Entrevista: Duques do Precariado

 


Desde 2014, os Duques do Precariado têm construído um percurso à margem de fórmulas previsíveis, afirmando a música como espaço de encontro, fricção e comunidade. Se Antropocenas expunha o colapso e o ressentimento como força motriz, Encarnação propõe um desvio: menos Máquina, mais Carne; menos dispositivo conceptual, mais presença partilhada. Gravado numa lógica crua e orgânica, com instrumentos acústicos e tempos respirados, o novo disco assume a precariedade como matéria estética e ética. Como, de forma eloquente, nos explica o coletivo.

 

Encarnação surge como sucessor de Antropocenas, mas também como um gesto quase oposto em termos de abordagem sonora e conceptual. Em que momento sentiram que este disco tinha de ser “do tamanho da banda” e não de uma ideia mais solitária ou tecnológica?

É difícil precisar o momento. Foi um conjunto de conversas que nos encaminhou para a decisão. Quando fizemos o Antropocenas, era fácil encontrarmo-nos, conseguíamos passar muito tempo a falar, e depois muito tempo a tocar porque nos víamos com frequência. Depois saímos de Lisboa. O Fragoso foi para o Porto, o Pedro foi para Coimbra, onde estava o João Neves. Encontrarmo-nos passou a ter de ser uma coisa planeada. Por um lado, queríamos que esse encontro fosse uma coisa celebratória por si só, não queríamos que fosse um meio para atingir um bom disco. Por outro não queríamos estar a fingir que somos uma banda que toca mesmo bem quando não temos tempo para ensaiar. Sabemos que a música muito bem ensaiada tem virtudes, mas a verdade é que a maior parte da história do Homo sapiens é feita de música pouco ensaiada, com poucos meios, cuja beleza está no contexto de significados que ela carrega. Quando ouvimos o Bright Future da Adrienne Lenker, sentimos licença para fazer um disco sobretudo com instrumentos acústicos, e quando ficámos com uma ideia de como é que nos queríamos encontrar para tocar, chamámos o disco Encarnação e isso, por sua vez, começou a gerar os seus próprios significados do que estávamos a fazer.

 

Inicialmente pensado como Artes do Mato, o projeto acabou por se transformar radicalmente. O que é que se perdeu e, sobretudo, o que se ganhou nesse processo de abandono da sofisticação técnica em favor de uma lógica mais crua, anti-Máquina e pró-Carne?

O Artes do Mato foi adiado e fazê-lo ainda está no nosso horizonte. A ideia do Artes do Mato era fazer um disco pós-colapso, de ficção especulativa, sobre como nos safarmos nos escombros de uma civilização e que música é que lá se toca. Por um lado, não nos sentíamos prontos para essa aventura, por outro, as canções que estavam a aparecer estavam a pedir uma espécie de aceitação dos nossos limites e de cultivar o estado de espírito certo para lidar com o desconchavo da sociedade onde moramos e com o seu lento desmoronamento. As canções estavam a pedir uma certa educação moral e emocional que já tem de estar formada antes do Artes do Mato. Começou a ser claro que havia uma luta anterior que era a de ser pessoa, e não uma espécie de produto com curadoria, e o pró-Carne exprime isso.

 

Dizem que descobriram que uma das formas de lidar com a precariedade é abraçá-la, ainda que isso “dê muito mau ativismo”. Como é que essa ideia se traduz em música e em presença física, e por que é que vos parece mais perigosa ou mais honesta do que o ativismo explícito?

Esta pergunta é delicada porque pode parecer que estamos a dizer às pessoas como que se devem sentir em relação à sua própria precariedade. Mas de qualquer maneira é fixe pensarmos o que que é que quer dizer sobre nós e sobre o mundo, o facto de sermos precários e evitar algumas ratoeiras mentais. Uma delas é acharmos que somos precários porque há alguma coisa de errado connosco. Não é verdade. A outra vem de acharmos que a precariedade é uma anomalia num sistema que de resto funciona bem. Também não é verdade porque esse sistema, a economia de mercado, sempre dependeu da precariedade e só funciona com ela. Não é uma anomalia. Se a precariedade não estava visível, era porque se fazia um bom trabalho a escondê-la noutros países de cujos recursos e trabalho barato dependíamos e dependemos. Agora está visível e, a muitos de nós, bateu à porta. E, portanto, se quisermos ser sérios sobre acabar com a precariedade, o que estamos a exigir é nada mais nada menos do que o fim da economia de mercado e, portanto, da sociedade como a conhecemos. Assim de repente, isto parece perigoso porque envolve rejeitar uma forma de civilização que é levada como um andor nas costas de trabalho precário. E quando se deixa de acreditar nos mitos de uma civilização, é quando ela começa a ruir. O problema é que agora temos de arranjar outro andor em que acreditar. Precarius, no latim, quer dizer uma coisa obtida através de preces ou orações. Se deixarmos de dirigir as nossas orações e preces a um aparelho de Estado que é muito eficaz a manter e aumentar desigualdades, ficamos numa situação de facto perigosa para os poderes instituídos. É assim que nascem bandidos, criminosos, terroristas, revolucionários, profetas e líderes messiânicos. Mas também podem nascer comunidades que cuidam melhor de si próprias. Dentro de todas as hipóteses esta é a única para a qual, nos Duques, temos vocação. E nesta, a música ocupará sempre um lugar central, não como aquilo que estamos habituados a consumir como arte, mas como uma forma fundamental de participação de todos na vida e nos ritmos da comunidade. Perdemos tantas aptidões e saberes sobre como viver em comunidade que tocarmos uns com os outros parece um bom começo.

 

Encarnação canta “o que aflige a carne”: morte, amor, renascimento. Sentem que este é um disco mais íntimo ou mais coletivo do que Antropocenas, ou essa distinção já não faz sentido para vocês?

As letras cantam uma forma de vida interior que o Antropocenas não cantava, e os arranjos também têm uma forma menos gregária e comunitária do que o Antropocenas apesar de ter sido tocado e feito por muito mais gente. No Antropocenas a vida interior era sobretudo ditada pelas deformações sociais à nossa volta, a emoção dominante era sobretudo o ressentimento que era uma coisa que acreditávamos (e acreditamos) que era sentida de forma alargada. Queríamos que a música exprimisse isso e a linguagem foi atrás. O problema do ressentimento é que é uma emoção muito cansativa, mesmo que se possam construir coisas grandes e bonitas, só por ressentimento ele de facto não gera novidade, só reage, não nutre, mesmo que funcione como estratégia de sobrevivência. E começou a haver espaço nas nossas vidas para haver outras emoções mais benéficas do que o ressentimento, que vão dar de beber ao Encarnação. De facto, parece um disco mais íntimo apesar de ter sido tocado por mais gente. Mas a morte, o amor e os renascimentos são dramas universais mesmo que o teatro seja íntimo.

 

A presença assume aqui um papel central: tocar juntos, respirar juntos, comprometer-se mutuamente. Num tempo cada vez mais mediado por ecrãs, loops e automatismos, que importância política e simbólica atribuem hoje ao simples ato de estar em palco?

A importância de fazermos coisas juntos não é política nem simbólica, é uma questão de sobrevivência moral, emocional, espiritual e prática. A alternativa é a solidão mascarada de conectividade. O estar em palco ainda é uma coisa que estamos a descobrir o que é que significa para nós. Sentimos que há qualquer coisa de valioso que acontece num concerto, mas não percebemos até que ponto ela não é desmanchada pela lógica comercial e pelas lógicas quantitativas da economia da atenção e da “projeção” que temos de ter através da nossa “presença” no digital para conseguir ter palcos para tocar.

 

O single Falho, lançado em novembro, antecipou esse lado mais visceral do disco. Por que essa canção é como porta de entrada para Encarnação? O que é que ela condensa do espírito do álbum?

Felizmente não somos nós que escolhemos o single, é o Rui Ferreira que nos editou na Lux Records. Nunca teríamos sequer considerado o Falho como single. Talvez porque só tem um acorde e teríamos vergonha. Mas a verdade é que assim que o Rui disse que assim seria, pareceu uma escolha óbvia que condensa de facto, acidentalmente, uma série de atributos que o disco tem: as referências bíblicas, a celebração da imperfeição e da simplicidade, sem esconder a vontade de fazer e ser melhor.

 

O alinhamento instrumental é mais amplo e orgânico, com flautas, gaita, viola Braguesa e percussões a dialogarem com guitarras e vozes. Como foi construída esta paisagem sonora e que papel teve cada elemento na identidade final do disco?

Queríamos que as canções se aguentassem ao frio sem grandes agasalhos só com três pessoas a tocar, queríamos que soasse campestre para estimular a imaginação e possibilidades do rural, e, depois de muitas discussões, queríamos tocar sem metrónomo para que o tempo da música fosse o dos corpos em conjunto e não de uma máquina exterior a eles. O Fragoso, o Pedro e o Neves encontraram-se muitas vezes para testar diferentes combinações de instrumentos que havia à mão para tocá-las: o baixo acústico só apareceu à última da hora nos dias de gravação, sabíamos que queríamos usar a melódica porque a tínhamos usado numa encomenda para RTP do genérico da série Sempre e sentimos que havia coisas para explorar por aí, a braguesa também tinha ficado emprestada pelo Fred Menos em Coimbra por ocasião do Sempre. Quando fomos gravar os três a Évora, tínhamos uma espécie de lista de overdubs que queríamos fazer que era reduzida, mas depois de ouvirmos o que saiu das gravações, ficámos assustados com a qualidade das interpretações. Era muito diferente do que estávamos habituados a ouvir como consumidores de música e não refletia necessariamente aquilo que éramos capazes enquanto tocadores, mas não tínhamos capacidade de voltar a gravar. Decidimos abraçar esses takes como os japoneses tratam os vasos partidos no Kintsugi, as fendas são reparadas com uma pasta dourada de maneira a sublinhar a história, traumas e imperfeições do objeto. E, portanto, a lista de overdubs aumentou. Grande parte do trabalho de reparar fendas ficou com o Zé Stark que teve de pôr percussões em música que tinha o tempo permanentemente instável e de lhe dar uma espécie de coerência rítmica inconstante, e fez isto em parceria com o Fragoso.  As melodias que já estavam compostas para a flauta foram sobretudo gravadas pela Teresa que transmite sempre uma segurança que o material original não tinha. E o Hugo, que trouxe toda a panóplia de coisas sopráveis, ficou com parte mais exploratória e aventureira dos sopros. No fim de tudo ainda incluímos algumas teclas e synths de forma muito discreta (comparada com o Antropocenas) tocadas pelo Neves com subtileza. Por fim, outro grande responsável pelo resultado final do som do disco é o Filipe Paes, que teve uma grande disponibilidade emocional e criativa na gravação e que manteve o leme firme nas misturas apesar das nossas inseguranças e indecisões.

 

A colaboração recorrente com a Teresa Costa, tanto a nível musical como visual, parece reforçar a ideia de comunidade alargada. Até que ponto Encarnação é também um disco feito de encontros e cumplicidades acumuladas ao longo dos anos?

Os Duques do Precariado são quem aparece. São uma casa aberta que já era no primeiro disco com o Gonçalo Mendonça, o André Mccord a entrarem de forma marcante nele, tal como o Hugo Oliveira que depois acabou por tocar connosco ao vivo. Sentimo-nos muito sortudos por termos a Teresa Costa connosco no álbum e nos concertos que temos feito desde então. A Teresa é oficialmente a pessoa mais alegre e enérgica da banda e quando ela toca, tocamos todos melhor. Para além disso, poder tocar com duas flautas é um deslumbre. O tecido da banda é a amizade e o disco existe na forma que existe por uma série de amizades que não se materializam só em gente a tocar, como com a Teresa, mas numa série de coisas, inclusive casas onde fazer gravações como é o caso do Afonso Fontoura, do Gil Ribeiro e da cooperativa Bonifrates. A banda é uma forma de nutrir relações, por exemplo, com o Filipe Paes andámos sem nos ver durante muito tempo e fazer o disco foi uma forma boa de reatar conversas antigas e inaugurar outras.

 

Ao longo da vossa trajetória, sempre tocaram fora de lógicas comerciais ou artísticas mais previsíveis. Em 2026, isso continua a ser uma escolha, uma necessidade ou uma inevitabilidade?

Boa pergunta. As outras também foram, mas esta faz uma espécie de xeque. A razão por que queremos tocar fora de lógicas comerciais é porque queremos tocar dentro da lógica da amizade, achamos que sem amizade não há futuro, e porque sabemos que tocar música uns com os outros é uma coisa muito mais valiosa que arte ou comércio. E talvez por querermos isso, as lógicas comerciais não queiram nada connosco, mas também pode ser simplesmente porque não somos profissionais o suficiente nem apelativos o suficiente para sermos cobiçados por lógicas comerciais e, não sendo cobiçados, desdenhamos delas e inventamos esta coisa da amizade para justificar o nosso desdém. Já deve haver um estudo de psicologia qualquer sobre isto. Mas também criamos, como quem cria qualquer coisa, com uma aspiração vaidosa de que essa coisa possa emprenhar o mundo, ou corrigir-lhe os excessos e equívocos, e para isso acontecer, a música tem de ser ouvida. Por enquanto no século XXI a principal forma de se ouvir música é através de circuitos comerciais que parecem ter de facto alguma resistência à nossa música. Mas já fomos rejeitados tanto por sermos muito comerciais como por sermos insuficientemente comerciais.

 

Olhando para o percurso desde 2014, das canções no lixo à cave da Graça, o Antropocenas e agora Encarnação, o que sentem que realmente mudou nos Duques do Precariado: a forma de fazer música ou a forma de estar no mundo?

Mudámos efetivamente a forma de fazer música porque quando começámos não fazíamos ideia de como é que se fazia isto e agora já temos inevitavelmente algumas luzes. As razões por que fazemos ainda não mudaram, ainda que estejam sempre a ser desafiadas. Acreditamos que todas as pessoas são musicais, ainda que a história dominante seja a de que uns são músicos e outros ouvintes. E nós às vezes começamos a acreditar nessa história e temos de nos lembrar constantemente que é mentira.

 

Depois dos concertos de pré-lançamento em Lisboa e no Porto, a apresentação oficial aconteceu a 30 de janeiro, em Coimbra, no Salão Brazil. Como correram essas noites e o que tem mais planeado para o futuro?

Essas noites, sobretudo a primeira, na BOTA em Lisboa, foram de algum nervosismo porque estávamos a mostrar uma coisa que tínhamos guardada e feita com carinho há algum tempo e que sabemos que é uma coisa diferente do que se costuma apresentar como música, e também porque a cinco só tínhamos dado um concerto o ano inteiro. Para além de ser bom ter finalmente apresentado o Encarnação, foram noites importantes porque sentimos o afeto de quem nos foi ouvir, vimos corpos a mexer e a cantar com a música que fizemos, e é uma coisa poderosa fazer parte de momentos assim. O nosso humilde desejo é conseguir rodar o Encarnação por aí fora para o ficarmos conhecer melhor, para ficarmos com ele no corpo e para continuarmos a ver corpos a mexer e cantar connosco. Sabemos que vamos tocar a Odemira em abril, a Coimbra em junho, a Lisboa em julho e estamos a ver se fechamos outras datas.

 

Por fim, se Antropocenas era um encontro prolongado com a certeza do colapso, Encarnação parece sugerir outra coisa. Que tipo de futuro, mesmo que precário, frágil ou contraditório, este disco ousa imaginar?

A certeza do colapso mantém-se, e o futuro, para quem não for bilionário, é sombrio. O Encarnação representa uma escolha de como lidar com esses tempos sombrios, de decidir que há coisas sagradas nisto de ser humano e de estar disponível para a luz e o calor que essas coisas emanam, e de fazer as pazes com o que aí vem.

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