Entrevista: Dapunksportif

 

Com mais de duas décadas de percurso, os Dapunksportif continuam a afirmar-se como um dos nomes mais resilientes e viscerais do rock nacional, mantendo uma ética de estrada e palco que resiste às mudanças de indústria, tendências e circuitos. Para o regresso com o novo álbum, Rock ‘n’ Roll Salvation, a banda uniu-se a Alain Johannes, conhecido pelo seu trabalho com os Queens Of The Stone Age, fortalecendo o músculo, urgência e maturidade criativa. Com este álbum por base e sem esquecer a passagem pelo Festival da Canção, estivemos à conversa com a banda de Peniche.

 

Olá, pessoal, mais uma vez obrigado pela disponibilidade. O que têm feito os Dapunksportif desde a última vez que conversámos em 2022?

Temos andado a calcorrear a panóplia de locais, quer sejam bares, associações e festivais, que ainda mantêm atividade e insistem na programação de bandas Rock como nós também o fazemos ao lançar álbuns nestes tempos que correm.

 

Rock ’n’ Roll Salvation surge como o vosso sexto álbum de estúdio, após mais de vinte anos de percurso. Sentem este disco como uma síntese natural da identidade dos Dapunksportif, ou como um novo ponto de viragem na forma como encaram o rock hoje?

Ambas as coisas, efetivamente! Neste disco pretendemos assumir um caráter mais cru e simples na composição e interpretação das músicas porque gravámos em formato de live take, mas, ao mesmo tempo, também demos mais espaço para a exploração sonora e utilizámos uma maior paleta de timbres e efeitos que até aqui não tínhamos tido a hipótese de fazer, sobretudo devido ao produtor com quem trabalhámos neste álbum, o Alain Johannes.

 

O álbum soa particularmente musculado, denso e direto, com riffs secos e uma urgência old school. Este regresso a uma abordagem mais crua foi uma decisão consciente desde o início do processo de composição?

Sim, como já referimos, essa abordagem mais crua resulta do processo de gravação que iniciámos logo na composição de forma bastante consciente. É também um reflexo da experiência já acumulada que te permite ser mais assertivo e pragmático na escrita. Digamos que é só osso e músculo, nada de gordura!

 

Na informação disponibilizada surgem vários nomes associados ao baixo. Podem clarificar quem assume atualmente esse papel na banda e de que forma essa transição (ou estabilidade) influenciou a dinâmica interna e o som deste novo disco?

Nas sessões de estúdio o baixo foi gravado na íntegra pelo João Guincho, como tem sido habitual ao longo da carreira da banda, mas ao vivo quem assume esta função é o João Leitão, que já tinha integrado a banda e regressou agora para a apresentação deste novo álbum.

 

Neste álbum trabalharam com Alain Johannes, conhecido pelo seu desempenho com bandas como Queens Of The Stone Age. O que mudou concretamente no vosso processo criativo ao terem um produtor externo com esta bagagem e reputação?

O que mudou foi mesmo todo o processo de gravação aliado à sua grande experiência e “truques sonoros”. Quando chegámos ao estúdio para gravar, a lição já estava bem estudada para assim podermos ter tempo para trabalhar mais a parte dos overdubs e melodias.

 

Para além da produção, o disco conta também com o Alain Johannes a fazer um solo de guitarra e o Simon James Wadsworth no trompete. Como surgiram estas colaborações e que papel específico tiveram na identidade final dos temas em que participaram?

Estas participações surgiram de uma forma um pouco espontânea, por assim dizer! Havia a ideia de colocar um trompete numa das músicas, mais concretamente na Rock’n’Roll Salvation. No entanto, não conhecíamos nenhum trompetista e, por coincidência, o Simon tem uma sala de trabalho no Namouche e num dos dias em que foi trabalhar decidimos convidá-lo para ouvir a música e ele aceitou logo fazer uma participação. Quanto ao Alain, nós também tínhamos a intenção de convidá-lo a tocar e foi mesmo ao terminarmos a última música que achámos que era fechar com chave de ouro ele participar com um solo final e, concretamente, o solo que já ocorre no Outro, que é o término da música.

 

Curiosamente na última vez que falámos, tínhamos o saxofone do Cabrita a ser motivo de uma questão. Para este álbum há uma troca com o trompete. Os sopros continuam a ser importantes na vossa sonoridade?    

Sempre gostámos de adicionar outros instrumentos e sons às nossas músicas. Tudo depende do que a música vier a pedir e se fará sentido. O que podemos afirmar com toda a certeza é que ao vivo ainda soa melhor! E não esquecer que também temos as teclas já a fazer parte do plantel sonoro, desde 2017!

 

Como vem essa escolha de instrumentos não tão óbvios no diálogo com o vosso rock visceral?

É tudo muito natural e advém do facto de gostarmos de desafios e de tentar encontrar formas de criar e compor, pois permite-nos acrescentar camadas e reforçar melodias.

 

Em Daily Grind percebe-se um equilíbrio interessante entre agressividade e melodia, com uma letra muito centrada no desgaste emocional do quotidiano. Sentem que este álbum é também um dos vossos trabalhos mais explícitos a nível temático e social?

Não conseguimos ficar indiferentes a toda esta tensão, quer seja global, nacional, local ou pessoal. São tempos estranhos e parece que estamos em queda livre… é imperativo dar a volta. Este disco é o nosso retrato sonoro daquilo que vamos levando da vida.

 

O percurso recente da banda incluiu a participação no Festival da Canção em 2023. Que impacto teve essa experiência na forma como a banda é hoje percecionada e, sobretudo, na vossa própria visão enquanto grupo de rock?

Foi uma experiência muito boa e correu bem! Nunca fez parte das nossas expectativas concorrer, mas quando o Nuno Galopim nos telefonou a convidar, vimos como um desafio e aceitámos de imediato. Tínhamos acabado de lançar o Old, New, Fast’n’Slow, quinto disco, lançado em junho de 2022, e não tínhamos nenhuma música na gaveta. World Needs Therapy foi uma criação exclusiva para o festival e foi gravada em outubro de 2022. É uma honra fazer parte da história do festival da canção e foi uma grande promoção. Fomos à final, obtendo o sexto lugar no geral, tendo sido terceiros pelo voto do público. Ainda hoje, somos abordados e reconhecidos por essa participação. Tocamos sempre essa música no nosso alinhamento ao vivo.

 

 Olhando para trás, desde Ready! Set! Go! até Rock ’n’ Roll Salvation, o que é que ainda vos move a continuar a fazer rock com esta intensidade? O que é que este disco diz sobre o futuro imediato dos Dapunksportif?

O que nos move é a intrínseca vontade de comunicar através das canções e atuações ao vivo. O ato de criação de canções tem algo de mágico e é uma autodescoberta pessoal. Ao vivo, as emoções soltam-se e toda essa criação ainda se torna mais forte servindo de dínamo para novas criações.

 

Rock ‘n’ Roll Salvation já saiu há algum tempo. Como tem sido a sua promoção em palco?

Temos tido alguns concertos, mas, tendo em conta esta falta de circuito, ainda queremos bastantes mais para apresentar o álbum e aumentar o número de espectadores e base de fãs.

 

Muito obrigado, mais uma vez. Querem acrescentar mais alguma coisa?

É muito importante que haja público para manter as venues e alimentar o gosto pelo Rock, por isso um apelo que fazemos é precisamente para todos apoiarem as bandas e irem assistir aos concertos…o Rock vive e não morre!!!

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