Kali (PTOLEMEA)
Raging Planet
Lançamento: 06/novembro/2025
Desde a sua
génese, em 2018, o projeto Ptolemea, liderado por Priscila da Costa,
tem assumido uma relação íntima entre som, energia e uma identidade em
permanente mutação. Depois de uma fase inicial mais próxima do rock (Tome
I, 2018) e de uma progressiva imersão em territórios mais atmosféricos e
introspetivos (Maze, 2019; Balanced Darkness, 2023), Kali
surge como um novo ponto de maturidade nesta evolução artística e espiritual.
Este é um álbum de sonoridade muito densa e cheia, mas nunca opressiva. Pelo
contrário, envolve e acolhe o ouvinte. A fusão entre elementos orgânicos e
eletrónicos, já central em Balanced Darkness, é aqui refinada, colocada
ao serviço de um misticismo claro, de uma forte carga atmosférica, de reverbes
amplos e de uma portugalidade difusa. Não se trata de fado literal, mas
de um fado enquanto estado emocional. A abertura com Kura estabelece
desde logo uma dimensão espiritual e ritualística evidente. O maior recurso a
eletrónica afasta-se ligeiramente do corpo sonoro dominante do álbum,
aproximando-se de The Gathering na sua fase mais trip-hop. Breathe
aprofunda essa vertente atmosférica, apostando numa emocionalidade contida e
profunda, novamente evocando os momentos mais etéreos da banda neerlandesa. Com
Blue Moon, o disco cresce em intensidade: a distorção adensa-se, mas
nunca abafa a melodia nem a clareza emocional. Reverbes e camadas
atmosféricas continuam a desempenhar um papel central, algo que Luta
prolonga, mantendo a coesão do alinhamento. Já Guilhotina, por sua vez,
reforça o lado mais sombrio do disco. Um dos momentos mais marcantes surge em Andhera:
sem letra, sustentado apenas por vocalizos que funcionam como mais um
instrumento, o tema ganha uma aura hipnótica, intensificada por uma dinâmica de
bateria particularmente inspirada. A maior surpresa, no entanto, surge em Gaivota,
numa versão arrebatadora, reduzida à voz e a um reverb de contornos
religiosos, destacando-se como um dos momentos mais despidos e emocionais do
álbum. Aqui, Ali, Acolá apresenta um belíssimo registo acústico,
revelando uma faceta inesperada de Ptolemea. E o encerramento com o
tema-título sintetiza todo o percurso do disco: os tons de fado regressam
enquanto sentimento e a voz assume um papel central. Kali confirma os Ptolemea
como um projeto único. Um espaço onde misticismo, portugalidade, atmosfera e
transformação pessoal coexistem de forma coerente e que deve ser vivido como
invocação, libertação e abertura. [85%]
Highlights
Andhera; Aqui, Ali, Acolá; Kali; Blue Moon; Breathe
1.
Kura
2.
Breathe
3.
Blue Moon
4. Luta
5. Guilhotina
6.
Andhera
7.
Gaivota
8.
Aqui, Ali, Acolá
9.
Kali
Line-up
Priscila
da Costa - guitarras, vocais, Moog, percussão
Sacha
Hanlet - guitarras, percussão, sintetizadores
Michel
Spithoven – bateria
Contribuições
adicionais
Sérgio
Manique – bateria (4)
Remo
Cavallini - guitarras (4)
Diogo
Bastos - guitarras (3, 8)
Rick
Chain - guitarras (9)
Ricardo
Matias – guitarras, teclados (9)
Internet
Edição

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