Entrevista: Summer Of Hate

 

Para saber mais sobre o momento atual dos Summer Of Hate e o processo criativo por detrás de Blood & Honey, estivemos à conversa com João “Jonas” Martins, mentor e principal força criativa. Entre influências que cruzam shoegaze, psicadelismo e sonoridades do Médio Oriente, o músico aprofunda temas como identidade artística, improvisação em palco, os desafios de criar fora das lógicas de mercado e os próximos passos do projeto.

 

Olá, bem-vindo! Obrigado pela disponibilidade. O novo disco Blood & Honey apresenta-se como uma obra conceptual assente na dualidade. Quando surgiu a ideia de estruturar o álbum em dois lados distintos e complementares?

Logo após o lançamento do primeiro álbum Love Is Dead! Long Live Love em 2022. Queria inicialmente fazer dois EPs e lançá-los com três meses de diferença. Estivemos durante o ano de 2023 a compor ambos os lados até que a CMP decidiu fechar o CCSTOP, onde ensaiamos, e isso atrasou bastante o flow criativo, pois eu e a Laura tivemos que trabalhar para a associação ALMA em defesa do STOP e fazer algum ativismo. A decisão de fazer tudo um só álbum em duas partes teve em conta o nosso orçamento, com o apoio da Fundação GDA e porque era mais prático.

 

Assim, o lado Blood explora uma vertente mais densa e hipnótica, enquanto Honey revela uma faceta mais melódica e romântica. Foi um processo composicional consciente desde o início ou a divisão surgiu organicamente?

Sim. A ideia de misturar música sufi, hindustani e rock da Anatólia já estava presente desde o primeiro álbum. Nós desde o período promocional do primeiro álbum tocávamos a Ashura ao vivo, pois é um tema que existe há 8 anos, mas acabamos por não incluir no primeiro álbum porque ia exceder o orçamento (mais uma vez com o apoio da GDA). O álbum teria sido muito mais expansivo, só que não deu. Faz parte da identidade e sonoridade da banda e da história do rock psicadélico essa tentativa de aproximação ao oriente e queríamos ir um pouco mais longe. Por que não ao shoegaze? Por que é que o shoegaze tem que ser aquela coisa adolescente, melancólica e glaciar? Com este disco queríamos um pouco “forçar” esse exercício de fazer uma troca justa entre trazer esses sons para cá e levar o nosso som para lá. Daí esta obsessão com a dualidade: sabíamos que ia ser um álbum incoerente e assumimos essa incoerência no conceito como algo necessário para expandir o som da banda para o futuro, tal como o Sandinista! foi para os Clash. Depois a partir do Combat Rock (1982) eles iriam conseguir incorporar melhor e de maneira mais subtil a música global no seu som de raiz e fazer álbuns mais coerentes. Aqui a ideia é a mesma.

 

Há uma forte presença de escalas e referências musicais do Médio Oriente, do Sul da Ásia e de tradições globais. De que forma essas influências entram no vosso método criativo?

Estão lá desde que comecei a tocar guitarra a sério. Eu comecei em 2007 a tocar, mas apenas em 2013-2014 é que comecei a levar a coisa a sério. E por “levar a coisa a sério” digo “tive quatro aulas de guitarra” em 2014. Basicamente aprendi a afinar o instrumento e a tocar escala maior e pentatónica. Lembro de ter comprado um capo e um livrinho com todos os desenhos de acordes. A grande revolução para mim foi quando aprendi uns temas de Placebo, nomeadamente a Teenage Angst e a Bionic e comecei a fazer leads e solos só na mesma corda com drone na de cima ou de baixo e adotei isso como uma coisa minha, pois era algo que me emocionava imenso. Isso mais tarde evoluiu para a afinação ostrich que o Lou Reed popularizou, em que afinava todas as cordas na mesma nota, tendo um drone permanente em que usava só um dedo. Ao encarar as 6 cordas como uma só, uma pessoa apenas tem que se preocupar com as emoções respetivas que cada mudança de nota transmite. Ok, o que é que eu sinto se ir do fret 0 para o 1? O que sinto se for do 0 para o 2? 0 para 3, etc. e aí comecei a tocar escalas frígias sem saber, apenas subvertendo a escala maior. Comecei a fazer “coisas médio-orientais” sem saber de forma intuitiva, graças à magia do drone e a seguir o meu coração. Tu nunca acabas por meter o dedo todo no traste e vais ter sempre uma nota raiz em todo o lado e vais ter só de aceitar, surfar o drone e aceitar que és um com algo maior que tu. Mais tarde descobri a afinação de cítara para a guitarra e são essas três que uso: a standard, uma versão adaptada da ostrich que criei para mim e a afinação de cítara e exploro apenas essas três. Sempre que vou jammar sozinho, ponho sempre um drone por trás. Não é só uma influência, mas também uma tendência natural que ainda não sei bem explicar.

 

A sonoridade da banda tem raízes claras no shoegaze e psicadelismo, mas também dialoga com pós-punk, noise rock e pop sessentista. Sentem que hoje já existe uma identidade sonora completamente definida dos Summer Of Hate?

Sim, acho que conseguimos mostrar algo mais próximo daquilo que realmente somos mas cada álbum pode ser uma exploração e exercício diferente com esse mesmo som. Onde é que eu posso levar e encaixar estes timbres? O quão é que eu posso esticar a identidade da banda sem a perder? Como soar diferente e igual a mim próprio ao mesmo tempo? É isso que me estimula imenso em estúdio. Há muitas bandas que seguem a lógica dos Beatles de fazer os primeiros discos iguais e depois quando estão seguros é que experimentam. O que se esquecem é que entre o Please Please Me de 1963 ao Rubber Soul de 1965 vão apenas dois anos. Simplesmente os Beatles lançavam dois discos por ano nessa altura. Portanto entre o primeiro álbum e o Rubber Soul eles gravaram cinco álbuns, mas num curto período de tempo. Significa que eles, muito jovens, começaram logo a experimentar com o próprio som, pois foram dadas quatro provas de conceito iniciais. O nosso caso é diferente: podíamos fazer a mesma coisa e escoar todos os temas dessa maneira e, de certa forma, é sempre esse o objetivo: gravar o máximo possível. O problema é que não somos putos ricos e não existe propriamente uma estrutura por trás de nós a financiar-nos, portanto, estamos sempre dependentes de apoios culturais para gravar o que leva a que cada álbum tenha que significar algo e não ser apenas uma coleção de canções. Tal como os Beatles nos últimos dois discos: uma vez que passamos pelo período “experimental”, vamos só fazer canções com tudo o que aprendemos ao longo dos anos.  Penso que o que é apelativo em Summer Of Hate é que não estamos a acompanhar modas ou tendências do mercado, quer a nível sonoro, quer a nível de vestuário. Levo a arte muito a sério e de uma maneira bastante espiritual: a banda tem um conceito e um conjunto de regras e a piada é o quão brincamos com esse conceito e respetivas regras e nunca abdicarei disso, doa o que doer. Tão depressa não nos vais ver a soar a Mk.gee, a post-punk gentrificado ou a dreampop de playlist do Spotify. Isso, para além de nos enterrar no meio de um mar de slop que nos impede de nos destacarmos do resto, é a morte da criatividade, da inovação e da expressão humana.  É mais provável que os próximos avanços sejam algo muito próximo de fazer uma mistura mais fluida entre o Blood e o Honey, incorporar mais elementos de post-rock, folk e, mais tarde, trip-hop. Este álbum foi um risco muito grande, mas um passo largo que tivemos que dar para mostrarmos quem realmente somos.

 

O álbum foi gravado em dois estúdios e com equipas diferentes. De alguma forma essa abordagem fragmentada influenciou a narrativa sonora do disco?

Há coincidências engraçadas: fomos para longe de casa (Lisboa, estúdios HAUS) gravar “música global” e voltamos para casa (Porto, CCSTOP) gravar música que nos é mais próxima. Em Lisboa gravamos com o Thomas Attar, que é um grande dinamizador da música médio-oriental na Europa. Se vamos incorporar esses sons, então vamos fazer isso com alguém que estudou o assunto, tem mais referências e conhecimento e que nos pode ensinar coisas novas e corrigir-nos se cairmos em clichés e apropriações culturais. O Thomas teve mais input criativo a nível de estrutura de canções e ajudou-nos imenso, puxando por nós para fazer cada secção brilhar. Eu e a Laura tivemos sempre a palavra final e nunca houve conflitos, fomos sempre partindo e explorando ideias uns dos outros até toda a gente ficar satisfeita. Das demos ao resultado final, há uma diferença colossal, especialmente a nível de devaneios. Com o Rafa no lado Honey também isso aconteceu de maneira diferente: ele percebeu, desde cedo, que a melhor maneira de trabalhar comigo e com a Laura era deixando-nos gravar o máximo de camadas possíveis e experimentar ao máximo na fase de arranjos. O input dele era mais obrigar-nos a tomar decisões quando havia demasiado. Nunca houve conflito e ele também contribuiu fazendo certas decisões e fazendo triagem das melhores ideias. O lado Blood é um álbum mais “horizontal”, com mais dinâmicas e movimento. O lado Honey é mais “vertical”, pois apesar da estrutura ser mais simples, os temas estão mais carregados e saturados nos poucos “blocos” que tem. Ambos são super orquestrais, mas de maneira diferente.

 

Este trabalho tem lançamento pela editora americana Tee Pee Records. Que impacto teve esta parceria na projeção internacional da banda?

Todo. Foi graças ao Thomas que conseguimos este contacto. Ele gostou muito do projeto e quis imenso estar envolvido e quer que tenhamos sucesso e deu-nos bastantes insights em como a indústria funciona e os próximos passos a dar. Depois apareceu a gig.ROCKS para management e nos marcar concertos. A Tee Pee quer afastar-se um pouco do heavy psych e voltar um pouco às raízes neo-psicadélicas e do shoegaze. Eles acham que somos um bom showcase dessa mudança e ficamos agradecidos por essa oportunidade. É a primeira vez que estamos a trabalhar com uma editora e com uma agência e penso que finalmente vamos entrar mais no radar das pessoas. Acho que o projeto tem tudo para ter sucesso, pois, apesar de ser música de referências bastante específicas, tem bastante potencial de apelar ao cidadão comum. Acho bastante curioso o fenómeno R.E.M., especialmente em Portugal: é uma banda de jangle pop, com guitarras de 12 cordas, mas que é ouvida em todo o mundo e toda a gente sabe quem são apesar da tribo urbana deles ser algo super indie e anglo-saxónico.

 

O single Blood & Honey pode ser visto como uma síntese estética do álbum. Sentem-no como manifesto artístico do disco?

Com certeza. É precisamente isso o que é: uma melodia de blues tocada em afinação de cítara. É a canção que abre o álbum, depois segue um bloco de três temas. No lado Honey tem apenas um bloco de três temas em que o último é um épico de três acordes que dura quase 10 minutos, a dar um tom de despedida e apoteose. Blood And Honey é uma intro que podia estar em ambos os lados. The Gospel (According To Summer Of Hate) é um tema que também serve de outro.

 

A banda começou num formato mais experimental e semimprovisado. Ainda existe espaço para improvisação na vossa abordagem atual, mais estruturada?

Sim. Nós temos aberto os concertos com a última faixa do disco, a The Gospel (According to Summer Of Hate) que nunca sabemos quanto tempo vai durar. Ou melhor, a banda não sabe. Eu sei porque sou eu que decido. Esse tema para mim é bastante free form pois o Xavier fica a tocar os três acordes, o Fonseca a fazer um motif de três ou quatro notas e eu posso sempre improvisar após acabar o meu solo. A Ashura era um pouco assim quando a tocávamos ao vivo no fim dos concertos do primeiro álbum com a formação anterior. Também temos no set agora uma jam que tocaremos sempre que formos a única banda a tocar nessa noite e tivermos uma hora ou mais que é baseada no primeiro tema da banda Dead Seahorse Blues alguma vez publicado, que já vai fazer 10 anos que era uma espécie de versão post-rock neo-psicadélica da Wicked Game do Chris Isaak. E mesmo que um gajo tenha 45 minutos apenas para tocar, há sempre feedback dos amps e swells de delay para se javardar.

 

O vosso objetivo declarado é “expandir o som e torná-lo mais pesado”. Isso significa que o próximo capítulo poderá ser ainda mais abrasivo?

Sim. Agora que a banda está com um som definido, queremos voltar um pouco às raízes post-rock da banda que sempre estiveram lá. Os primeiros temas de SOH gravados com telemóvel e aparelhos amadores, se forem revisitar, partem sempre de improvisações post-rock ou krautrock. Desta vez queremos revisitar o género, mas fazer coisas mais estruturadas e pensadas, com o que aprendemos ao longo dos anos e com mais “gesso” sonoro. Algo que um gajo pudesse ver no Amplifest. Como disse acima, queremos seguir um pouco a linha estética do tema Blood And Honey e tornar mais subtil e uno as sonoridades médio-orientais e também incorporar elementos de folk apocalíptico, post-metal e post-punk. Penso que o próximo registo terá uma sonoridade mais gélida e melancólica. Algo que nos permita, se calhar, pensar num conceito mais elaborado. O meu sonho é fazer uma espécie de Mellon Collie & The Infinite Sadness e acho que seguiremos nessa linha.

 

Está previsto um concerto a 27 de fevereiro no Maus Hábitos. Que tipo de espetáculo podem esperar os fãs nesta fase de promoção do álbum? E depois, haverá uma digressão mais ampla?

Longo e melhor. Não tocamos no Porto desde 2024 e queremos compensar. Agora temos um técnico de som, o Pedro Feio (Fugly, Offtides), que nos está a ajudar imenso. Vai ser uma performance mesmo especial dado que somos só nós essa noite. Queremos deixar as pessoas de barriga cheia porque tão cedo não voltaremos ao Porto. Vamos andar um pouco de Norte a Sul, Espanha e, em maio, temos datas no Reino Unido. Esperem também participações especiais de vez em quando e colaborações com diferentes artistas.

 

Obrigado, mais uma vez. Queres deixar alguma mensagem final?

Sim. Viva o comunismo. Morte ao neoliberalismo.

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