Entrevista: Confraria do Rock Tuga

 

Num tempo em que o ruído mais interessante do rock nacional parece crescer longe dos holofotes, há projetos que funcionam como pontos de encontro, agregando vozes dispersas numa mesma vibração coletiva. A Confraria do Rock Tuga é um desses raros espaços de convergência, onde a urgência criativa se sobrepõe a fórmulas e onde o espírito de comunidade se afirma como motor de resistência. É nesse contexto que surge esta conversa com João Paulo Castanheira, voz dos Balbúrdia, que nos guia por dentro desta rede informal de cumplicidades que resulta no lançamento do segundo volume da sua coletânea.

 

A Confraria do Rock Tuga – A Coletânea 2 assume-se, mais uma vez, como uma fotografia de um momento específico do rock nacional. Que retrato achas que este disco traça da cena portuguesa atual?

Traça um retrato plural, inquieto e muito vivo. Mostra uma cena que talvez não esteja no centro dos grandes palcos mediáticos, mas que pulsa com autenticidade, identidade própria e vontade de criar fora de fórmulas pré-definidas. É um espelho de resistência e de liberdade criativa. Mostra que o rock português não morreu, só saiu da sala de estar e foi fazer barulho para a garagem.

 

Até que ponto consideras que esta coletânea funciona como um manifesto artístico e ideológico, e não apenas como uma compilação de bandas?

Totalmente. Não é apenas uma compilação de bandas; é uma afirmação de independência, de união e de valorização do circuito alternativo. Há uma ideia de comunidade e de missão cultural que ultrapassa o simples ato de editar músicas num mesmo suporte. É quase um murro na mesa a dizer: “Estamos cá, fazemos à nossa maneira”!

 

A diversidade estética presente no alinhamento é uma força ou um desafio para a coerência do disco enquanto obra única?

É força, claramente. O rock nunca foi uniforme. Aqui há contraste, há choque, há personalidade, e isso é saudável. Pode representar um desafio em termos de coerência sonora, mas, enquanto documento artístico, acaba por reforçar a riqueza e a abrangência do movimento.

 

Achas que este segundo volume consolida definitivamente a Confraria do Rock Tuga como uma plataforma estruturante para bandas independentes, ou ainda estamos numa fase de afirmação?

Diria que está numa fase intermédia: já consolidou identidade e credibilidade, mas continua a crescer e a estruturar-se. Este segundo volume mostra maturidade, mas também ambição para ir mais longe. Está a construir algo com identidade própria, e isso não se faz de um dia para o outro.

 

O rock português tem sido visto, nos últimos anos, como um movimento vibrante e diverso fora dos circuitos convencionais. Como analisas a cena atual e a importância desta iniciativa coletiva?

A cena está fragmentada geograficamente, mas criativamente muito fértil. Iniciativas como esta são fundamentais porque criam pontes, dão visibilidade e reforçam a ideia de que existe um ecossistema coeso fora do mainstream. Há muita coisa a acontecer longe dos grandes festivais patrocinados por marcas de telecomunicações. A Confraria serve para ligar esses pontos e amplificar o barulho.

 

Que diferenças sentes entre esta segunda edição da coletânea e a primeira em termos de visibilidade, alcance e ambição do projeto?

Nota-se maior confiança e ambição. Há mais consciência do impacto do projeto, melhor articulação e talvez uma visão estratégica mais clara quanto ao posicionamento da Confraria no panorama nacional.

 

A coletânea é lançada exclusivamente em formato físico. Achas que este formato tradicional ainda tem impacto para bandas independentes como a vossa e como as outras aqui presentes?

Tem, sobretudo, no universo independente. O formato físico cria objeto, memória e ligação emocional. Num mundo digital e efémero, editar algo físico é quase um ato de resistência cultural e de valorização da obra. Pegar num disco é quase um ato rebelde. Ainda assim, temos uma playlist no Spotify, com todos os temas do disco, para que possam ouvir em todo o lado...

 

Relativamente aos Balbúrdia, como foi receber o convite para integrar esta coletânea e o que isso representa para a banda?

É fazer parte da “família”. É reconhecimento, mas também responsabilidade. E, claro, é sempre bom juntar a nossa voz à de outros inconformados. Integrar esta coletânea representa validação do nosso percurso e a oportunidade de partilhar a cena com bandas que respeitamos.

 

Participar num projeto que reúne bandas de várias regiões de Portugal cria alguma sinergia criativa entre os grupos? Recebeste influências ou inspirações dos outros confrades? 

Sem dúvida. Mesmo que cada banda mantenha a sua identidade, há troca de referências, partilha de experiências e inspiração mútua. Projetos assim fortalecem redes e estimulam novas colaborações. Nesse âmbito, e em jeito de inconfidência, posso adiantar em primeira mão que este ano os Balbúrdia comemoram 30 anos de carreira, e que uma das atividades que pretendemos levar a cabo é a gravação de um punhado de canções nossas interpretadas por outras bandas e artistas, e a Confraria terá um peso significativo de representantes neste processo.

 

Em termos de público, achas que iniciativas como a Confraria do Rock Tuga conseguem chegar a novos ouvintes fora das cenas locais mais tradicionais?

Sim, porque cruza públicos das diferentes bandas. Um ouvinte que compra a coletânea por causa de um grupo acaba por descobrir outros. Isso amplia horizontes e descentraliza a escuta. Quem vem por uma banda acaba por descobrir três ou quatro. É quase “contrabando musical”!

 

Consideras que este tipo de iniciativas pode ter um papel pedagógico, ajudando públicos mais jovens a descobrir a história viva do rock português fora do mainstream?

Claro. Mostra aos mais novos que o rock português não é só nostalgia dos anos 80 ou 90. É quase um arquivo vivo daquilo que está a acontecer agora. Funciona como porta de entrada para quem quer conhecer o rock português fora do circuito mais mediático.

 

Olhando para o futuro, achas que a Confraria do Rock Tuga deve continuar a apostar neste formato de coletâneas ou explorar outros modelos de edição e colaboração?

As coletâneas são importantes como documento e símbolo, mas pode ser interessante explorar concertos itinerantes, colaborações entre bandas, edições temáticas ou outras atividades complementares. Quanto mais ruído coletivo, melhor.

 

Se tivesses de definir A Coletânea 2 numa única frase para alguém que nunca ouviu falar do projeto, qual seria?

A Coletânea 2 é um retrato coletivo, cru e apaixonado do rock português independente, que não pede licença, ocupa espaço.

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