The Sound
Of Grief tem raízes que remontam ao início do milénio, quando Carlos Matos
deu forma embrionária ao projeto Kakerlakk. Com uma honestidade desarmante e com
uma nova solidez enquanto banda, o projeto açoriano regressa com este trabalho
que já estava disponível desde o ano passado apenas em formato digital e que
mais recentemente teve direito a uma edição física. Nesta conversa com Carlos
Matos, mergulhamos no processo, nas origens e na visão de um trabalho que, mais
do que um simples lançamento, se assume como um novo começo.
Olá, Carlos, antes de
mais, bem-vindos e obrigado pela disponibilidade. Como estão a viver este
momento de lançamento e receção do novo álbum?
Estamos a viver este momento com um misto de
satisfação e surpresa. The Sound Of Grief é um disco profundamente
pessoal, com uma carga emocional intensa, e nunca foi pensado para “agradar” de
forma fácil. O tema do álbum não é muito “comercializável”, e sinceramente isso
não nos incomoda; pelo contrário. Ainda assim, o disco tem recebido ampla
divulgação, tanto a nível regional como nacional, e uma receção muito positiva.
Desde entrevistas televisivas até artigos em jornais, ficamos verdadeiramente
agradecidos pelo destaque que o álbum tem merecido, muito graças ao trabalho
incansável e inestimável do Mário Lino Faria e da Basalto Cultural.
Além disso, através das ferramentas digitais disponíveis atualmente,
conseguimos perceber que o álbum está a chegar a diversos países, o que reforça
a nossa convicção de sempre: a música é verdadeiramente universal.
Para quem vos descobre
agora, como apresentariam os Kakerlakk e a vossa identidade sonora dentro do
espectro do rock alternativo?
Os Kakerlakk são uma banda de rock alternativo
com raízes no grunge, no punk e na música que nos formou,
sobretudo das décadas de 80 e 90. Não pretendemos ser nem soar “retro”, mas
sim ser honestos com aquilo que nos moldou musicalmente. Há peso, há
melodia (sempre) e há ambientes mais introspetivos e uma certa crueza
emocional.
O projeto começou
originalmente em 2000 como iniciativa a solo tua e passou por longos períodos
de pausa até ganhar nova vida em 2023. Que impacto tiveram essas interrupções
na maturação artística e na forma como este disco foi concebido?
As pausas foram fundamentais. Deram-me tempo,
distância, vivência… coisas que acabaram por influenciar decisivamente a forma
como olhei para estas músicas quando as revisitei. Muitas delas nasceram há
décadas, mas só agora fez sentido finalizá-las e apresentá-las com a maturidade
que, entretanto, fui adquirindo a vários níveis.
The Sound Of Grief surge dois anos
após Overdue e marca uma fase de consolidação com uma formação estável.
Sentem que este álbum representa uma afirmação definitiva da banda enquanto
unidade criativa?
Sim, e representa também uma afirmação da identidade
artística. Embora a interpretação e a energia da banda sejam hoje essenciais
para dar vida às músicas, a base criativa (composição e letras) continua a ser
muito pessoal e anterior até à própria formação atual. Este disco mostra essa
fusão entre algo que nasceu há muito tempo e os músicos que hoje o ajudam a
respirar.
O disco foi antecipado
pelo single Every Time I Die, que já deixava perceber um tom
confessional e emocionalmente exposto. Essa dimensão íntima foi intencional
desde o início do processo de composição?
Na verdade, não é uma dimensão nova. Praticamente
todos os temas dos Kakerlakk foram compostos há cerca de 30 anos. O que
aconteceu agora foi um processo de atualização, sobretudo a nível das letras.
As emoções já estavam lá. Foram escritas em fases muito específicas da minha
vida, mas ganharam novas leituras, novos detalhes e outra consciência com o
passar do tempo.
As letras e a
sonoridade exploram temas como perda, memória e transformação, equilibrando
peso e melancolia com melodia. Como se constrói esse equilíbrio entre densidade
emocional e acessibilidade musical?
Esse equilíbrio já fazia parte da forma como eu
escrevia na altura. Sempre me interessou que uma canção pudesse ser intensa e
emocional, sem deixar de ser musical. Procuro sempre a melodia, acima de tudo.
Ao revisitar estes temas, o trabalho foi respeitar essa essência original e
apenas ajustá-la ao presente: polir algumas palavras e deixar que a experiência
acumulada ajudasse a clarificar aquilo que já existia.
A faixa-título conta
com participações especiais, nomeadamente a voz de Zeca Medeiros e ainda
contributos instrumentais convidados. Como surgiram essas colaborações e que
dimensão adicional trouxeram ao tema?
A ideia surgiu de forma muito espontânea. Quando
estava a ouvir uma das rough mixes do tema, senti que faltava alguma
coisa e comecei a imaginar uma voz a declamar um poema em português. Tenho
muitos textos escritos na nossa língua e escolhi um que senti que encaixava
perfeitamente no contexto da letra já existente em inglês. Contactei o Zeca,
que conheço desde a infância e com quem mantenho uma amizade mais consciente
desde a adolescência, e propus-lhe essa abordagem. Ele trouxe exatamente a
carga humana, narrativa, profunda e quase mística que eu imaginava. A outra
colaboração é do Rogério Medeiros, no violoncelo. Também somos amigos desde os
tempos de adolescência e, ao longo dos anos, ele foi pontualmente gravando
partes de violoncelo nas minhas sessões caseiras sempre que eu sentia que uma
música precisava daquela textura mais orgânica e profunda. Neste tema voltou a
acontecer de forma muito natural.
Embora o álbum tenha
saído digitalmente em 2025, a edição física em CD foi apresentada mais
recentemente numa sessão especial de audição. O que vos motivou a apostar
também no formato físico nesta fase?
Porque ainda acreditamos muito no objeto físico
enquanto extensão da música. Este é um disco pensado para ser ouvido como um
todo, com tempo. O CD permite esse ritual de escuta e funciona quase como um
documento. Sentarmo-nos a ouvir o álbum enquanto lemos o livreto do início ao
fim é uma forma de entrar verdadeiramente no universo do disco. A opção por uma
edição bilíngue foi também totalmente consciente: quisemos que a mensagem das
letras pudesse chegar a mais pessoas, respeitando a língua em que foram escritas,
mas abrindo também uma porta a quem as escuta noutras geografias. Sendo as
palavras uma parte tão importante destas canções, fazia sentido torná-las
acessíveis sem perder a sua identidade. Com esta edição física, quisemos
recuperar exatamente essa experiência e dar essa oportunidade a quem considera
essa parte essencial. O álbum é um todo que fica, que materializa todo um
processo criativo de canções que existiram durante décadas antes de serem
editadas. É a prova física de um caminho longo, de um sonho que finalmente se
tornou realidade.
Já tiveram algumas
aparições televisivas e apresentações especiais que ajudaram a consolidar o
vosso nome junto do público. O que podem os fãs esperar da experiência
Kakerlakk em palco atualmente?
Em palco, as músicas ganham outra dimensão. São mais diretas,
mais físicas, mais intensas. A banda traz-lhes energia e respiração coletiva,
sem perder o lado emocional que está na origem da escrita. O objetivo é que o
público sinta que as canções estão vivas naquele momento.
Para terminar, obrigado
pelo teu tempo! Que próximos passos gostarias de revelar e que mensagem final
deixas a quem vos acompanha e a quem vai descobrir agora o universo Kakerlakk?
Antes de mais, queremos agradecer o convite e a
atenção dedicada ao projeto. É sempre um prazer poder falar da música com esse
cuidado e profundidade. O próximo passo será continuar a pôr estas canções cá
para fora e permitir que ganhem nova vida também ao vivo, passe a redundância.
Durante muitos anos existiram quase em
silêncio, por isso agora é o momento de as deixar respirar. Ainda temos muito
para oferecer. A quem nos acompanha desde o início, fica um agradecimento
sincero pela presença e pela confiança. A quem está agora a descobrir os Kakerlakk,
o convite é simples: ouçam com tempo, sem pressa. Estas músicas cresceram ao
longo de décadas e carregam todo esse percurso dentro delas. Agora pertencem ao
presente e vão encontrando o seu lugar também nele ao sabor do tempo.




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