Review: Ma Vie En Théorèmes (HOMME)

 

Ma Vie En Théorèmes (HOMME)

Independente

Lançamento: 07/novembro/2025

 

De vez em quando surge um álbum assim, vindo do nada, uma estreia inesperada e, simultaneamente, uma verdadeira obra-prima. Ma Vie en Théorèmes, dos franceses Homme, é precisamente esse tipo de acontecimento. Um disco que constrói uma identidade própria através do risco, da bipolaridade e de uma criatividade em permanente efervescência. Este conjunto de dez temas desenha um percurso sonoro dinâmico e mutável, marcado por contrastes bem definidos entre teatralidade, experimentalismo e uma aposta progressivamente mais assumida na musicalidade e no apelo melódico. Há, a abrir, um Abus de Pouvoir que traz um frenesim rítmico incontrolável, quase caótico, numa cacofonia de excitação explosiva que remete para a energia nervosa dos Red Hot Chili Peppers. A partir daí Ma Vie en Théorèmes rapidamente se desvia para terrenos mais teatrais, narrativos e imprevisíveis. Spoken word, declamações, arranjos complexos, mudanças súbitas de registo e uma constante tensão definem o ADN do disco. Como ficará evidente logo a seguir no tema-título, um verdadeiro monumento a descobrir com tempo e atenção. O ritmo abranda, ganha sofisticação; a bateria revela um trabalho minucioso, surgem momentos de spoken word/declamações e pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Com Toxic Girl, regressa a pulsação rítmica e o groove, num diálogo constante entre voz e guitarra, enquanto Eclosion Programmée mergulha num território mais experimental, sustentado por declamações e por um uso minimalista de teclados, guitarras e discretos apontamentos acústicos. Já Idées Noires assume-se como uma reinterpretação muito pessoal de um tema de Bernard Lavilliers, destacando-se pela musicalidade e pela força expressiva das declamações, aqui com uma identidade muito própria. A segunda metade do alinhamento revela uma mudança gradual de foco. Mon Évidence apresenta-se mais direta, com pouca distorção, um registo de alternative rock e uma teatralidade evidente, culminando num refrão mais imediato e facilmente cantável. Mon Capitaine aprofunda essa vertente, mantendo o sing-along e a musicalidade, enquanto começa a deixar para trás a exuberância inicial para explorar dimensões mais melódicas e acessíveis. Le Tunnel reforça essa abordagem, apostando num andamento calmo, ganchos melódicos eficazes e um caráter assumidamente catchy. Pile Ou Face introduz novas cores no espectro do disco, com referências claras a sonoridades caribenhas, evocando Santana ou Bob Marley, e uma guitarra sempre atenta a preencher todos os espaços livres com subtileza. O fecho faz-se em grande com Le Grand Voyage, um dos pontos mais altos do conjunto: regressam as declamações, surgem coros bem colocados, solos tranquilos e atmosféricos que contrastam com riffs mais rockeiros, tudo envolto numa forte musicalidade e em ganchos melódicos memoráveis. E, pegando no título da última faixa, este álbum é, de facto, uma grande viagem. É uma estreia que se alimenta do inesperado e que faz da instabilidade criativa a sua maior virtude. [93%]

 

Highlights

Ma Vie En Théorèmes, Toxic Girl, Abus De Pouvoir, Le Tunnel, Le Grand Voyage

 

Tracklist

1. Abus De Pouvoir

2. Ma Vie En Théorèmes 

3. Toxic Girl  

4. Eclosion Programmée  

5. Idées Noires  

6. Mon Évidence

7. Mon Capitaine 

8. Le Tunnel 

9. Pile Ou Face

10. Le Grand Voyage

 

Line-up

Christophe Massol – vocais, baixo

JP Mendez – guitarras

Arthur Delevirg – guitarras

Jacques Anoufa – bateria

 

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