Entrevista: Disaffected

 

Com mais de três décadas de existência, os Disaffected permanecem como uma entidade singular no panorama do metal extremo nacional, donos de uma identidade que sempre privilegiou a exploração progressiva, dissonante e conceptualmente ambiciosa. O regresso discográfico com Spiritual Humanized Technology, sucessor de um hiato prolongado, afirma-se antes como síntese de passado, presente e intenção futura. Nesta conversa com o baixista António Gião e com o vocalista José Costa, mergulhamos na génese do novo álbum, na sua dimensão conceptual e no modo como a banda continua a redefinir o seu próprio léxico musical.

 

Olá, pessoal, como estão? Obrigado pela disponibilidade. Spiritual Humanized Technology surge oito anos após The Trinity Threshold. Que fatores explicam este longo intervalo entre álbuns e de que forma esse tempo se refletiu na maturação musical e conceptual do novo trabalho?

ANTÓNIO GIÃO (AG): Olá, Pedro. Está tudo a rolar bem, obrigado! Desde já muito obrigado pela entrevista a Disaffected. O novo álbum começou a ser composto em 2019, e no final desse ano já tínhamos 3 músicas feitas, e a ideia seria que durante 2020 acabaríamos o disco e entraríamos em estúdio no final desse ano. Entretanto, deu-se a pandemia e fomos compondo calmamente à distância, mas como os ensaios eram menos frequentes, o processo abrandou um pouco. Recomeçámos depois os ensaios e a composição seguiu normalmente e sempre com o cuidado de estruturar bem as músicas e seguir a linha a que nos propusemos desde o início da composição. A maturação musical foi um fator para que as coisas se fizessem com pés e cabeça, a ideia foi continuar com a matriz death metal progressiva da banda, jazzy e groovy, mas voltando um pouco à fórmula dos 2 primeiros álbuns, mais experimental e dissonante. No final ficou um álbum conceptual tanto a nível musical com das letras, prog e com groove, mas mais dark e com ambiências que transportam o ouvinte para outras dimensões.

 

Sentem que este hiato acabou por ser benéfico para a banda, permitindo um maior aprofundamento da vertente progressiva e experimental que sempre vos caracterizou?

AG: Sim, este hiato acabou por ajudar a refletir sobre o rumo da banda a nível musical. No álbum anterior (The Trinity Threshold) mantivemos o nosso som “O som Disaffected” progressivo, mas acabámos por divergir um pouco dos dois primeiros discos (Vast e Rebirth), seguindo uma linha mais baseada em canções com a estrutura clássica (verso-refrão-verso), e neste novo álbum, como referi anteriormente, voltámos à linha mais experimental dos dois primeiros discos, com canções com estruturas menos óbvias, com ambiências dark, linhas de baixo jazzy e com muito groove, guitarras e teclados ora com melodia, ora com dissonâncias, mas sempre com o toque progressivo Disaffected, e sendo o mais originais possível.

 

O álbum é assumidamente conceptual. Podem explicar-nos qual é o fio condutor de Spiritual Humanized Technology e de que forma as diferentes faixas dialogam entre si dentro dessa narrativa global?

JOSÉ COSTA (JC): Spiritual Humanized Technology tem como fio condutor a reflexão sobre o lugar do ser humano num mundo cada vez mais mediado pela tecnologia. As letras falam de uma necessidade de questionar o lugar do humano num território cada vez mais ocupado pela máquina e progressivamente afastado do espiritual. Cada tema funciona como um símbolo dentro desse percurso. Não contam uma história no sentido clássico, mas representam momentos de fratura, suspensão ou revelação. Há vozes que interrogam, outras que observam em silêncio, outras ainda que resistem. A relação entre Deus, Homem e Máquina não é apresentada como um conceito fechado, mas como um triângulo instável. As letras movem-se dentro dessa instabilidade, ora aproximando-se da transcendência, ora afundando-se na mecanização, ora procurando um ponto de equilíbrio que nunca é definitivo. Musicalmente, as canções respiram juntas. Há ecos, repetições subtis, tensões que se prolongam de um tema para o outro, criando a sensação de um fluxo contínuo. O álbum funciona como um caminho, uma viagem a percorrer e descobrir. No fundo, Spiritual Humanized Technology é uma visão, um espaço simbólico onde cada canção procura resposta para a mesma questão: o que permanece humano quando tudo à nossa volta tende a tornar-se máquina?

 

O tema Resistance – The Age Of Digital Apocalypse sugere uma leitura crítica da relação entre humanidade e tecnologia. Este é um dos eixos centrais do conceito do álbum?

JC: Sim, essa canção representa um dos eixos centrais do álbum, Resistance – The Age Of Digital Apocalypse representa a tensão explícita dentro da relação entre humanidade e tecnologia. Aqui interessou-me abordar esse tema como um estado limite. A ideia de “apocalipse digital” não é o fim do mundo no sentido literal, mas a possibilidade de uma rutura interior: o momento em que o humano corre o risco de ser absorvido, normalizado ou diluído por sistemas tecnológicos que evoluem mais rápido do que a nossa consciência. A “resistência” de que falo não é uma rejeição da tecnologia, mas é antes um apelo à preservação da interioridade, da autonomia do pensamento e da dimensão espiritual do ser humano. Esse conflito atravessa todo o álbum, manifestando-se ora de forma mais subtil, ora mais confrontacional, e aqui atinge uma expressão mais direta dessa inquietação.

 

Musicalmente, o álbum cruza raízes progressivas com groove e uma atmosfera mais sombria e astral. Em que medida sentiram necessidade de expandir o vosso som para “novas dimensões” sem perder a identidade dos Disaffected?

AG: A descrição que fazes da sonoridade do novo álbum está correta e muito próxima do goal que pretendíamos para este disco. Sentimos que a orientação deste álbum deveria divergir do anterior e pegar nas raízes dos dois primeiros, dando um toque mais dark e ambiental, sem nunca perder a matriz death metal da banda. Penso que o resultado foi exatamente o que pretendíamos e ficámos muito satisfeitos com o resultado final, tanto a nível musical como de produção. É óbvio que irá haver sempre pessoal que gostou da linha do The Trinity Threshold e que preferia que se continuasse nessa linha, e irá haver outros fãs mais antigos que aplaudiram este regresso à onda mais experimental dos dois primeiros álbuns (Vast e Rebirth)… Não se pode agradar a todos (risos)! Em resumo, este álbum faz com que as pessoas viajem nestas novas dimensões musicais e reflitam, e na sua maioria foram propositadas. Embora pense que não seja um álbum de fácil audição, e à imagem do Vast, só se conseguirá entender o disco na sua vertente conceptual, com muitas audições.

 

Todos os membros da banda estão envolvidos noutros projetos musicais. Como se geriu a agenda e o foco criativo para dar forma a este álbum e até que ponto essas experiências paralelas influenciaram o resultado final?

AG:  Sim, o Costa tem os Sacred Sin, e o restante pessoal também tem projetos paralelos, mas em relação ao compromisso com a banda e o empenho pessoal de cada um, essa questão não interfere. A nível de agenda, há sempre hipóteses de encontrar datas compatíveis e haver a disponibilidade individual para tal. Em relação ao foco criativo, também não interfere, porque os outros projetos dos membros são muito diferentes de Disaffected, e penso que não houve nem há sobreposições de ideias. Disaffected sempre teve o seu estilo muito próprio que chamo “O som Disaffected”, que à 2ª ou 3ª audição de um tema novo se sente de imediato, e é essa matriz que queremos preservar e continuar a fazer a nossa música o mais original possível em cada álbum que compomos e que gravamos.

 

O processo de gravação decorreu entre 2023 e 2024 em diferentes estúdios, com produção partilhada entre a banda e Fernando Matias. Como descreveriam esta colaboração e que impacto teve na sonoridade final do disco?

AG: Sim, o álbum foi gravado e produzido pelo Fernando Matias entre 2023 e 2024, e a escolha dele para a produção foi natural, porque ele já conhecia o som da banda (tinha produzido os 2 álbuns anteriores), além de ser um excelente profissional para se trabalhar. O facto de a gravação ter sido realizada entre 2 estúdios teve a ver com a necessidade de encontrar as melhores condições para captar e gravar os instrumentos. A bateria foi gravada nos Black Sheep Studios em Mem Martins, por questões de acústica da própria sala, e penso que a parte orgânica do som da bateria foi alcançada na plenitude. Os restantes instrumentos foram gravados também pelo Fernando Matias nos seus The Pentagon Audio Manufacturers Studios em Loures, tal como a mistura final. A sonoridade final do disco foi totalmente satisfatória, e a cereja no topo do bolo foi mesmo a masterização fantástica feita pelo Miguel Tereso nos Demigod Recordings, que com a sua vasta experiência e excelência nesse campo, deu aquele toque final old-school e potente, que fez com que o álbum ficasse com recorte e também com power, sem nunca haver saturação. Em resumo, ficámos muito satisfeitos e orgulhosos do resultado final do som do álbum.

 

Spiritual Humanized Technology é lançado através de duas editoras, a Firecum Records e a Larvae Records. Como surgiu esta parceria dupla e que vantagens trouxe, em termos de distribuição, alcance e posicionamento do álbum no panorama underground atual?

JC: A parceria surgiu de forma muito natural, porque já existia uma ligação prévia tanto com a Firecum Records como com a Larvae Records. Não foi uma decisão estratégica fria, mas o prolongamento de relações construídas com base em respeito mútuo, afinidade estética e uma visão semelhante sobre o underground. Desde cedo fez sentido unir esforços. Spiritual Humanized Technology é um álbum exigente, conceptual e pouco imediato, e percebemos que uma edição conjunta permitiria potenciar forças complementares. Cada editora traz o seu próprio alcance, o seu público específico e a sua rede de contactos, o que acabou por ampliar significativamente a visibilidade do álbum sem comprometer a identidade da banda. Em termos de distribuição e posicionamento, essa colaboração permitiu que o disco chegasse a diferentes territórios e círculos do underground, mantendo uma coerência editorial e evitando uma lógica puramente comercial. O álbum beneficiou de uma abordagem mais cuidada, próxima e alinhada com o tipo de público que realmente se envolve com este tipo de músicas. No fundo, foi uma situação em que todos ganharam: as editoras, por estarem associadas a um trabalho em que acreditam, e a banda, por ver o álbum tratado com respeito e difundido de forma orgânica. Num panorama underground cada vez mais fragmentado, este tipo de colaboração faz todo o sentido e reflete exatamente o espírito que está na base deste lançamento.

 

Consideram Spiritual Humanized Technology uma continuidade natural do caminho iniciado em Vast, ou veem-no como um ponto de viragem na discografia dos Disaffected?

JC: Vejo Spiritual Humanized Technology como ambas as coisas: uma continuidade natural do caminho iniciado em Vast e, ao mesmo tempo, uma nova aventura dentro da discografia dos Disaffected. Existe uma linha invisível que liga os dois álbuns. Em Vast já estava presente inquietação em relação ao ser humano, à consciência, ao que nos transcende e ao lugar que ocupamos num universo maior. Spiritual Humanized Technology parte desse mesmo impulso, mas transporta-o para um contexto contemporâneo, onde a tecnologia passou a ocupar um papel central e incontornável. A continuidade está sobretudo na atitude e na intenção: a recusa de abordagens superficiais, a procura de profundidade conceptual e a vontade de usar a música extrema como meio de reflexão. Nesse sentido, SHT é uma extensão natural de Vast. Mas é também uma nova aventura porque o ponto de observação mudou. O mundo mudou, nós mudámos, e isso reflete-se tanto na linguagem musical como na forma de escrever e de encarar o processo criativo. Há mais silêncio, mais espaço, mais consciência do peso de cada escolha. Não se trata de repetir uma fórmula, mas de revisitar uma essência a partir de outra fase da vida. Por isso, não vejo o álbum como um ponto de rutura, mas como uma evolução consciente. Um passo em frente que honra o passado sem ficar preso a ele.

 

Após o lançamento do álbum, o que está previsto em termos de concertos? Há já planos concretos para apresentar Spiritual Humanized Technology ao vivo, em Portugal ou no estrangeiro?

AG: Em relação à promoção do Spiritual Humanized Technology, que saiu em novembro passado numa parceria com a Larvae Records e Firecum Records, além dos concertos de lançamento já feitos em Lisboa e Porto, vamos continuar durante este ano de 2026 a marcar datas e agendar presenças em festejos em Portugal, e se surgir a hipótese de uma tour lá fora, iremos averiguar as possibilidades e condições para tal. A promoção do novo álbum será também muito ajudada com o lançamento do vinil comemorativo dos 30 anos do Vast, que sairá em fevereiro pelas nossas editoras (Larvae Records e Firecum Records), e uma promoção ajudará a outra em certa medida, tanto a nível de vendas como de móvel de interesse para as pessoas nos irem ver ao vivo.

 

Tendo em conta a complexidade e densidade do novo material, que tipo de experiência pretendem proporcionar ao público em contexto de palco?

JC: Em palco, a experiência que pretendemos proporcionar é, acima de tudo, a partilha de um momento de exploração. Não encaramos o concerto apenas como a execução de temas, mas como uma viagem sensorial e emocional, onde banda e público entram no mesmo espaço e seguem juntos. A complexidade e a densidade do novo material pedem envolvimento. Queremos que quem nos vê ao vivo sinta que está a atravessar algo, que não está apenas a assistir, mas a participar. A música cria o movimento, as dinâmicas criam a tensão, e o silêncio, quando existe, é tão importante quanto o som. É nesse equilíbrio que a viagem acontece. Em concertos especiais, utilizo alguns adereços com uma intenção muito clara: ajudar a transportar o ouvinte mais rapidamente para dentro da nossa “nave”. Não como um elemento teatral gratuito. A ideia é isso funcionar com um catalisador simbólico, uma forma de quebrar a barreira entre palco e plateia e alinhar todos no mesmo percurso. A partir daí, seguimos juntos pelo nosso cosmos musical. No fundo, o palco é o lugar onde a visão se torna experiência. Onde a música deixa de ser conceito e passa a ser presença partilhada, intensa e irreprevelível. É isso que procuramos oferecer a quem se dispõe a embarcar connosco.

 

Por fim, mais de três décadas após a formação da banda, como olham para o percurso dos Disaffected e para o lugar que Spiritual Humanized Technology ocupa nessa história?

AG: Os Disaffected nestes 35 anos de existência sofreram muitas alterações de formação e alguns acidentes de percurso, que originaram até um hiato de 9 anos devido a um acidente de moto que o guitarrista fundador teve e que infelizmente o deixou em coma muito tempo. Mas o foco e o amor à banda dos membros que foram permanecendo levaram a que a banda nunca fechasse portas. É precisamente devido a esse foco e dedicação que fomos gravando discos e tocando ao vivo o máximo possível, e que a mim pessoalmente me orgulha, e que faz com que eu faça parte da banda desde os inícios. O Spiritual Humanized Technology é o 4º álbum de originais da banda, e penso que foi uma espécie de recomeço, um voltar às origens, à matriz de 1994 (o ano que marcou a viragem de sonoridade da banda mais death/thrash para progressive death metal), com alguns toques de modernismo, escuridão e poder de reflexão em relação ao mundo atual, e para mim é um dos nossos melhores e mais ousados trabalhos até à data.

 

Obrigado, pessoal. Querem acrescentar mais alguma coisa?

AG: Obrigado eu em nome da banda por esta excelente entrevista. Queria só deixar uma palavra a todas as pessoas que sempre ajudaram a banda desde o início, e que continuam a acreditar em nós, às nossas editoras e a todos os fãs antigos e os que só agora descobriram Disaffected, que nos continuem a apoiar, tanto ao nível da compra de merch como na presença nos concertos. Uma banda, e nós não somos exceção, vive do público e dos consumidores de música, e é para todos eles que compomos e gravamos discos, partilhando assim a nossa arte e as nossas ideias. Temos prazer em gravar discos e tocar ao vivo, e enquanto isso não morrer e teremos forças, iremos sempre continuar a ter prazer em tocar música e nos sentir satisfeitos com isso. 

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