque no final do dia o que conta é o coração da canção.

 

Olhando para a tua carreira até agora, entre a Jigsaw, os teus projetos a solo e colaborações como esta, o que te dá mais satisfação enquanto artista?

Boa pergunta. Cada um desses projetos tem coisas de que gosto mais ou menos do que os outros e não sei se há algum que colocaria acima dos outros por isso mesmo. Adoro trabalhar sozinho, mas por outro lado depois surpreende-me a mim próprio as minhas canções quando trago algum músico/a para lhe acrescentar parte da alma dele ou dela e que a leva para um lugar inesperado. Se por um lado é ótimo não ter que acatar opiniões nenhumas na construção das músicas, por outro pode ser uma forma diferente de encarar as coisas, portanto, com as suas vantagens e desvantagens cada um tem o seu posto. Ora, quanto a satisfação, o momento da criação é dos mais interessantes – e logo o imediatamente a seguir dos arranjos ou do terminar de uma letra em que já sei qual o peixe que quero e se torna apenas uma questão de afiar o melhor anzol e ir atrás dele – portanto talvez que seja esse momento de solidão e recolha que mais me dê satisfação. Mas se continuar a escrever, certamente vou encontrar mais razões para dar mais ênfase a outra parte.

 

Obrigado, mais uma vez, João. Deixo-te a oportunidade de acrescentares mais alguma coisa…

Não estou a ver mais o que acrescentar. Acho que até já falei demais! (risos). Olha, sempre muito boas estas tuas perguntas. Que luxo! Um grande abraço e obrigado pela atenção aos detalhes que no meio da criação de um álbum imagino que ninguém vai perceber, mas que o que interessa é que eu perceba. E alguém estar atento a isso… MEL!

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