Entrevista: Bela Noia

 

A propósito da edição de A Bela Paranoia, fomos ao encontro de Pedro Vieira para uma conversa que mergulha no presente e nas transformações recentes dos Bela Noia. Nascida no circuito alternativo nacional, a banda tem vindo a afirmar-se através de uma abordagem ao rock marcada por uma forte componente emocional, letras introspetivas e uma constante procura de identidade sonora. Depois de um primeiro registo que apresentou as bases do projeto, este novo trabalho surge como um passo decisivo na consolidação de uma linguagem mais coletiva e ambiciosa. Uma conversa franca que ajuda a compreender melhor o percurso dos Bela Noia e as perspetivas que se abrem para o futuro, exploramos o processo criativo por detrás do disco e as dinâmicas internas da banda que moldam este novo capítulo.

 

Olá, Pedro! Antes de mais, obrigado pela disponibilidade. Para começar, como descreves este momento atual da Bela Noia, agora com A Bela Paranoia finalmente cá fora?

Para já quero mandar um abraço gigante à Via Nocturna. É com muito gosto que lemos as vossas palavras e é ótimo ver meios de comunicação a fazer críticas a discos (algo que já não acontece muito). Por esse motivo, um obrigado gigante por disponibilizarem um pouco do vosso tempo a ouvir-nos e a escrever sobre nós. Posto isto, posso dizer que estamos muito felizes mesmo. A Bela Paranoia foi uma luta gigante. Foi um disco que demorou algum tempo a preparar, especialmente na fase de pós-produção. Tivemos muitas dúvidas na estética que queríamos assumir e chocamos entre nós algumas vezes. Foi um desafio para a banda encontrar pontes estéticas que agradassem a todos, mas conseguimos e o resultado deixa-nos felizes. Neste momento estamos ansiosos para tocar e queremos mostrar esta Bela Paranoia ao vivo.

 

A Bela Paranoia é apresentado como o disco mais ambicioso da banda até à data. Em que medida sentes que este álbum marca uma rutura clara face a Os Miúdos Estão Bem

Para começar, uma das grandes diferenças é que este disco foi criado pela banda. As canções continuam a partir de mim, mas os arranjos foram feitos em conjunto. Algo que também se revelou um desafio, pois foi preciso pôr os egos de lado e, como falei há pouco, encontrar pontes. O som que se ouve parte da vontade do coletivo, mas temos muitas marcas pessoais, coisas que não aconteceram nos Miúdos. O Leo tem um som de guitarra que é dele e que à partida mudou logo a sonoridade das canções. O Miguel, ao criar os grooves livremente, também tornou a coisa mais pessoal e isto é o maior ponto de viragem. Enquanto o primeiro foi feito por mim e pelo Gonçalo, este é o produto de uma banda. A adição de um quarteto de cordas é uma vontade já antiga que foi abraçada por todos sem sequer se questionar e o resultado é soberbo. Arranjos feitos totalmente pelo Leonardo Outeiro que fez um trabalho fantástico. Além destes fatores, as temáticas, apesar de continuarem a ser muito pessoais, olham mais para o futuro e não tanto para o passado/presente como acontecia nos Miúdos. Quis que fosse um disco que me revela, que fosse mais cru nas palavras, mais violento de certa forma.

 

Este foi o primeiro trabalho verdadeiramente construído pelos quatro elementos da banda. O que mudou na dinâmica criativa e no resultado final em comparação com o passado?

Foi difícil de nos encontrarmos, especialmente por haver quatro cabeças capazes com quatro vontades diferentes. Quando trouxe canções novas para os ensaios, nós começávamos por tocar, sem grandes conversas, sem grande pensamento, apenas tocar a música. Mesmo não a conhecendo e mesmo com as mil abordagens que podíamos fazer, focávamo-nos apenas em tocar, a improvisar, a descobrir com o sentimento que nos acompanhava. Acabávamos sempre por sair desses ensaios com uma versão. Depois começávamos a incluir essas canções nos alinhamentos ao vivo. O Não Quero Mais e o Ninguém Quer Saber de Nós, são canções que já tocamos desde Os Miúdos Estão Bem. Isso também nos ajudou a encontrar novas soluções, novas opções e a aprimorar as canções. Há canções que já tiveram abordagens completamente diferentes das que existem agora.

 

O disco nasceu de um processo longo, com ideias que remontam a antes do último álbum. Como foi gerir essa maturação prolongada?

Apesar de achar que é algo bom, diria que é difícil de gerir. Tentar perceber até que ponto não estamos só a fazer alterações só porque já estamos a tocar aquelas canções há algum tempo. Isso foi a maior dificuldade, saber dizer que está feito. Mesmo agora ao vivo, queremos fazer versões diferentes do disco só porque já tocamos essas canções tantas vezes, o que pode ser ingrato para o público, pois a verdade é que o disco só saiu agora.

 

Tematicamente, o álbum mergulha em questões como a perda, finitude, memória e conflito emocional. Este é o disco mais pessoal da Bela Noia até hoje? 

Não é o mais pessoal, pois escrevo sempre sobre o que sinto. Esta é a parte mais individual da banda, a letra e as temáticas. Costumo ser eu a fazer as letras e isso torna a mensagem mais pessoal, claro. Sinto que estas letras são mais cruas, mais introspetivas em comparação ao anterior. Não sei como justificar isto, apenas aconteceu.

 

A introdução de um quarteto de cordas, com arranjos do Leonardo Outeiro, traz uma nova dimensão ao vosso som. Como surgiu essa decisão e que desafios trouxe para a identidade da banda?

Foi muito simples tomar essa decisão, pois já era uma vontade antiga e nunca duvidamos dela. O Leonardo, enquanto compositor, ficou muito entusiasmado com este desafio e a única coisa que fizemos enquanto banda foi decidir em que canções poderia fazer sentido esta adição das cordas. Depois disso o Leonardo fez tudo sozinho e mostrou-nos maquetes. A partir das maquetes, já em banda, demos a nossa opinião sobre o que ele fez, mas não alteramos nada. Só mais tarde, depois de gravarmos as cordas, é que começamos a tirar algumas coisas de algumas canções. Mas nada muito evasivo. Aqui dou o mérito todo ao Leo.

 

A colaboração com o Edgar Valente em Epitáfio (Lembrança de um Final) reforça esse lado mais cinematográfico e emocional. O que procuraram acrescentar com essa participação?

A participação do Edgar é uma vontade muito antiga que tinha. Fico muito feliz por ouvi-lo cantar algo que eu escrevi, acaba por ser uma conquista pessoal. É claro que a esta conquista acresce o facto de ele ser um cantor do caraças e ascender a mensagem deste epitáfio para um nível emocional absurdo. O objetivo inicial era que este Epitáfio funcionasse como um interlúdio, aparecia a meio do disco e também deixava a coisa respirar. Acabámos por optar por colocá-lo como introdução do disco e acho que funciona como cartão de entrada para este universo que quisemos criar.

 

Os três singles (Não Quero Mais, Meu Amor Quando Eu Morrer e À Guerra, Não Há Paz) funcionam também como capítulos de uma curta-metragem. Até que ponto este lado audiovisual é essencial para compreender o universo de A Bela Paranoia?

Esta curta-metragem é um aprofundamento dessas canções. Não reflete completamente o disco como um todo, mas foi uma proposta que fizemos, a de olhar para estas três canções como um todo, e como podíamos uni-las visualmente. Acrescentando o facto de também precisarmos de videoclipes para os singles, quisemos distanciarmo-nos do que é convencional e criar este tríptico.

 

Ainda sobre Meu Amor Quando Eu Morrer, a inspiração num verso do Fausto Bordalo Dias é particularmente marcante. Que peso têm estas referências na tua escrita? 

O Fausto é muito importante para mim e marcou-me imenso na minha altura de universidade. Especialmente esta canção Lembra-me um Sonho Lindo que acaba por me dar tema para a Meu Amor Quando Eu Morrer foi a partir da frase que dá título à música que construí este universo em que me propus a escrever uma carta de despedida aos meus entes queridos. Apesar de ser mais evidente nesta canção, Fausto (entre outros) é uma influência que abrange toda a discografia.

 

Na entrevista que nos concedeste em 2023, falavas de uma identidade ainda em construção. Sentes que A Bela Paranoia é finalmente o momento em que os Bela Noia encontram a sua voz definitiva?

Sinceramente acho que não, nós encontramos coisas novas neste disco de que gostámos. Acho que temos uma identidade, mas que navega entre muitos espectros. Sonoramente ainda queremos explorar mais e descobrir novos caminhos.

 

Também nessa conversa, havia uma forte ligação à honestidade e simplicidade do vosso rock. Como equilibram essa base mais crua com esta nova ambição sonora e estética?

Até considero estas canções mais cruas que as anteriores; são mais rock puro. Apesar de estarem maquilhadas com as cordas e outras camadas, estas canções na sua génese são rock puro. Tem a ver com a forma como as construímos, criamos as canções em banda, logo na sua base estão 4 instrumentos.

 

O facto de terem produzido integralmente o disco revela uma maior autonomia. Foi uma necessidade artística ou também uma afirmação de controlo criativo?

Nem um nem outro, acho que é resultado da circunstância. O Gonçalo produziu e gravou o primeiro, então nem questionamos como seria para o segundo. Agora já pensamos de maneira diferente e gostávamos de testar outras formas de trabalhar, com pessoas diferentes.

 

A apresentação ao vivo já arrancou em Viseu e Lisboa. Que tipo de experiência querem proporcionar em palco com este novo material, tendo em conta a sua carga emocional e narrativa? 

Queremos mostrar as canções como elas surgiram, mas também trazer um pouco deste novo disco para o espetáculo. Tentamos criar um espaço cénico que identificasse esta nova fase visualmente, e musicalmente construímos um alinhamento que expõe o disco na sua íntegra sem esquecer uma visita ao anterior.

 

Há planos para levar A Bela Paranoia a mais cidades ou até fora do país? Podemos esperar uma tour mais alargada?

Estamos a trabalhar para isso, mais recentemente começamos a trabalhar com a Tuff que se encarrega de nos montar uma tour. Para já queremos levar este disco de norte a sul de Portugal e tocar em festivais. Acho que é um concerto que se enquadra muito bem em festivais. Vamos ver como corre, não tem sido fácil enquanto banda emergente conseguir furar e conseguir o seu lugar nos festivais, no meio de tantas bandas incríveis. É um pouco ingrato, mas parece que estamos a lutar uns contra os outros, a tentar ter o melhor lugar. Gostava que não fosse assim.

 

Para terminar, Pedro, depois de um disco tão intenso e transformador como A Bela Paranoia, que próximos passos imaginas para a Bela Noia?

Já temos planos (risos), temos uma canção que só lançamos na edição física à espera de ser publicada. Queremos fazer mais dois clips, um para essa canção e outro para outra canção do disco. E tudo a correr bem, começamos já este ano a trabalhar em novidades. Mas deixo aqui este convite para nos acompanharem e verem por vós próprios. 

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