Brumas do Mar – Lisboa, Mar e Alma (MARIA LEÓN)
(2026, Independente)
Sem recorrer a dramatismos nem a produções densas, Maria León constrói aqui um disco assente no essencial: voz, melodia e espaço. Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma aposta numa abordagem contida, onde o minimalismo se impõe como método de expressão. Piano e guitarras acústicas e clássicas sustentam a estrutura das canções, enquanto o violoncelo e a flauta surgem apenas quando necessário, ornamentando os temas, ao mesmo tempo que sublinham a intenção. O eixo está na ideia clássica de canção portuguesa: contemplativa, lírica e centrada na palavra. As referências às cantigas de amor e de amigo e ao imaginário trovadoresco e o recurso a um poema de Fernando Pessoa são os melhores exemplos deste registo que também entra por cenários cinematográficos. O resultado é um Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma, marcado pela maturidade, sereno, emocional e com arranjos discretos que revelam cuidado e critério. [84%]
Túnel Kármico (BACO)
(2025, Tuff)
Quando se convidam
outros artistas a colaborar num álbum, o objetivo é, seguramente, melhorar o
produto final. Não é, de todo, o que acontece no tema de abertura Complicado
do EP de estreia de Baco, Túnel Kármico. Josias, nome do
convidado, pouco ou nada acrescenta ao tema e até acaba por comprometer o
arranque do disco, fruto de um desempenho vocal pouco convincente. Quem
conseguir ultrapassar este momento ainda vai a tempo de se surpreender. Sim,
porque Baco assina um trabalho assumidamente orientado para o groove,
onde os ritmos eletrónicos dançáveis se cruzam com uma abordagem funk e soul,
num pulsar Motown. Essa vertente remete, em vários momentos, para alguns
dos melhores instantes dos Expensive Soul, sobretudo pela forma como o groove
é tratado como elemento central da canção. A introdução de guitarradas
musculadas em Olha Pra Mim e Fora da Caixa revela-se
particularmente eficaz, afastando o EP de uma lógica puramente eletrónica.
Ainda assim, nem tudo resulta em pleno. A introdução do hip hop em Veneno
é discutível, embora funcional; e a curta duração dos temas (mais parecendo
projetos que obras acabadas) denuncia alguma imaturidade artística. Há,
claramente, ideias e potencial em Túnel Kármico. As arestas existem para
ser limadas. Mas fica o aviso: escolher bem os convidados também faz parte do groove.
[72%]
Six Degrees Below The Horizon (DRKNSS)
(2025, Ethereal Sound
Works)
Lançar um EP de remixes
para assinalar o aniversário de um álbum é, por natureza, um exercício de
interesse discutível. Six Degrees Below the Horizon, dos DRKNSS,
enquadra-se precisamente nesse território ambíguo, ainda que possa ser lido
como um olhar analítico sobre o seu próprio ADN sonoro. Ainda assim, o valor do
EP reside na forma como os remixes são pensados e organizados. Nomes
como Order In Chaos e Gwen Basurah optam por desconstruir o
material original, extraindo novas camadas emocionais através de pulsações
industriais e de uma lógica mais próxima do clubbing, em vez de
abordagens previsíveis ou meramente funcionais. É logo na abertura que surge o
momento mais relevante do EP: a versão de Something In The Way, icónico
tema dos Nirvana. A canção aparece despida da sua crueza grunge e
reinventada num registo eletrogótico, com a participação decisiva de Paula
Teles, que ajuda a preservar a angústia original, agora convertida numa
atmosfera mais etérea e cinematográfica. No final, Six Degrees Below The Horizon
afirma-se como um trabalho coerente e bem delineado, mas essencialmente
complementar, sendo sobretudo relevante para os ouvintes mais atentos e fiéis
ao universo dos DRKNSS. [75%]
Confraria Rocktuga – A Coletânea 2 (V/A)
(2025, Independente)
A Coletânea 2
volta a provar que o rock português continua longe de ser um corpo
inerte. Reunindo 15 temas inéditos de 15 projetos sob a égide da Confraria
do Rock Tuga, esta segunda edição assume-se como um retrato honesto e
plural de uma cena que vive sobretudo da persistência, da entreajuda e da
vontade de fazer acontecer. Um dos dados mais relevantes é a predominância da
língua portuguesa, utilizada em 9 dos 15 projetos, reforçando uma identidade
própria e sem complexos. Musicalmente, a coletânea percorre um espectro amplo
dentro do rock: do punk ao industrial, do hard rock ao grunge,
do alternative rock ao rock clássico, garantindo variedade e
autenticidade. Entre os vários contributos, há nomes que se impõem com maior
clareza. Christina Quest destaca-se por uma abordagem acústica e
orquestral, construída sempre em crescendo e em permanente desenvolvimento; Peter
Strange apresenta um rock extremamente criativo, espetacular na
forma como apresenta soluções pouco previsíveis; Dixit acrescenta
intensidade através de um rock com toques clássicos, fruto da presença
do órgão; Line assume sem rodeios o território do hard rock, com riffs
diretos; Konfusäo fecha o leque dos destaques com um heavy rock
fiel ao espírito mais tradicional do género. Assim, esta obra cumpre plenamente
o seu propósito: dar visibilidade, afirmar diversidade e reforçar a ideia de
comunidade. [88%]
Powerplay (HFMC)
(2026, Freia Music)
Powerplay é o segundo álbum de estúdio dos
suecos Hasse Fröberg
& Musical Companion (HFMC), originalmente lançado em 2012 e
agora relançado a 20 de
fevereiro de 2026 pela FREIA
Music, numa edição remasterizada em formato digital HR e CD. O
disco regressa ao catálogo após vários anos fora de circulação, respondendo a
uma procura continuada por parte do público. Musicalmente,
Powerplay afirma-se como um
trabalho de rock progressivo com fortes ligações ao rock clássico,
revelando uma sonoridade quente e identitária. O alinhamento inclui composições
extensas e ambiciosas, como My River To Cross e The Final Hour,
equilibradas por temas mais diretos. Esta reedição apresenta áudio remasterizado, novo artwork e duas faixas bónus ao vivo (Venice CA e White Butterfly),
escolhidas por serem favoritas do público e representativas da energia da banda
em palco. O relançamento de Powerplay
assinala também o início da
colaboração da banda com a editora FREIA, funcionando como um
reencontro com uma fase determinante do percurso do grupo. HFMC é
liderado por Hasse Fröberg, conhecido
igualmente pelo seu trabalho de longa data com The
Flower Kings, sendo acompanhado por músicos experientes da cena
progressiva sueca. [89%]






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