Entrevista: Necro Algorithm

 


Num universo onde a relação entre homem e máquina deixa de ser metáfora para se assumir como destino inevitável, Necro Algorithm afirma-se como um dos projetos mais conceptualmente rigorosos do underground nacional. Com Machina Omnipotens, Melkor leva a lógica mecanizada do projeto ao seu extremo absoluto, abandonando qualquer vestígio de ambiguidade ou coexistência para abraçar uma visão totalitária da supremacia algorítmica. À conversa com a Via Nocturna, o multi-instrumentista fala-nos da evolução do projeto, da colaboração estrutural com D-Void, do papel central da tecnologia enquanto tema e ferramenta, e da construção de um universo sonoro que recusa conforto, esperança ou compromisso.

 

Olá, Melkor, como estás? Obrigado pela disponibilidade. Machina Omnipotens marca um novo capítulo no percurso de Necro Algorithm. Em que ponto criativo sentiste que este álbum precisava de existir e o que o distingue, à partida, do lançamento anterior e dos teus outros lançamentos?

Estou bem, obrigado eu pelo interesse. Machina Omnipotens nasce de um ponto muito específico do meu percurso: a necessidade de levar a estética mecanizada de Necro Algorithm ao extremo lógico. No lançamento anterior explorei a fusão entre carne e máquina, mas ainda havia um resquício de humanidade, uma espécie de resistência implícita. Desta vez quis eliminar completamente essa margem. Quis mostrar o que acontece quando a máquina não só domina, mas redefine a própria noção de existência. Este álbum precisava de existir porque senti que a narrativa de Necro Algorithm não podia ficar presa a metáforas. Era altura de assumir a distopia como realidade total. Machina Omnipotens é mais frio, mais clínico, mais implacável. A produção é mais mecanizada, as letras são mais diretas e o conceito é absoluto: não há salvação, não há equilíbrio, não há coexistência. Há apenas a supremacia algorítmica e a dissolução completa da consciência humana. O que o distingue dos meus outros lançamentos é precisamente essa ausência de compromisso. Aqui não há espaço para nostalgia, emoção ou humanidade. É a visão final, o ponto onde a máquina deixa de ser ferramenta e se torna divindade.

 

Olhando para trás, como vês a evolução do projeto desde o álbum de estreia até este novo trabalho? Sentes que Machina Omnipotens representa um ponto de chegada ou antes uma etapa intermédia de transformação?

A evolução de Necro Algorithm tem sido uma progressão inevitável rumo ao despojamento total da condição humana. No álbum de estreia ainda existia uma certa ambiguidade, uma luta entre a carne e a máquina, uma tensão entre identidade e desintegração. Era um ponto de partida, quase um aviso. Com o tempo, percebi que essa ambiguidade já não fazia sentido dentro da estética que o projeto pedia. A máquina não negocia, não hesita, não partilha espaço. Ela consome. Machina Omnipotens representa precisamente esse momento em que deixo de explorar a fusão e passo a assumir a substituição. É um álbum mais frio, mais direto e mais absoluto. A narrativa já não é sobre coexistência, mas sobre supremacia. Nesse sentido, sim, é um ponto de chegada, o culminar lógico daquilo que venho a construir desde o início. Mas ao mesmo tempo é também uma etapa intermédia. Porque, ao eliminar a humanidade do centro da equação, abro espaço para explorar novas formas de desumanização, novas estéticas e novas linguagens dentro deste universo. A máquina não tem limites, e o projeto também não. Machina Omnipotens fecha um ciclo, mas abre outro ainda mais impiedoso.

 

Estás envolvido em vários projetos musicais em paralelo. Como te divides entre tantas frentes criativas sem diluir a identidade própria de cada uma delas?

É cada vez mais difícil, para ser sincero. Quanto mais projetos tenho em paralelo, mais complicado se torna explorar sonoridades diferentes sem que alguma coisa acabe por “colar” a algo que já fiz antes. É inevitável, no fim do dia sou eu que componho tudo nos meus projetos a solo, e a minha identidade acaba sempre por transparecer, quer queira quer não. Mas tento gerir isso de forma consciente. Em alguns projetos procuro trazer outras pessoas para dentro do processo, precisamente para quebrar padrões e introduzir elementos que eu, sozinho, não faria. Noutras situações sou eu o convidado, e aí a dinâmica muda completamente: entro num universo que não é o meu e adapto-me ao ADN do projeto, o que também me obriga a sair da minha zona de conforto. No caso de Necro Algorithm, mantenho sempre uma linha estética muito clara, o que ajuda a não diluir a identidade. Cada projeto tem o seu espaço, a sua linguagem e a sua função. Mesmo que existam colisões ocasionais, e existem, tento transformá-las em algo produtivo, em vez de as ver como limitações.

 


Normalmente trabalhas de forma bastante solitária. Neste álbum surge a colaboração de D-Void. Como aconteceu esse encontro e de que forma a sua presença alterou o ADN de Machina Omnipotens?

É verdade que trabalho quase sempre de forma solitária, mas no caso de Necro Algorithm há uma exceção fundamental: o D-Void. Ele está comigo desde o primeiro álbum e é um amigo de longa data, alguém que conhece a minha forma de criar desde a adolescência. Para ser sincero, sem a colaboração dele este projeto não faria sentido. Ele entende instintivamente o que a música pede, percebe a estética e a direção conceptual sem que eu tenha de explicar. O D-Void não é apenas um convidado, é uma peça estrutural. Trabalha comigo neste projeto e noutros que tenho, e tem uma capacidade muito própria de pegar nas minhas ideias, reorganizá-las e dar-lhes forma. Ele inventa, acrescenta, desmonta e reconstrói. E isso faz toda a diferença. Em Machina Omnipotens, a presença dele ajudou a solidificar o ADN do álbum. Trouxe clareza, estrutura e aquela frieza mecânica que o disco exige. A minha visão continua lá, intacta, mas com a precisão adicional de alguém que sabe exatamente como transformar caos em máquina.

 

Ao observar os títulos e a sequência dos temas, é difícil não pensar numa lógica narrativa. Estamos perante um álbum conceptual? Existe uma ideia central que sirva de fio condutor?

Sim, há claramente uma lógica narrativa. Não gosto de forçar o rótulo “álbum conceptual” só porque soa bem, mas neste caso é impossível fugir disso. Machina Omnipotens tem uma linha condutora muito definida: a substituição progressiva da humanidade por sistemas algorítmicos totalitários. Cada faixa representa um estágio dessa transformação, desde o colapso cognitivo inicial até à supremacia absoluta da máquina. Os títulos e a sequência não são acidentais. Funcionam como capítulos de uma mesma descida, primeiro perdemos memória, depois vontade, depois identidade, até que deixamos de existir enquanto espécie. O álbum acompanha essa erosão passo a passo, sem metáforas românticas nem esperança artificial. É uma narrativa fria, mecanizada e inevitável. Portanto, sim: existe uma ideia central que une tudo. Machina Omnipotens é a história da morte da consciência humana e da ascensão de uma entidade algorítmica que já não precisa de nós para nada. É um álbum conceptual porque a própria essência do projeto exige essa coerência.

 

Que papel assume a tecnologia, não apenas como temática, mas também como ferramenta, no processo de composição e produção deste álbum?

Não há como fugir à tecnologia e neste álbum isso é ainda mais evidente. Desde a DAW onde gravo todos os instrumentos, aos VSTs que utilizo para criar texturas mais frias e mecanizadas, passando pela produção, masterização e até pelo hardware por onde o sinal circula, tudo depende de processos tecnológicos. A própria identidade sonora de Machina Omnipotens nasce dessa relação inevitável entre criação humana e ferramentas digitais. Mas o mais interessante é que essa dependência não é apenas prática, é também conceptual. A tecnologia não serve só para executar a música; ela molda a estética, influencia decisões e acaba por contaminar o próprio ADN do álbum. A frieza, a precisão e a sensação de desumanização que o disco transmite resultam diretamente desse ambiente de trabalho. No fundo, a tecnologia é simultaneamente tema e ferramenta. É o meio pelo qual componho e também o espelho da narrativa que estou a construir. E isso cria uma espécie de ironia inevitável: para criticar a supremacia algorítmica, tenho de a usar. É um ciclo que faz parte da identidade de Necro Algorithm.

 

A sonoridade deste álbum parece mais densa e mecanizada, mas também mais consciente das suas próprias regras. Foi um disco pensado de forma mais racional e programática ou deixou espaço para instinto e improvisação?

A sonoridade deste álbum é mais densa e mecanizada porque, desta vez, trabalhei com uma noção muito clara das regras internas do próprio universo de Machina Omnipotens. Há uma lógica estrutural que não podia ser ignorada, a música tinha de soar como a máquina que descreve. Nesse sentido, sim, houve um lado mais racional e programático, especialmente na forma como construí ritmos, texturas e camadas. Mas não foi um processo totalmente calculado. O instinto continua a ter um papel enorme no meu trabalho. Muitas das ideias surgiram de forma espontânea, quase impulsiva, e só depois é que as moldei para encaixar na estética do álbum. É um equilíbrio estranho: a máquina exige precisão, mas o impulso inicial ainda nasce do caos humano. Portanto, diria que o disco vive dessa tensão. Há uma estrutura fria e lógica por trás de tudo, mas deixei espaço para improvisação e para aquele momento em que a música simplesmente acontece. No fundo, é essa fricção entre controlo e instinto que dá vida ao som mecanizado do álbum.

 

Há novidades a curto ou médio prazo relativamente a outros projetos em que estás envolvido? Podemos esperar lançamentos paralelos ou novas colaborações num futuro próximo?

Em relação a Necro Algorithm, posso adiantar que o próximo passo já está definido: tenho um novo álbum completamente composto e, mais uma vez, conto com a colaboração do D-Void. Neste projeto não faz sentido abrir espaço para mais participações, a identidade de Necro Algorithm é muito específica, e a dinâmica entre nós já é parte estrutural do ADN do som. É um universo fechado, com regras próprias. Nos outros projetos a situação é diferente. Aí existe sempre a hipótese de trazer participações de outras pessoas, desde que façam sentido para a estética e para as sonoridades que estou a explorar. Cada projeto pede uma abordagem distinta, e às vezes a presença de alguém externo é precisamente o que permite quebrar padrões e abrir novas direções. Quanto ao que vem aí, posso dizer que o início do ano vai ser particularmente intenso: tenho cinco álbuns em CD a serem lançados por duas editoras nacionais. É uma forma de começar este ano com força e de dar continuidade ao trabalho que tenho desenvolvido em paralelo. Fora esses cinco lançamentos, continuo a trabalhar noutros projetos, a explorar novas sonoridades e, acima de tudo, a tentar aprender algo com cada processo, especialmente na parte da mistura e masterização, que é uma área onde estou sempre a evoluir. Para mim, criar é um ciclo contínuo; quando um álbum termina, outro já está a ganhar forma.

 

Necro Algorithm sempre teve uma dimensão muito “interna” e conceptual. Existe, ainda assim, a possibilidade de apresentações ao vivo? Se sim, como imaginas a transposição deste universo sonoro para o palco?

Sim, existe essa possibilidade e, na verdade, isso foi pensado desde o primeiro álbum e voltou a ser considerado neste segundo. Infelizmente, ainda não se proporcionou, muito por causa das vidas e disponibilidades das pessoas em quem posso confiar para este tipo de projeto. Necro Algorithm exige uma entrega muito específica, tanto técnica como conceptual, e nem sempre é fácil encontrar quem esteja disposto a assumir esse compromisso. Ainda assim, espero que este ano consiga finalmente reunir uma equipa capaz de levar esta sonoridade para o palco. A minha intenção é apresentar algo que seja 200% fiel aos álbuns gravados, não apenas tocar as músicas, mas transpor todo o ambiente mecanizado, frio e opressivo que define o universo de Necro Algorithm. Se for para fazer ao vivo, tem de ser com a mesma precisão e intensidade que existem em estúdio. A visão está lá. Falta apenas encontrar as pessoas certas para a executar.

 

Para terminar, que tipo de escuta esperas de Machina Omnipotens? Um confronto imediato ou uma assimilação lenta ao longo do tempo?

Sinceramente, não sei bem o que esperar. É sempre uma incógnita. Lá fora o álbum tem sido muito bem recebido, mas em Portugal nunca sei como vai ser interpretado. Machina Omnipotens não é um disco imediato, nem tenta agradar a ninguém, é denso, frio e mecanizado, e isso pode gerar tanto confronto direto como uma assimilação mais lenta. Acho que depende muito do ouvinte. Quem entrar no álbum à procura de algo visceral e opressivo vai sentir o impacto logo na primeira audição. Quem preferir absorver camadas, conceitos e atmosferas talvez precise de mais tempo para perceber a lógica interna do disco. As duas abordagens são válidas. No fundo, o que espero é que o álbum provoque alguma coisa, desconforto, reflexão, fascínio ou até rejeição. O pior que poderia acontecer era passar despercebido. Machina Omnipotens foi feito para ser sentido, não apenas ouvido.

 

Obrigado. Queres acrescentar mais alguma coisa?

Quero agradecer ao Pedro Carvalho e à Via Nocturna pelo interesse e pelo apoio contínuo ao underground. É sempre importante haver quem dê espaço a projetos mais extremos e conceptuais, e esse compromisso merece ser reconhecido. Para quem queira conhecer Necro Algorithm, deixo apenas um aviso: este não é um projeto pensado para agradar ou para ser confortável. É uma viagem fria, mecanizada e opressiva, construída para quem procura algo mais denso e conceptual dentro do metal extremo. Se entrarem neste universo, façamno sem expectativas e deixem a máquina falar por si. O resto é inevitável.

Comentários

ÁLBUM DO ANO 2025 - Categoria Metal (Nacional): Tormentos (HYUBRIS)

GRUPO DO MÊS VN2000 #02/2026: BOOBY TRAP (Firecum Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #07/2026: Fugitive (FILI BIBIANO'S FORTRESS) (High Roller Records)